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Disparada da moeda fez brasileiros trocarem destino ou adiarem o sonho de decolar. Mas especialistas em finanças explicam como fazer a viagem caber no orçamento

Danielle dos Santos, de 31 anos, planejava levar os dois filhos à Flórida, Estados Unidos. Juntou dinheiro no ano passado para comprar pacotes à vista para as férias de julho. Mas mudou de ideia quando o dólar subiu até 10% em menos de trinta dias. “Agora vou levar a família a João Pessoa, no Nordeste. Será uma viagem mais curta. Vou deixar os EUA para o próximo ano”.

Cidade de Orlando (EUA), onde fica grande parte dos parques temáticos, é um dos destinos promocionais das operadoras para atrair brasileiros em tempos de dólar alto
Divulgação Walt Disney World
Cidade de Orlando (EUA), onde fica grande parte dos parques temáticos, é um dos destinos promocionais das operadoras para atrair brasileiros em tempos de dólar alto

A forte valorização da moeda americana no último mês pegou de surpresa muita gente que pretendia decolar para o exterior. Um pacote de viagem de US$ 2 mil, por exemplo, fica bem mais salgado com a variação. O turista pagaria por ele R$ 4.040 no último dia 27 de maio – com o dólar turismo cotado a R$ 2,02 para compra –, mas passaria a pagar R$ 4.440 no último dia 20, quando a moeda atingiu R$ 2,22.

Para atrair os clientes, agências de turismo congelaram o câmbio com cotações mais atrativas, ou ampliaram as promoções. A CVC, por exemplo, reduziu o dólar entre R$ 1,99 e R$ 2,05, prática que “já estava programada para o período de férias e coincidiu com a alta da moeda”, segundo a assessoria da operadora.

A Nascimento Turismo afirmou trabalhar com o câmbio de mercado, mas lançou na segunda-feira (24) uma promoção para Orlando que concedia uma passagem aérea para o segundo passageiro na compra de um pacote para o destino, em até 10 vezes, válida até quarta-feira (26). “Antes da alta já tínhamos negociado melhores tarifas com fornecedores e conseguimos formatar pacotes abaixo do mercado”, afirma o diretor geral da companhia, Plínio Nascimento.

A queda na procura por viagens internacionais sentida na agência foi compensada pela proximidade das férias de julho. “O brasileiro, mesmo com o dólar alto, chega à conclusão que as compras nos EUA são vantajosas”, acredita o executivo. Segundo Nascimento, alguns clientes acabam optando por destinos nacionais, o que aumentou as vendas no mercado doméstico.

A agência de turismo Stella Barros afirma que não houve desistências nos pacotes, mas sentiu uma queda na procura por viagens futuras ao exterior de cerca de 20%, de acordo com a gerente comercial da operadora, Carla Calil. “Fizemos promoções com o dólar entre R$ 2,05 e R$ 2,10, mas agora retornamos à cotação normal”, explica.

Para o professor de finanças do Ibmec, Gilberto Braga, não adianta levar em conta apenas o câmbio ao fechar um pacote. "É preciso comparar o valor total cobrado”, orienta.

Especializada em excursões para parques temáticos como a Disney, a Stella Barros passou a dar orientação financeira aos clientes para tornar as viagens mais econômicas. Entre as dicas, estão definir os gastos ainda no Brasil e levar cartão de débito. “Pode ocorrer de o cliente trocar parques mais caros por mais baratos ou reduzir as atrações dos pacotes, para reduzir os custos”, conta a executiva da empresa.

Nem sempre é preciso cancelar

A funcionária pública Kariny Miranda, de 37 anos, conta que teve de adiar o sonho de uma viagem ao Chile devido à alta do dólar. “Desde maio venho procurando uma boa oportunidade, mas o plano ficou inviável”, conta. Mesmo com pacotes promocionais nas agências, ela considera que a necessidade de comprar a moeda em espécie onera muito a viagem.

A disparada do dólar também afeta os planos de quem pretende estudar no exterior. É o caso do estudante Alberto Kusano, de 16 anos, que planeja cursar tecnologia ou biomedicina no MIT, em Massachussetts (EUA).

O jovem marcou viagem com o pai Susumu Kusano para setembro para conhecer a universidade. “Esta alta foi uma pena, pois os gastos se mostraram muito além do planejado”, conta a irmã de Alberto, Emily Natsumi. Se a viagem não estivesse paga, Alberto certamente teria desistido, segundo Emily.

Apesar da surpresa desagradável, especialistas em finanças garantem que desmarcar a viagem nem sempre é a melhor opção. Pequenas atitudes podem compensar a alta da moeda americana e fazer o passeio caber no orçamento.

A coordenadora do Investmania, Aline Rabelo, aconselha que o ideal é programar a viagem com, no mínimo, seis meses de antecedência, e comprar dólares aos poucos, para obter uma boa cotação e minimizar os riscos de alta. “Quem deixou para comprar dólar na última hora pode optar pelo cartão pré-pago, assim é possível limitar a quantia que será gasta”.

Comercializado em casas de câmbio, este tipo de cartão substitui o de crédito e é recomendado por evitar imprevistos no vencimento da fatura – quando o dólar pode estar maior que no momento da compra – e por cobrar IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) menor – 0,38%, comparado aos 6,38% do cartão de crédito.

Mas Braga, do Ibmec, faz uma resssalva. “O cartão pré-pago não é aceito por todos os estabelecimentos na Europa, devido a relatos de que ele pode ser clonado com mais facilidade”, diz. Por precaução, o professor recomenda levar uma reserva extra e pelo menos um cartão convencional, para emergências.

Encurtar o tempo da viagem pode não ser a melhor solução para economizar
Thinkstock/Getty Images
Encurtar o tempo da viagem pode não ser a melhor solução para economizar

O consumidor também deve atentar às promoções oferecidas pelas agências. É preciso levar em conta o valor total do pacote, quais serviços estão inclusos e se há restrições. “Nem sempre elas são vantajosas, por isso é necessário pesquisar e comparar os pacotes”, orienta Aline.

Encurtar os dias da viagem pode não ser a melhor solução para economizar, acredita a especialista. Para Aline, embora a hospedagem fique mais barata, o valor da passagem é o mesmo e as compras costumam ser feitas na mesma quantidade. O ideal seria optar por hotéis mais em conta, ou pelo aluguel de apartamentos, que costuma ser mais barato.

Aline lembra que trocar destinos internacionais pelo Brasil, como Nordeste, nem sempre resulta em economia. “Nesta região os preços podem ser bem maiores, especialmente agora, durante a Copa das Confederações”, alerta.

Na opinião do professor do Ibmec, é melhor controlar o ímpeto pelas compras do que trocar o destino ou encurtar os dias da viagem. Os itens que mais pesam são sempre transporte e alimentação, segundo ele. “Busque as alternativas mais baratas com antecedência”, sugere.

Um exemplo é optar por cartões que permitem andar de ônibus e metrô à vontade por uma semana, como em alguns países da Europa, e recorrer a mercados da cidade para economizar com alimentos. Substituir o café da manhã do hotel por estes itens, por exemplo, é uma alternativa. A compra de “lembrancinhas” para amigos ou o impulso no freeshop do aeroporto também devem ser controlados, recomenda Braga.

Passagens aéreas, por sua vez, podem sair bem mais baratas se a saída for antecipada ou transferida em um dia. “As cotações variam bastante na época em que começa a alta temporada em certas regiões”, observa o professor.

Dicas para compensar a alta do dólar em sua viagem:

1 –  Planeje a viagem com ao menos seis meses de antecedência

2 –  Compre dólares aos poucos, para minimizar os riscos e prevenir-se de altas fortes

3 –  Em pacotes com câmbio promocional, compare o valor total e veja se há restrições

4 – Opte pelo cartão pré-pago para limitar os gastos com antecedência

5 – Encurtar a viagem nem sempre reduz as despesas. Melhor controlar compras e limitar passeios

6 – Destinos nacionais podem ficar bem mais caros em época de Copa das Confederações

7 – Troque hotéis pelo aluguel de apartamentos, que pode ficar mais em conta

8 – Antecipe a viagem em um dia se houver promoções de passagens aéreas


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