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Economistas atribuem forte crescimento econômico e mais empregos formais como causas da recente inclusão financeira onde 50% da população não é bancarizada

A região Norte ganhou representatividade de 35% no número de pessoas com caderneta de poupança ante outras regiões do País em apenas três anos. Os dados são da Caixa Econômica Federal, que detém 60% da captação líquida destas aplicações.

Trabalhadores na linha de produção de ar-condicionado da Gree, em Manaus
Reuters
Trabalhadores na linha de produção de ar-condicionado da Gree, em Manaus

Professores especializados na economia da região apontam o crescimento econômico e a geração de empregos formais nos Estados do Amazonas, Pará e Rondônia como principais motivos da inclusão financeira.

Essa guinada de poupadores superou, inclusive, o percentual de crescimento da população dos cinco Estados da região em três anos. Entre 2010 e 2013, a quantidade de habitantes do Norte cresceu 7% – de 15,8 milhões para 16,9 milhões.

Embora a base de poupadores do Norte tenha crescido, eles ainda são minoria absoluta frente às outras quatro regiões brasileiras. Representam apenas 4,97% (2,7 milhões) dos 55 milhões de clientes com caderneta na Caixa. O Sudeste ainda é campeã com folga, com 46% das contas.

Enquanto isso, o Norte divide com o Nordeste a liderança dos chamados não bancarizados no País, com 50% e 53% de pessoas excluídas do sistema financeiro, respectivamente, segundo pesquisa divulgada no ano passado pelo instituto Data Popular.

Amazonas e Pará lideram crescimento industrial no País

Na opinião do professor de economia da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) Mauro Thury, o aumento da inclusão bancária no Norte pode ser explicado pela rápida guinada econômica da região nos últimos anos.

“O crescimento da indústria de transformação [ que converte matéria-prima em manufaturados ] na Zona Franca de Manaus ajudou a gerar empregos formais e pode ter relação direta com essa melhoria do acesso bancário”, analisa o docente.

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Em abril, o Estado do Amazonas registrou um saldo de empregos de 3,22% no acumulado de 12 meses, mostram os dados mais recentes do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho e Emprego.

Porto de Manaus: polo industrial nos arredores da capital amazonense levou prosperidade à região
Agência Brasil
Porto de Manaus: polo industrial nos arredores da capital amazonense levou prosperidade à região

No mesmo mês de 2013, a evolução do mercado de trabalho havia sido de 2,55% no Estado e, em abril de 2012, houve uma disparada de 6% frente aos 12 meses anteriores.

Também a produção industrial tem apresentado avanço expressivo. De janeiro a abril de 2014, ela cresceu 7,3% no Amazonas, terceiro melhor desempenho no País.

O resultado mais expressivo do primeiro trimestre, contudo, foi no Pará – o segundo maior polo de desenvolvimento da região –, com alta de 13% na produção, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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No mesmo período, o desempenho nacional da indústria foi negativo em 1,2%. O Amazonas teve a segunda melhor colocação do País (7,2%) no acumulado de 12 meses até abril, enquanto a média nacional foi de 0,8%.

O professor de economia da UFAC (Universidade Federal do Acre) Lucas Araújo Carvalho destaca que o desenvolvimento industrial nos arredores de Manaus tem gerado prosperidade à região, mas não se pode subestimar os investimentos direcionados ao Estado do Pará.

“Hoje a economia paraense cresce em ritmo acelerado graças a grandes projetos agroindustriais e de extração mineral. O interior do Estado tem acompanhado esse ritmo de crescimento”, observa Carvalho.

O economista também cita Rondônia como Estado que ganhou destaque pela produção agropecuária, passando a competir com grandes produtores nacionais. “A força desta atividade tem ajudado o progresso da região e pode explicar o aumento de renda da população”, aponta.

Bancos flutuantes alcançam áreas inexploradas

Thury, da Ufam, cita como outra possível causa do aumento de poupadores um esforço maior das instituições financeiras em alcançar áreas habitadas onde o atendimento bancário é inexistente e nunca se viu um caixa automático sequer.

“A presença de casas lotéricas e postos de atendimento onde antes não se notava pode estar ajudando no acesso aos bancos pela população”, acredita o professor.

Banco flutuante da Caixa visita comunidades ribeirinhas do rio Solimões
Caixa/Divulgação
Banco flutuante da Caixa visita comunidades ribeirinhas do rio Solimões

Outro exemplo são as agências flutuantes que, desde 2009, navegam por comunidades ribeirinhas da região amazônica. Em maio deste ano, o Bradesco inaugurou seu segundo barco para atender 50 vilarejos e 11 cidades nos entornos do rio Solimões.

O passeio rendeu ao banco a abertura de 35 mil contas bancárias e 4,5 milhões de operações financeiras. A primeira agência fluvial do banco foi inaugurada em dezembro de 2009.

A Caixa também embarcou na ideia em 2010. Inaugurou sua primeira agência flutuante em Manaus, circulando por uma área de 124 quilômetros quadrados entre a capital amazonense e a cidade de Coari (AM).

Há pelo menos 50 anos bancos flutuantes têm cruzado rios na Tailândia. O Thai Government Savings Bank (GSB) navega pelo Chao Phraya, em Bancoc, oferecendo serviços financeiros à população.

Carvalho, da UFAC, observa que é justamente nestas regiões do interior onde o progresso econômico ainda não chegou. “Apesar do forte desenvolvimento nas zonas industriais, o interior do Amazonas ainda é muito pobre”.

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