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ETFs, que espelham indicadores como o Ibovespa, cresceram 50% no patrimônio líquido no ano, mas têm em si o risco das ações e o da procura pelas cotas dos fundos

Investidores em busca de rentabilidade maior migram para produtos mais arriscados, como ETFs
Danilo Chamas / Fotomontagem iG sobre SXC
Investidores em busca de rentabilidade maior migram para produtos mais arriscados, como ETFs

Com a queda nas taxas básicas de juros, os investidores que buscam retorno maior têm procurado aplicações com mais risco. Entre essas opções estão os fundos que replicam índices da Bolsa de Valores de São Paulo – os ETFs (Exchange Traded Funds). Em um ano, o patrimônio líquido deste tipo de aplicação aumentou mais de 50%, passando de R$ 2,74 bilhões em setembro de 2011 para R$ 4,13 bilhões no mesmo mês deste ano. No entanto, no universo de fundos de investimento os ETFs representam menos de 0,20% do patrimônio líquido total.

Os ETFs são fundos que espelham os índices da Bolsa e têm suas cotas negociadas na Bovespa, como se fossem ações. Um gestor – que pode ser uma corretora ou outra instituição financeira – monta um fundo com as ações de determinado indicador, e disponibiliza as cotas do fundo na Bolsa. Com isso, o ETF tem um comportamento parecido ao do indicador que espelha, mas também vai variar de acordo com a demanda pelas cotas, explica Julio Ziegelmann, diretor de Renda Variável da BM&FBOVESPA.

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Por exemplo, o BOVA11, o ETF mais negociado da Bolsa, respondendo por mais de 90% do volume de negócios com esse produto, replica em proporções idênticas ao do Ibovespa as ações que compõem o indicador. No entanto, a procura por suas cotas é que vai determinar o ganho ou perda diária. Por isso, enquanto o Ibovespa tinha alta de 13,09% no acumulado do ano até setembro, o BOVA11 registrava valorização de 12,55% no mesmo intervalo.

À primeira vista, o ETF parece muito com um fundo de investimento em ações. No entanto, há algumas diferenças, principalmente no que diz respeito à transparência do valor das cotas. Em um ETF, como as cotas são negociadas em bolsa, essa verificação é automática, explica o educador financeiro Mauro Calil. Basta entrar no site da BM&FBovespa para consultar o preço do contrato. Por outro lado, para saber o valor da cota de um FIA, você precisa resgatar suas cotas junto ao banco ou instituição financeira. Em geral, eles esperam o final de cada dia para entregar o preço das cotas.

Além disso, o fundo de investimento em ações não precisa necessariamente conter todas as 68 ações do Ibovespa, explica Calil. “Pode ter 30, 40 ações. O gestor pode pegar o que representa 80% do volume do Ibovespa.”

Custos

O custo de comprar um ETF também é um chamariz para os investidores com poucos recursos disponíveis. Para comprar o lote mínimo de 10 contratos do BOVA11, é preciso desembolsar R$ 567,80 (dados do fechamento de 26/10). “Caso o investidor quisesse comprar as mesmas ações e montar uma carteira, não conseguiria com esse valor. Ele teria que ir para o mercado fracionário, mas pagaria mais pelo papel”, afirma Ziegelmann.

Misto de ação e fundo de investimento, os ETFs têm custos de manutenção derivados dos dois tipos de aplicações. Você paga taxa de corretagem, taxa de custódia da corretora e da Bolsa (mensal) e uma taxa que incide sobre o volume movimentado do dia – chamada de emolumento – e que, atualmente, é de 0,0345%. Os ETFs também possuem taxa de administração, que variam de 0,059% até 0,69%.

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Por reunir ações que compõem um determinado índice, o ETF se caracteriza por ser um produto diversificado. “Quando você compra uma ação, está exposto a fundamentos de uma única ação. Isso significa que algum fato isolado que beneficie ou prejudique aquela ação em detrimento do comportamento do mercado vai afetar seu papel. Com a cesta de ações que compõe o ETF, esse risco é diluído”, diz Marcio Cardoso, sócio-diretor da Título Corretora.

“O investidor nunca vai ganhar excessivamente nem perder excessivamente. É um produto que permite trabalhar num mercado de renda variável com possibilidade de superar a renda fixa”, complementa Celso Grisi, diretor-presidente do Instituto de Pesquisas Fractal. Os dividendos gerados são reaplicados no próprio ETF, fazendo o fundo crescer.

Alguns ETFs, porém, carregam o risco não de uma ação, mas sim de um setor inteiro. O MOBI11, por exemplo, agrupa ações de empresas do ramo imobiliário. Qualquer notícia que desestabilize o setor vai influenciar o comportamento desse fundo de índice. Quanto aos riscos de se investir nesse produto, são basicamente os mesmos de aplicar nas ações dos índices aos quais são referenciados, além da oscilação para cima ou para baixo dependendo da demanda pelas próprias cotas na Bolsa.

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Da mesma forma, para investir nesse produto é preciso ter em mente o longo prazo, em vez de querer resultados imediatos. “Não é para comprar na bolsa para vender daqui a uma semana, nem daqui a um mês. Quem opera em curto prazo são especialistas do mercado, profissionais do mercado. É preciso esperar o resultado e lembrar que há riscos externos que afetam o mercado de maior risco, como a crise internacional”, ressalta Cardoso.

Além disso, como em qualquer investimento, é preciso coletar o máximo de informação possível antes de fazer o aporte. “Para investir nesse produto, é preciso conhecer o índice, a metodologia utilizada para a composição, se vai ao encontro do objetivo de investimento ou não”, explica Tatiana Grecco, presidente do subcomitê de ETFs da Anbima.

Avanço

O desconhecimento desse mercado, regulamentado pela CVM em 2002, atrapalha, na opinião de Tatiana Grecco, da Anbima. “No geral, a gente tem uma cultura baixa de acesso direto a investimento em ação”, diz. “Normalmente optamos por fazer investimento em renda variável pelos fundos tradicionais. Não temos a cultura de o próprio investidor escolher as ações e investir na bolsa.”.

Por enquanto, a pessoa física representa 34% do total de cotistas de ETFs, de acordo com a Anbima. A grande parcela restante é formada por investidores institucionais, fundos de investimento e fundos de pensão. No entanto, com a retomada do otimismo nos mercados, esse número pode crescer. As perspectivas para os próximos meses são positivas. “É um mercado que tende a crescer, principalmente na hora em que houver migração de capital para ativos de bolsa”, afirma Márcio Cardoso, da Título Corretora.

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“A longo prazo esses produtos devem se estabelecer. No próximo movimento de expansão que o mercado fará, o produto será bastante negociado. Mas há a necessidade de as bolsas contratarem um market maker (formador de mercado) para dar liquidez. Como há instrumentos novos a cada dia, poucos acabam vingando”, ressalta Leandro Ruschel, especialista da consultoria Leandro & Stormer.

Isso se reflete na liquidez desses fundos, que é um problema enfrentado por quase metade deles. Depois do BOVA11, cujos papéis têm uma média de dois mil negócios diários, o ETF com mais movimentação é o PIBB11, das 50 ações mais negociadas na BM&FBOVESPA em termos de liquidez. No entanto, a diferença fica evidente: são 200 negócios em média, ou seja, somente 10% do BOVA11.

Alguns ETFs têm liquidez muito baixa, como é o caso do FIND11, de ações do setor financeiro. No acumulado de 2012 até setembro, foram apenas 303 negócios, contra 703.816 do BOVA11.

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Segundo Julio Ziegelmann, da BM&FBOVESPA, a liquidez não é um problema para a pessoa física, devido à figura do market maker, uma instituição financeira que faz, constantemente, ofertas de compra e venda com ETFs. “Vale lembrar que é um produto novo no Brasil, começou em dezembro de 2008, contra mais de dez anos lá fora”, diz. Nos próximos meses deve ser lançado um novo ETF referenciado no Ibovespa e elaborado pela Caixa Econômica Federal.

Os fundos de índice também surgem como uma boa alternativa para os estrangeiros que querem investir no Brasil, diz Grisi. “É ideal para quem quer investir num mercado de emergentes, mas sem correr o risco de uma ação específica.” Em setembro, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu caminho para a criação, no País, de ETFs que repliquem índices estrangeiros, como o americano S&P 500.

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A transparência desse produto é maior do que a de um fundo de investimento comum. Há sites, como os da corretora Itaú e da BlackRock, com informações diariamente publicadas sobre os fundos de índice, o que ajuda o investidor a ficar de olho em seu ativo. “É a possibilidade de a pessoa física ter um produto no qual também aplica um investidor institucional”, completa Ziegelmann.

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