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Fim do ciclo de alta da Selic mostra que é possível ter boa rentabilidade com o movimento inverso dos juros. Após tombo, papéis de longo prazo do Tesouro subiram 10,58% em maio

Nem sempre a manutenção da Selic, a taxa básica de juros, é má notícia para os investidores. Quando os juros sinalizam que vão parar de subir, algumas aplicações simplesmente decolam. É o que tem acontecido com papéis altamente influenciados por esse movimento, como os papéis atrelados à inflação.

Expectativa de manutenção dos juros amplia ganhos nos papéis atrelados à inflação
Thinkstock/Getty Images
Expectativa de manutenção dos juros amplia ganhos nos papéis atrelados à inflação

Com a expectativa recente de que a Selic será mantida em 11% ao ano até o fim de 2014, os investimentos atrelados ao IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) tendem a se beneficiar ainda mais.

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Os títulos que mais subiram de carona na última decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) em maio – que manteve a taxa após nove altas seguidas – foram os papéis de longo prazo do Tesouro Direto, que remuneram a variação do IPCA mais uma taxa de juros pré-fixada (combinada no momento da compra).

Em maio, as Notas do Tesouro Nacional (NTN-B Principal) com vencimento em 2035 renderam surpreendentes 10,58%. Isso ajudou a reverter parte das perdas que os aplicadores vinham amargando desde o ano passado, prejudicados pela escalada dos juros.

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O tombo desses papeis em 2013 foi de 36,31%. Mas com a recuperação de maio, eles acumulam uma perda menor (apenas 10,63%) nos últimos 12 meses e têm variação positiva de 15,27% desde janeiro.

Outras NTN-Bs com vencimento ainda mais longo também deslancharam. As que vencem em 2045 subiram 6,92% no mês passado, ao passo que as de 2050 ganharam 7,30%.

Rentabilidade de ontem não garante a de amanhã

Apesar de as projeções apontarem para a manutenção da Selic até dezembro, não dá para cravar que essa boa rentabilidade vai perdurar até dezembro, devido às incertezas sobre a pressão inflacionária e as eleições, aponta o diretor da Easynvest Título Corretora, Amerson Magalhães.

Magalhães considera arriscado comprometer as reservas financeiras nestes títulos só porque eles renderam bem até agora. “Se houver uma nova expectativa de aumento [ da Selic ] num futuro próximo, o investimento será prejudicado imediatamente, já que o mercado antecipa as apostas com a curva de juros futuros”, explica.

O gerente de renda fixa da Um Investimentos, André Mallet, acredita que não é mais o melhor momento para investir em papéis pré-fixados, pois o ápice ocorreu meses antes de o BC encerrar o ciclo de alta dos juros. “O que ainda vale a pena são os títulos indexados à inflação, que podem dar bastante alegria ao investidor no médio prazo”.

A manutenção da Selic foi só um dos fatores que ajudaram esses títulos. Atribui-se parte dos recentes ganhos ao retorno dos investidores estrangeiros, atraídos pela rentabilidade generosa dos papéis de longo prazo nos países emergentes, incluindo o Brasil.

A expectativa de que os juros nos Estados Unidos não vão subir como se esperava contribuiu para esse movimento, na opinião dos analistas.

Mas não só os títulos públicos foram ajudados pela Selic estagnada. “Há títulos privados que também rendem melhor e são encontrados nas opções pré-fixada e pós-fixada (quando os rendimentos acompanham os juros até o vencimento)”, explica Magalhães, da Easynvest.

Para quem não teme assumir riscos de curto prazo, ele recomenda escolher títulos pré-fixados como CDBs (Certificados de Depósito Interbancário) de 30 dias atrelados ao CDI (Certificado de Depósito Interbancário), já sabendo qual será a rentabilidade.

Estes papéis são indicados para quem aposta na manutenção dos juros até o vencimento do papel. O risco que se corre é que eles subam antes do esperado e a aplicação seja prejudicada. Neste caso, Magalhães recomenda vender o papel com desconto antes do prazo para amenizar as perdas.

Para os mais conservadores, o diretor da Easynvest sugere apostar nos pós-fixados, que garantem rentabilidade maior se os juros voltarem a subir. “Esses títulos são mais seguros e têm boa liquidez”, observa.

Alta da renda fixa ajuda a explicar fuga da poupança

Saldo da poupança foi negativo pela primeira vez em 25 meses
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Saldo da poupança foi negativo pela primeira vez em 25 meses

No acumulado do ano até maio, os CDBs tiveram alta de 4,03%, bem abaixo das NTN-Bs to Tesouro. Mesmo assim, saíram bem à frente da poupança, que rendeu 2,83% nos quatro primeiros meses do ano.

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Esse pode ter sido um dos motivos para a caderneta ter interrompido, em abril deste ano, um ciclo de 25 meses de saldo positivo. Os saques da poupança superaram os depósitos em R$ 736 milhões no mês, o primeiro resultado negativo desde fevereiro de 2012, segundo a Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança).

Inflação controlada e ritmo de expansão estimularam projeção

Na última semana, o Copom reverteu as previsões que sinalizavam para um retorno da alta dos juros após as eleições de outubro, mantendo os atuais 11% até o fim do ano.

Uma das razões foi o recuo das projeções de inflação. Segundo o BC, os efeitos da política monetária sobre a alta dos preços ainda vão aparecer e tendem a ser potencializados.

O conforto quanto à volatilidade do câmbio e a preocupação com uma queda no ritmo de expansão da economia – com expectativa de que seja menor que em 2013 – também incentivaram o BC a projetar a estagnação da Selic.

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Bancos e analistas caminham no mesmo entendimento. “Se a inflação fechar o ano perto da meta, acredito que a possibilidade de voltar a subir os juros após as eleições vai ficar remota”, observa Mallet, da Um Investimentos.

Magalhães é cauteloso, mas também aposta na nova projeção. “Apesar de vivermos um cenário de muita incerteza, acreditamos na manutenção [ da Selic ] até o fim do ano”.

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PRÉ-FIXADO

Rentabilidade acompanha Selic ou outro indexador. Indicada para quem acredita que juros vão subir


LFT (Letra Financeira do Tesouro)

Algumas letras de crédito (LCI e LCA)  e fundos atrelados ao CDI             

Moderado a arrojado (disposto a correr riscos)


PÓS-FIXADO

Rentabilidade é combinada no momento da compra do papel. Recomendada para quem aposta na queda da Selic

LTN (Letra do Tesouro Nacional)

NTN (Nota do Tesouro Nacional tipo B, C e F)

CDB (Certificado de Depósito Bancário)

Fundos DI (atrelados ao CDI)                

Conservador (avesso a riscos)            


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