Tamanho do texto

Carteiras que replicam Ibovespa terão cerca de 3% do seu capital congelado caso a empresa peça recuperação judicial

Ações da OGX, de Eike, poderão ficar congeladas na Bolsa até que a instituição defina como resolver o caso e liquidar os papéis
Alessandro Buzas/Futura Press
Ações da OGX, de Eike, poderão ficar congeladas na Bolsa até que a instituição defina como resolver o caso e liquidar os papéis

Apesar da novela Eike Batista já ser bastante conhecida do investidor, a solução do caso na BM&FBovespa não está tão fácil assim. As corretoras de valores apontam que, graças ao ineditismo do caso, não há regulamentação clara sobre como o caso será gerenciado pela Bolsa. Tampouco pelos fundos de investimentos que replicam o Ibovespa (índice que reúne as principais ações negociadas) e, naturalmente, estão cheios de papéis da OGX nos bolsos.

Na última segunda-feira (30), a BM&F Bovespa foi obrigada a divulgar um comunicado no qual detalha qual será o procedimento para empresas em recuperação judicial com participação no Ibovespa a partir de 2014.

Para o investidor comum, o texto divulgado pela BM&F Bovespa não diz muito. Mas o superintendente nacional de Ativos de Terceiros da Caixa Econômica Federal, Marcelo de Jesus explica que caso o pedido de recuperação da OGX chegue antes da mudança para a nova metodologia do índice, a BM&FBovespa terá 50 dias para decidir o destino dos ativos. "Terminado esse prazo, estão fora do Ibovespa", afirma.

Leia mais: Se pedir recuperação judicial, OGX, de Eike, terá ações suspensas na Bolsa

A Caixa é uma das instituições que tem pressa para resolver esse caso. O Caixa FI Ações Brasil ETF Ibovespa, fundo referenciado no Ibovespa, rendeu 3,68% em agosto, quase igual ao Ibovespa – o que pode até ser um bom precedente. A má notícia: o fundo tinha, até a última segunda-feira (30), 2,89% de seu capital alocado em ações da OGX, empresa de Eike Batista que além de estar sob ameaça de calote e falência, teve seus papéis desvalorizados de R$ 23 para R$ 0,20 em pouco mais de dois anos.

Engana-se quem pensa que há algum equívoco nesse modelo de gestão, chamado de passivo. "Por mais que haja incertezas com esta ou aquela empresa do índice, replicar a carteira garante que entregamos ao investidor a rentabilidade que ele comprou, ou seja, a do Ibovespa", lembra o executivo.

Raymundo Magliano Neto, presidente da Magliano Corretora, acrescenta que, caso a recuperação judicial seja solicitada em horário fora do pregão, o impacto deverá ser menor sobre os papéis. "O problema é se essa informação vazar ao longo do dia, porque os papéis vão cair até que as negociações sejam suspensas", afirma. 

Para quem opera opções, a situação deverá ficar mais complicada. "A Bolsa terá de definir como vai arbitrar para os futuros. Não vemos um caso desse tipo desde o Naji Nahas, em 1989", diz. Especulador, o libanês Nahas foi apontado como um dos responsáveis pela quebra da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro.

Caso a recuperação judicial seja solicitada em horário fora do pregão, o impacto deverá ser menor
Getty Images
Caso a recuperação judicial seja solicitada em horário fora do pregão, o impacto deverá ser menor

Aumento do peso do OGX não chacoalhou o índice

Embora não tenham a obrigação de replicar os índices, boa parte dos fundos acompanha a estrutura da carteira teórica do Ibovespa, de forma a minimizar riscos. “A meta é sempre buscar um retorno similar ao do índice, ainda que esse resultado não seja tão bom”, explica Michael Viriato, professor de finanças do Insper.

Em setembro passado, a revisão da composição do Ibovespa para o último quadrimestre elevou de 1,5% para 4,2% o peso das ações da OGX na carteira. O desempenho do índice, no entanto, não foi prejudicado por essa reformulação.

O BlackRock, que atualmente administra o fundo iShares Ibovespa Fundo de Índice, confirma ter acompanhado a última composição da carteira teórica do principal índice nacional. A rentabilidade do fundo ficou em 4,2% em setembro, contra 4,65% do Ibovespa .

Segundo informações disponíveis no site, na última segunda-feira (30) o iShares Ibovespa Fundo de Índice tinha US$ 25 milhões em papéis da petroleira de Eike Batista, o equivalente a 2,98% da carteira. O peso de cada papel no índice oscila ao longo do mês.

Nova regulamentação pode tirar OGX do índice em 2014

Pela regra atual, o que define o peso de cada empresa na composição do Ibovespa é o volume negociado na Bolsa – motivo pelo qual a rentabilidade dos fundos ficou mais correlacionada com as oscilações da OGX este mês. A empresa tem batido recordes de movimentação na Bolsa: somente em agosto, fez circular R$ 3,4 bilhões no mercado acionário.

Mas é justamente a nova metodologia da Bovespa, que entra em vigor em 2014, que pode colocar a OGX de escanteio do índice, reduzindo ou até excluindo sua participação, acredita Thomas Chang, analista da Um Investimentos.

“Não apenas o giro de operações será considerado, como também o valor de mercado das empresas”, analisa Chang. Dessa forma, papéis com valor abaixo de R$ 1,00 serão excluídos do índice. As ações da OGX operam abaixo deste patamar desde 14 de junho.

Para Viriato, do Insper, o mercado de capitais do País vive um “momento crítico” graças ao drama protagonizado pelo empresário Eike Batista. “Só se fala em calote por enquanto, mas todos estão ansiosos para ver o fim dessa novela”, completa. O professor acredita que o Brasil não estava preparado para essa “surpresa”. “Está sendo um período de grande aprendizagem.”


*Colaborou Taís Laporta.