Tamanho do texto

Conheça os destaques no mercado de capitais e empresas que decepcionaram os investidores. Analistas explicam os motivos das altas e baixas

Com uma queda acumulada em torno de 25% em 2013, o índice Ibovespa coleciona resultados díspares no primeiro semestre: de um lado, perdas devastadoras e acionistas de cabelo em pé; do outro, empresas que brilharam, surpreendendo as projeções mais otimistas.

No balanço dos últimos seis meses – com base até o último dia 15 de julho –, 52 empresas que compõem o índice ficaram no vermelho, enquanto os papéis de 16 companhias tiveram desempenho positivo. Ou seja, 76,47% delas levaram más notícias aos seus investidores.

Os tombos das piores empresas na Bolsa foram bem mais intensos do que as altas. Na ponta de cima, as ações da Embraer tiveram valorização de 51,31% no período, enquanto que os papéis da OGX, a pior colocada no ranking, despencaram 91,04%.

CONFIRA O RANKING DAS EMPRESAS NA BOLSA

De forma isolada ou conjunta, uma série de fatores explica o que pode ter beneficiado ou afetado os papéis das empresas no mercado de renda variável. Ganharam destaque as mudanças no câmbio, as políticas de incentivo do Governo Federal para alguns setores da economia e a oscilação nos preços de commodities no mercado internacional.

Os casos de sucesso

Melhor colocada no ranking da Bolsa, a fabricante de aviões Embraer se beneficiou com a diferença do dólar frente ao real, por exportar em torno de 90% de sua produção, afirma o analista da Empiricus Research e parceiro do Investmania, Roberto Altenhofen. A empresa entregou 80 aeronaves desde o início do ano, aumentando sua carteira de pedidos (backlog) para R$ 17,1 bilhões em 30 de julho, o melhor resultado desde o terceiro trimestre de 2009.

A especialização na aviação regional e a produção de unidades que consomem menos combustível são vantagens competitivas que influenciaram nos bons resultados da empresa, segundo Mário Bernardes Junior, analista do BB Investimentos. “Investimentos na área de segurança e defesa da Embraer também contribuíram para sua performance operacional”.

Disputa entre Abílio Diniz e grupo Casino deu fôlego às ações da BRF
Nelson Antoine/Futura Press
Disputa entre Abílio Diniz e grupo Casino deu fôlego às ações da BRF

Em meio a apostas contidas e o temor sobre a chegada de concorrentes, a processadora de pagamentos Cielo teve o segundo melhor desempenho na Bolsa, com valorização de 24,32% nos últimos seis meses. “A empresa mostrou uma margem bastante elevada e manutenção de seu market share (participação de mercado)”, diz Altenhofen. Por ser a única representante de cartões neste mercado, a companhia canalizou o fluxo de investimentos do setor.

Empatada com a Cielo em valorização, a Braskem também se beneficiou da alta do dólar e sofreu desalavancagem – redução da dívida – com a venda de ativos, como no pólo de Camaçari (BA), aponta o especialista da Empiricus. As medidas do governo de controle da entrada de produtos químicos estrangeiros no País contribuiu para os resultados da companhia, que aumentou seu market share, de acordo com a analista dos setores de petróleo, gás e petroquímico do BB Investimentos, Carolina Fesch. Da mesma forma, a desoneração de PIS e Cofins anunciada no início do ano melhorou a competitividade da empresa.

No mercado de consumo doméstico, os papéis de  Pão de Açúcar e Brasil Foods (BRF) tiveram ganhos respectivos de 13,67% e 7,47% nos últimos seis meses. A disputa societária do empresário Abílio Diniz com o grupo Casino quanto a sua entrada no conselho de administração da BRF gerou expectativas de que a marca passaria a ter um plano de internacionalização mais expressivo, segundo o analista da Empiricus Research. No plano internacional, o volume de vendas da empresa caiu, mas ela alcançou uma precificação melhor em mercados como Oriente Médio, Ásia e Mercosul, segundo análise do BB Investimentos.

“Também tiveram destaque as empresas de papel e celulose Suzano e Fibria , beneficiadas com o aumento dos preços da matéria-prima no mercado internacional e com a disparada da moeda americana”, analisa Altenhofen.

Papéis em queda livre

Na outra ponta, as empresas do grupo EBX , do empresário Eike Batista, sofreram o pior revés do mercado brasileiro: a petroleira OGX perdeu 91,04% de seu valor no semestre, após uma série de notícias desanimadoras. Para Carolina, do BB, os problemas se intensificaram em meados de 2012, quando a produção no campo de Tubarão Azul caiu significativamente. A situação ficou crítica quando a empresa sinalizou a possível suspensão da produção a partir de 2014, após níveis produtivos bem abaixo do esperado. O forte peso da empresa no índice Ibovespa – em torno de 5% – ajudou a empurrá-lo para baixo.

Eike, em evento da OSX, uma de suas empresas
Reuters/Ricardo Moraes
Eike, em evento da OSX, uma de suas empresas

A companhia de mineração de Eike, MMX , também ficou entre as piores colocações no ranking, com perdas de 67,48% no período. As notícias ruins envolvendo a OGX ajudaram a contaminar a mineradora, na visão do especialista no setor no BB Investimentos, Victor Penna. “A empresa teve problemas de alto nível de alavancagem (dívidas) e dificuldades financeiras para tocar os projetos em andamento, o que contribuiu para o pessimismo do mercado”, diz.

A empresa de logística  LLX  divide espaço com as outras do grupo, com desvalorização de 70,59%. “O stress financeiro do EBX e os rumores de movimentos societários evidenciam a necessidade de capitalização da empresa”, acredita Altenhofen. Para ele, o segundo semestre do ano pode ser decisivo para o desfecho do grupo.

Sancionada em janeiro deste ano, a Medida Provisória 579 afetou diretamente os papéis do setor de energia. A regulação que reduziu os preços das tarifas ao consumidor contribuíram para que as ações da Eletropaulo perdessem 54,20% de seu valor desde o início de 2013. “A intervenção foi uma quebra de paradigmas para as elétricas, que tinham bom fluxo de caixa e geração de dividendos”, analisa o especialista da Empiricus Research.

A operadora de telefonia Oi viu tanto suas ações ordinárias (ON) como preferenciais (PN) – que dão ao acionista prioridade ao receber dividendos – se desvalorizarem fortemente no semestre, em torno de 50%. Para Altenhofen, a venda de ativos da empresa trouxe entrada de caixa relevante, mas a necessidade de redução das dívidas ainda é alta, o que pode ameaçar sua política generosa de pagamento de dividendos aos acionistas.

Enquanto algumas empresas riram à toa com a alta do dólar, a Gol sofreu com a moeda valorizada e acabou perdendo 45,23% no mercado de ações. A disparada da moeda afetou o preço do combustível, aumentando os custos da companhia aérea. Além disso, a efetividade de sua política de redução de oferta para cortar despesas foi questionada pelo mercado.

Perspectivas para o 2º semestre

Para o segundo semestre do ano, o movimento de baixa da Bolsa pode acenar para oportunidades de ganhos, na visão de Altenhofen. Ações de empresas robustas como a Vale, com preços mais convidativos, podem se apreciar no período. “Há pouco espaço para grandes depreciações a partir de agora”, acredita o analista.

O debate sobre a redução da política de estímulos nos Estados Unidos deve continuar mexendo com o ânimo do mercado nos próximos seis meses, além das incertezas quanto ao controle da inflação. Também deve estar na pauta a questão de quais setores serão alvo das intervenções do governo, como o potencial impacto das concessões das rodovias no mercado.