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Nas cidades-sede do Mundial, preços cobrados por casas e apartamentos durante o mês chega a R$ 300 mil

Com problemas de mobilidade, como trânsito e transporte público lotado, os torcedores que quiserem acompanhar os jogos em São Paulo podem achar mais atrativo ficar perto do novo estádio, a Arena Corinthians, localizado em Itaquera, bairro na periferia na cidade. A região é carente de hotéis.

Parece um ganho fácil para quem coloca casas e apartamentos para alugar durante o mês do evento esportivo na região de São Paulo, assim como em outras cidades-sede. Mas, em geral, não é o que está acontecendo. 

Imóvel para alugar em Recife (PE) chega a custar R$ 300 mil
Divulgação
Imóvel para alugar em Recife (PE) chega a custar R$ 300 mil

Isso porque os donos dos imóveis parecem ter sido picados pelo efeito manada e apostam na sorte: viram na TV ou conhecem pessoalmente alguém que conseguiu alugar o imóvel para estrangeiros por um valor suficiente para fazer um pezinho de meia. Consequentemente, anunciam na internet suas casas a preços descolados da realidade.

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As diárias atingem o valor de até R$ 4 mil por dia, caso de um sobrado com quatro quartos no qual cabem até 12 pessoas, localizado a 1,7 quilômetro da arena de São Paulo.

Já o pacote fechado do aluguel durante o mês do evento chega a R$ 300 mil no Recife. Segundo o proprietário, o apartamento, uma cobertura duplex com 300 metros quadrados e cinco quartos, a cem metros da Praia de Boa Viagem, acomoda 20 pessoas "confortavelmente".

Diante de tanta oferta, foi criado até um blog de casas para alugar durante a Copa, que já tem cerca de 700 anúncios de imóveis em diversas cidades. São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte são as cidades com maior oferta de casas para alugar no período, mas também é possível encontrar imóveis para temporada em Brasília, Natal, Porto Alegre, Curitiba, Fortaleza e até Manaus, além do Recife.

No Rio, os preços oferecidos chegam a R$ 130 mil para o mês do evento. Em Belo Horizonte, os imóveis para locação custam até R$ 100 mil. O mínimo encontrado na capital mineira, referente ao pacote fechado para o mês, são aluguéis de R$ 15 mil.

Os imóveis não estão necessariamente localizados ao redor das arenas: podem estar localizados em um raio de até 30 quilômetros dos estádios.

Anunciantes já revisam preços

A cinco minutos de carro do estádio do Mineirão, o aluguel de um sobrado com quatro quartos e duas cozinhas durante o mês da Copa já baixou de R$ 100 mil para R$ 70 mil.

A dona de casa Suellen Gregorio, de 32 anos, decidiu, com sua mãe e irmã, anunciar a casa quando uma vizinha conseguiu alugar uma casa menor, para uma equipe de repórteres estrangeiros, por R$ 70 mil. "Pensamos em aproveitar a oportunidade. E nossa casa é maior", conta. Até hoje, não recebeu nenhum contato de interessados. 

Os três filhos e o marido de Suellen também moram no local. Toda a família está disposta a deixar o imóvel durante o período do evento para receber o valor. "Não é nada cômodo, mas resolvemos fazer por necessidade. A vida não está fácil por aqui".

Suellen não perde a esperança. "Acreditamos que os hotéis da cidade não irão comportar toda a demanda. Belo Horizonte não tem um apelo turístico forte".

O empreendedor Rodrigo Monteiro, de 29 anos, também já revisou o preço de seu apartamento de dois quartos em São Paulo, a oito quilômetros da Arena Corinthians, de R$ 40 mil para R$ 30 mil. "Recebei algumas propostas de moradores do Sul, mas ninguém fechou", conta. Ele resolveu anunciar o imóvel há um mês, e baixou o valor depois de 15 dias.

Caso o imóvel seja alugado, ele e sua mulher irão se hospedar temporariamente em uma outra casa, na zona norte da cidade. "O preço do aluguel serviria para pagar uma faculdade e alguns cursos". 

Donos de imóveis também fazem apostas 

O empresário Thiago Zica, de 30 anos, proprietário da cobertura no Recife, que deseja alugar por R$ 300 mil, não está muito preocupado se conseguirá por este valor. Resolveu apenas tentar.

Thiago apostou na falta de leitos em hotéis da região. "Como cabem 20 hóspedes no apartamento, dá uma média de R$ 500 a diária por pessoa. É o que os hotéis estão cobrando", justifica. A cobertura fica localizada a 10 quilômetros do estádio, tem hidromassagem, cinco vagas de garagem e o preço inclui serviço de faxineira e van para transportar os hóspedes.

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O empresário colocou o anúncio do imóvel na internet há dois meses, mas ainda não recebeu propostas. Mesmo assim, não pensa em baixar o preço. 

Para chegar ao preço, Thiago tomou como base outros anúncios, que alugam apartamentos de 50 a 60 metros quadrados por valor entre R$ 80 e 90 mil na cidade. "Como o meu tinha mais espaço, achei que pudesse aumentar. Além disso, está difícil achar hotéis no qual 20 pessoas conseguem se hospedar juntas".

Alugado por R$ 80 mil

Há quem acerte na oportunidade de lucrar na Copa. A arquiteta Bruna Barberis, de 34 anos, colocou para alugar, junto com seu marido, dois apartamentos que têm para investimento no Rio, nas proximidades do estádio do Maracanã, por R$ 80 mil. Conseguiu fechar um contrato de um deles na semana passada, para um grupo de seis americanos. 

A localização, conta, foi essencial. "O apartamento, é espaçoso, tem ar condicionado central e teve bastante procura por turistas americanos, europeus e japoneses". 

A maior dificuldade foi negociar o aluguel para todo o mês do evento. Os turistas ficarão apenas 15 dias no apartamento, pois irão acompanhar os jogos em outros Estados. Mesmo assim, quiseram garantir o espaço para a final do campeonato, que acontece na capital carioca. 

O outro apartamento do casal, a 300 metros do estádio, já recebeu cerca de 20 propostas, mas para períodos mais curtos. 

Demanda irá regular oferta

O economista Eduardo Zylberstajn, coordenador do índice imobiliário Fipe-Zap, aponta que o fenômeno é natural diante de uma potencial alta da demanda, e também da falta de planejamento e capacidade hoteleira existente nas cidades que irão sediar o evento.

Até onde os preços podem chegar vai depender de quem quer alugar o imóvel" (Eduardo Zylberstajn, economista e coordenador do índice imobiliário Fipe-Zap)

Porém, até onde os preços podem chegar, vai depender dos compradores, conta. "Os contratos podem surgir da sorte e competência de quem tem residência perto dos estádios. O mercado irá ditar. Quem pensa em alugar pode repensar seus planos diante dos preços". 

Zylberstajn comprou um ingresso para ver um jogo da Seleção em Fortaleza, mas não encontrou hotéis para ficar na cidade. "A saída foi ficar apenas o dia do jogo na cidade. Quem não estiver disposto a fazer isso, vai pagar mais caro. Já que não houve expansão suficiente de hotéis, essa é a consequência". 

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