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iG mostra a mesa de operações do Ministério da Fazenda que define os preços dos títulos; aplicações somam R$ 4 bi desde 2002

O investidor pode adquirir um título de renda fixa pelo Tesouro Direto sem sair de casa, pelo computador. Mas como funciona o outro lado dessa operação? O iG teve acesso aos corredores do Ministério da Fazenda onde funciona a máquina por trás da tela do investidor do Tesouro e viu qual é processo desde a definição das taxas dos títulos até o atendimento às dúvidas dos interessados.

Desde 2002, o sistema eletrônico de venda de papéis de renda fixa pelo Tesouro Nacional já foi acessado por 200 mil investidores, que acumulam quase R$ 4 bilhões aplicados em títulos como Letras do Tesouro Nacional (LTN), Letras Financeiras do Tesouro (LFT) e Notas do Tesouro Nacional (NTN).

Tudo começa, pela manhã, na sala de operações da dívida pública, no prédio anexo ao Ministério da Fazenda, em Brasília. Três vezes por dia, sendo a primeira às 8h30, os seis operadores do Tesouro entram em contato com bancos e corretoras (os chamados “dealers”), para levantar um valor médio do preço dos títulos. É por essa média que o Tesouro distribui os mesmos papéis ou seus similares na internet para os pequenos investidores, explica Fernando Garrido, coordenador-geral de Operações da Dívida Pública.

Na sala de operações, que se assemelha à de um banco de investimentos ou uma corretora, os operadores ficam o tempo todo com os olhos passeando por três monitores e, com as orelhas grudadas nos telefones, conseguem ter uma mapa do mercado segundo a segundo. Para entrar nessa sala, além da portaria do Ministério, é preciso um crachá específico e o reconhecimento da digital na entrada.

A segunda sala por onde passam os investimentos feitos no Tesouro Direto é a sala de controles, o chamado “backoffice”. É lá que são registradas as compras, vendas e emissões de títulos públicos. A equipe funciona em parceria com o sistema da BM&FBovespa, responsável por indicar qual é o dono de cada título emitido e vendido pelo Tesouro.

A terceira sala é o departamento de relacionamento institucional do Tesouro Direto. Lá estão localizados os funcionários que trabalham para atender os investidores e para desenvolver soluções e melhorias para o sistema. É também a área de relações institucionais que responde o email tesourodireto@fazenda.gov.br , com qualquer tipo de dúvida dos interessados no sistema.

Integração com o homebroker

A gerência de Relacionamento Institucional, chefiada por André Proite, fez uma parceria com a bolsa para criar um sistema de distribuição dos títulos do Tesouro com o home broker, o sistema das corretoras de compra e venda de papéis pelo computador. Hoje, 15 corretoras já oferecem no seu sistema home broker a possibilidade de se aplicar no Tesouro Direto.

“Faz sentido porque, quando o investidor tira o dinheiro da bolsa, ele pode deixar o dinheiro investido em renda fixa ali mesmo”, explica Proite. Para as corretoras, isso é uma grande vantagem comercial, porque os investidores antes tendiam a levar o dinheiro a ser investido em renda fixa para os bancos, o que tornava mais difícil seu retorno para a renda variável.

Para o investidor, existe a vantagem de ter um extrato só, com aplicações em bolsa e renda fixa. A próxima meta do Tesouro é oferecer aos investidores do home broker a possibilidade de programar resgates ou aplicações no Tesouro Direto, como ocorre para ações, mas isso depende da vontade das corretoras em desenvolver essa possibilidade.

Ao longo das operações do Tesouro Direto, desde 2002, o sistema do governo também aperfeiçoou o extrato entregue aos investidores. Hoje, eles podem acompanhar a evolução de cada título adquirido, com a rentabilidade de cada um, independentemente da data da operação. Antes, existia só a taxa, que tornava difícil o acompanhamento.

Mais barato e mais fácil

Outra mudança que fez o Tesouro Direto ganhar 100 mil investidores em metade do tempo que levou para ganhar os primeiros 100 mil foi a redução das taxas operacionais cobradas pelos agentes financeiros. Atualmente, a taxa média é de 0,5% ao ano, sendo que três corretoras, Banif, Socopa e Spinelli apresentam taxa 0%. Os bancos são os que ainda têm taxas mais altas – principalmente com medo de perder investidores de CDBs ou fundos de renda fixa -, chegando o Itaú a cobrar até 4% ao ano. Veja a tabela de custos aqui .

Na parceria com a BM&FBovespa, o Tesouro Direto também passou a integrar o projeto de educação financeira da bolsa. Para Paulo Valle, subsecretário da Dívida Pública Nacional, o Tesouro Direto presta um grande serviço educativo aos brasileiros, à medida que auxiliam na compreensão do funcionamento da rolagem da dívida. Em importância financeira, porém o Tesouro Direto ainda se reserva a representar apenas 0,1% do total da dívida.

Para Valle, porém, há um potencial para que o número de investidores do Tesouro Direto se multiplique para até dez vezes o número atual de 200 mil investidores no médio prazo – assim como a bolsa tem meta de elevar de 500 mil a 5 milhões o número de investidores pessoa física. O grande gatilho para esse salto, para ele, é a integração do sistema com o home broker. “Todo investidor da bolsa é um potencial investidor do Tesouro Direto, quando resgata.”

O subsecretário entende que essa tendência deverá se consolidar com mais força, se houver alívio no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que pune os investidores de renda fixa que resgatam suas aplicações antes do prazo de um mês. Atualmente, só a caderneta de poupança é isenta desse imposto. Para Valle, o IOF cair é “uma tendência”. Veja aqui , como funciona hoje a tributação e os custos do Tesouro Direto.

Investidores passaram a preferir títulos de inflação

Os investidores passaram a assumir uma posição menos conservadora ao aplicar no Tesouro Direito nos últimos meses. Desde julho, os títulos indexados à inflação voltaram a ser os mais adquiridos pelos investidores. Na dianteira preferência do investidor hoje, com quase a metade das opções, estão as Notas do Tesouro Nacional da série B (NTN-B), que têm remuneração ligada à variação do IPCA.

Nesta semana, essas NTN-Bs apresentam rentabilidade a partir de 5,94%, variando conforme o prazo de vencimento do título. O mais rentável, com vencimento em 2015 rende 6,247%, além da variação do IPCA, mas há papéis com vencimento até 2045. Depois dos títulos ligados ao IPCA, as preferidas são as Letras do Tesouro Nacional (LTN) e as NTN-F, papéis prefixados que hoje rendem entre 11,12% e 11,99%, com vencimento até 2021.

Por último, as outrora preferidas em tempos de maior incerteza e crises, estão as Letras Financeiras do Tesouro (LFT), que rendem segundo uma determinada percentagem da taxa Selic. Atualmente, porém, esses papéis estão apresentando ganho idêntico à variação da taxa apontada pelo governo federal, sem nenhum ágio ou deságio.

Em comparação com os fundos de renda fixa, o Tesouro Direto pode oferecer ao investidor uma flexibilidade maior de escolher os papéis que vão compor sua carteira de renda fixa, explica Valle. “Pode-se escolher, prazos e indicadores, com um custo acessível”, diz ele.

Segundo levantamento do Tesouro, de todos os títulos em posse dos investidores hoje, dois terços vencerão em prazo entre 1 e 5 anos e mais da metade dos investidores em agosto aplicou até R$ 5 mil reais. Mas, segundo Valle, 20% das aplicações são feitas por pessoas com até R$ 1 mil.