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Conheça a história da mineira que superou a falência de uma pizzaria e a pressão familiar, usou de criatividade e de senso de oportunidade e tornou-se uma empresária de sucesso

Até se estabelecer como dona de rede de franquias, Luzia ouviu muitas vezes que deveria desistir do sonho do próprio negócio e procurar um emprego
Arquivo pessoal
Até se estabelecer como dona de rede de franquias, Luzia ouviu muitas vezes que deveria desistir do sonho do próprio negócio e procurar um emprego

Luzia Costa tem 35 anos, é empresária, casada, mãe de dois filhos e comanda uma das maiores redes de estética do Brasil, a Sóbrancelhas. A franquia conta hoje com 44 unidades em funcionamento e deve chegar ao fim do ano com 80 clínicas. A previsão é que neste ano o faturamento, que em 2014 foi de R$ 1,5 milhão, chegue a R$ 2,8 milhões. Sim, a mineira, nascida em Passa Quatro, pode dizer que é bem sucedida. Mas até chegar aos dias de prosperidade Luzia passou por uma série de tropeços.

Empreendedora desde a adolescência, Luzia morava com os pais na zona rural de Passa Quatro (MG) quando começou a fazer alguns bicos como manicure e cabeleireira. Um dia ela fazia as unhas de uma vizinha, no outro socorria alguém da família que precisava do serviço de depilação. Quem podia pagava uns trocados pelo serviço. Mas na maioria das vezes o atendimento era na camaradagem.

Primeiro negócio: um carrinho de lanche

Quando tinha entre 19 e 20 anos, Luzia se casou e foi viver com o marido Renatto Julio, soldado do Exército, em Taubaté, no interior paulista. Inquieta, a jovem pensou em uma forma de ajudar na renda da família. Foi quando teve a ideia de fazer quitutes e oferecê-los no quartel onde o marido trabalhava. Não demorou muito para que Luzia juntasse dinheiro e investisse em um carrinho de lanche. "Percebi que o bairro onde morava, que era muito novo, ainda não tinha opção para quem queria comer. Eu vendia sanduíches, bolos e biscoitos para a hora do café. Com o dinheiro extra conseguia ajudar a pagar a prestação da casa e nas despesas de supermercado", conta.

Os negócios iam bem quando Renatto passou em um concurso para trabalhar no presídio de Tremembé, perto de Taubaté. Ela teve a ideia de vender a casa onde moravam, ainda financiada junto ao banco, e usar o dinheiro para montar uma pequena lanchonete na rodoviária da cidade. Com cerca de R$ 15 mil, ela investiu no pequeno negócio – a família a chamou de louca por abrir mão da casa própria por causa do sonho. "Acordava às cinco da manhã, preparava os salgadinhos e corria para vendê-los na lanchonete", recorda.

"Era hora de tentar outra coisa"

Com o movimento na pequena rodoviária em expansão, Luzia viu que poderia aumentar a renda com a venda de passagens. Assim, além de dona de lanchonete, tornou-se bilhetera. Como a atividade era informal, foi preciso regularizá-la depois de uma fiscalização. Logo depois, ela passou a ter dois pontos na rodoviária: o da lanchonete e o da venda de bilhetes para os passageiros. "Percebi que aquilo era uma verdadeira escravidão. Eu não tinha mais tempo para nada. Trabalha de segunda a segunda e me sentia insegura com o dinheiro que entrava com a venda de passagens. Era hora de tentar outra coisa."

Com dois filhos pequenos, Kaio e Renata, Luzia achou que uma forma de ganhar um pouco de estabilidade seria deixar os negócios na rodoviária para trás e investir em uma pizzaria. Ela e o marido encontraram um ponto já em funcionamento, fizeram uma oferta e arremataram o restaurante. Mas em pouco tempo, a aposta se transformou em um naufrágio. 

"Misturei a vida pessoal e a profissional. Esse foi o grande erro. Era muito jovem, errei na gestão e prejudiquei minha vida familiar. Foi um desastre", lamenta. "Perdi tudo, tive de fechar a pizzaria e fiquei com uma dívida absurda." Na época, Luzia teve um prejuízo de cerca de R$ 30 mil, entre dívidas com fornecedores, banco e estoque. "Chorei muito. Perdi tudo que tinha conseguido até aquele momento", lembra.

Fogão à lenha e a ideia de um negócio

Endividada, a família encontrou um casebre de R$ 150 de aluguel por mês e foi morar na zona rural de Tremembé. O período era de muita dificuldade financeira. Um dia, enquanto cozinhava, o gás acabou. O que poderia ser banal virou motivo de muito choro. Mas o desespero durou pouco. Logo Luzia improvisou o fogão à lenha e percebeu que poderia explorar um outro negócio. "A chapa do fogão à lenha demora muito para esfriar, Vi que poderia aproveitar o calor para desidratar tomates e abastecer os restaurantes e pizzarias da região com tomate seco. Sem dinheiro, corri até meu pai e pedi a ele uma caixa de tomates. Consegui os potes e as etiquetas e passei a ganhar dinheiro novamente", diz.

Impaciente por viver apenas dos tomates secos, Luzia decidiu que aprenderia a fazer em casa os famosos pirulitos vermelhos, feitos de açúcar, em forma de chupeta, comuns no interior. Testes e mais testes depois, a empreendedora já tinha uma pequena produção caseira e a vendia para bares. "Com os dois produtos, consegui ter dinheiro para alugar uma casa melhor e nos mudamos para Roseira, próxima a Aparecida. Um dia uma amiga contou que a prefeitura da cidade estava com inscrições abertas para um curso de massagem. Lembrei do tempo do trabalho de manicure e de depiladora e me inscrevi. Ali eu me encontrei profissionalmente", explica.

Compra no cartão de crédito da amiga

Como não tinha uma maca para o atendimento e não contava com crédito para investimento no equipamento, Luzia ia a casa das clientes e usava a mesa da cozinha. Uma dessas clientes, empolgada com a dedicação da massagista, decidiu ajudá-la e ofereceu o próprio cartão de crédito para que Luzia comprasse a maca. Como pagamento, ela propôs receber em massagens.

O atendimento estético começou a ser feito depois que Luzia Costa fez um curso de massagem oferecido de graça pela prefeitura
Arquivo pessoal
O atendimento estético começou a ser feito depois que Luzia Costa fez um curso de massagem oferecido de graça pela prefeitura

Negócio fechado, Luzia trabalhou muito até que num verão teve a ideia de seguir para o litoral paulista e oferecer o serviço de massagista na praia durante o verão. "Emprestei a cadeira de massagem de um professor, o carro do meu sogro e aluguei um cômodo em Ubatuba. À noite dormíamos todos em um colchão inflável. Foi assim que consegui levantar o dinheiro para pagar a dívida da época da pizzaria com o banco e os fornecedores."

Com o fôlego financeiro recuperado, Luzia e o marido decidiram voltar a morar em Taubaté. Eles alugaram uma casa e a massagista passou a atender em um dos cômodos. Em busca das primeiras clientes, ela visitava escolas e faculdades e fazia uma demonstração gratuita de suas massagens para professoras e funcionárias. Quem gostava a procurava depois.

Luzia passou a oferecer também serviços como depilação, design de sobrancelha e limpeza de pele. Com o crescimento da clientela, ela fez vários cursos, pôde alugar uma sala comercial e comprou o carro que o sogro emprestou na empreitada da família em Ubatuba.

De massagista a professora

O atendimento de Luzia fazia tanto sucesso que ela começou a ser procurada para treinar quem queria saber mais sobre técnicas de tratamentos estéticos, principalmente de design de sobrancelha. Chegou a hora de decidir se continuaria na salinha acanhada ou se partiria para uma expansão. "Aluguei uma casa para dar treinamentos. Como a procura era grande até mesmo para treinar equipes de pequenas empresárias que queriam oferecer aquele serviço, percebi que poderia ir além e pensar na possibilidade de transformar aquele negócio em uma franquia. Para isso vi que tinha de investir em uma loja-piloto. Procurei um ponto e tive uma nova surpresa. Os custos eram muito mais altos do que eu tinha antes. Cheguei a ouvir do dono de um ponto comercial que não conseguiria pagar o aluguel fazendo sobrancelha. Foi quando decidi investir em um ponto em um shopping", conta.

O custo era muito mais alto – o aluguel subiu de R$ 1 mil por mês para R$ 7 mil, além do investimento na reforma do ponto. Em dezembro de 2013, Luzia inaugurou a primeira unidade da Sóbrancelha. O primeiro contrato de franquia foi fechado em abril de 2014 com uma meteorologista do Rio de Janeiro – hoje a franqueada tem três unidades e o irmão abriu duas lojas da marca.

"Expandi os negócios com muito cuidado e carregando na bagagem a experiência de uma má gestão. Tomo muito cuidado. Cuido da gestão das pessoas e mantenho os pés no chão. Hoje vivo apenas do dinheiro da unidade própria. Tudo que ganho reinvisto no negócio. Meu marido cuida da parte financeira e meu filho, que tem 14 anos, contratado como menor aprendiz, é assistente financeiro", ensina. Para crescer como um negócio sustentável, Luzia contratou um consultor de franquia e um coach que acompanham o dia a dia da empresa.

Apesar da recuperação financeira, Luzia, que é evangélica, diz manter distância da vida de ostentação. "Passei dez anos por um deserto. Hoje tenho uma casa própria, um carro, que não é uma Mercedes e só. Tudo isso é um luxo perto do que eu vivi com a minha família. E todos sabem dar muito valor a isso que conquistamos."

A vida de hoje como empresária bem sucedida enterrou de vez os comentários frequentes que ouvia da família e de alguns amigos cada vez que tinha uma ideia para empreender. "Diziam para eu parar de sonhar, que era uma louca e deveria ter juízo, sossegar e arrumar um emprego. Eu respondia 'voces vão ver. Não é essa a vida que Deus quis para mim. Eu posso oferecer o meu melhor", recorda.

DNA empreendedor

Luzia acredita que o empreendedorismo é como um dom. Não se aprende, se aperfeiçoa. "Se me trancarem no quarto e me derem uma folha de papel eu vou pensar em uma forma de ganhar dinheiro com aquilo. Nem acender o fogão à lenha eu sabia e consegui enxergar uma oportunidade naquela dificuldade. Nunca trabalhei para os outros, sempre fui abusada. Enquanto viver vou criar alguma coisa", diz.

Além da franquia Sóbrancelha, Luzia pretende abrir até o ano que vem mais dois empreendimentos: uma esmalteria e uma franquia de depilação. 









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