Finanças Pessoais

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André Massaro, educador financeiro

As mulheres e os investimentos

Mulheres são mais espertas que os homens ao perceberem que operar no curto prazo não é algo assim tão fácil e rentável

29/09/2011 05:35

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No final do primeiro semestre de 2011, uma prestigiada empresa de pesquisas de marketing e tendências de mercado, em conjunto com um famoso banco internacional, divulgou uma pesquisa sobre investimentos que deu um duro golpe nos já fragilizados egos masculinos, que cada vez mais veem as mulheres assumindo importantes posições no mundo profissional, político e social.

O título da pesquisa já diz tudo: “as mulheres investem melhor que os homens”. Era só o que faltava! As mulheres já são melhores do que nós muitas coisas, e agora mais essa?

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Mas o que exatamente significa ser “melhor” nos investimentos? Antes de explorarmos este assunto, devo admitir que sempre tive uma certa resistência em aceitar a questão do gênero quando se trata de finanças pessoais e investimentos. Para mim, dinheiro nunca teve sexo, e as consequências de uma gestão financeira deficiente “doem” do mesmo jeito em homens e mulheres. Muito se fala que as mulheres são mais sensíveis às armadilhas do consumo, mas na minha prática diária não vejo os homens tão mais disciplinados que as mulheres, apesar de o padrão de consumo ser, de fato, diferente.

A pesquisa é clara. Segundo ela, as mulheres têm um desempenho melhor que os homens nos investimentos, mas não porque elas sejam mais inteligentes e perspicazes nas suas análises, e sim porque têm mais visão de longo prazo. Homens são mais afeitos a operações de curto prazo, mudam frequentemente de posição e de ativos, e consequentemente se expõem a maiores riscos. Já as mulheres são mais consistentes e “seguram” seus investimentos por mais tempo.

Vendo por esse lado, a pesquisa está tecnicamente perfeita e a conclusão faz todo sentido, mas tenho uma visão pessoal de que a diferença não é tão gritante entre os gêneros. Talvez por já ter sito um trader de ativos financeiros em tempo integral, eu tenho uma visão sobre investimentos um pouco diferente da maioria das pessoas.

O investidor “padrão” é, na minha visão, aquele que adquire ativos financeiros para o longo prazo, muitas vezes sem sequer ter a intenção de vendê-los algum dia, e não ficam se preocupando muito com oscilações de preço. Já a pessoa que faz trading (“especulação”, comprando e vendendo ativos financeiros para ter lucro com a sua valorização ou desvalorização) não é um investidor. Trading é uma “profissão”, um “trabalho”, que exige análise, acompanhamento do mercado e estudo. Em resumo, exige tempo investido.

Quem faz trading está investindo não apenas dinheiro, mas também tempo; por isso o trader precisa ter retornos maiores que o investidor “comum”, pois além de remunerar o capital, ele também precisa remunerar o tempo que gasta com isso (afinal, já diz o velho ditado, “tempo é dinheiro”).

Na minha prática cotidiana como educador financeiro, o que vejo é um grande equilíbrio entre homens e mulheres quando se trata de investimentos da forma “convencional”. A ascensão da mulher no mercado profissional está fazendo com que ela tenha mais dinheiro e, naturalmente, isso se reflete no interesse pela proficiência em investi-lo. Vejo homens e mulheres juntos, aprendendo e compartilhando suas dúvidas e angústias, superando os obstáculos e celebrando os progressos, sem qualquer vantagem para um dos “lados”. Mas quando dou um treinamento para traders (ou aspirantes a trader) a coisa fica completamente diferente. Raramente as mulheres marcam presença, e chego a ficar intoxicado pelo excesso de testosterona na sala de aula. Mas, como já expliquei, trading não é investimento, é trabalho.

O fato é que a pesquisa “misturou” investidores e especuladores (ou traders), por isso a diferença entre gêneros ficou tão escancarada. Mas isso não deve, de forma alguma, servir de “alento” para os homens. Muito pelo contrário, pois os traders (uma classe predominantemente masculina) estão “apanhando” de investidores tradicionais, remunerando seu capital de forma pouco eficiente e literalmente “perdendo tempo”, pois não conseguem remunerá-lo.

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Aliás, uma coisa irônica é que, em um bom curso de trading, muito se aprende sobre a correta gestão do risco, mas a maioria das pessoas (que por acaso são homens) insiste em não colocar em prática aquilo que aprendeu... E aí eles vão empurrando o retorno médio dos homens na pesquisa para baixo!

Afinal, as mulheres são melhores investidoras que os homens? A pesquisa diz que sim, e minha prática educacional diz que há empate, mas, indiscutivelmente, as mulheres são mais espertas que os homens ao perceberem que operar no curto prazo não é algo assim tão fácil e rentável (ao menos para a maioria das pessoas que tenta isso).

Mas independentemente dessa diferença de visões, tudo indica que logo não restará nenhum campo onde nós, homens, estaremos em vantagem. Talvez ainda sejamos melhores para estacionar um carro, mas creio que isso também não vai durar muito...

 André Massaro é educador financeiro e autor dos livros “MoneyFit” e “Por dentro da bolsa de valores".

 

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