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Grupo de 50 empreendedores e incentivadores do Vale do Silício veio ao País conhecer oportunidades de negócios em tecnologia

Tinha um ninja da computação que mostrou projetos de redes sociais aos americanos e saiu com reuniões agendadas, tinha um libanês barrigudo que agora mora nos EUA e quer encontrar negócios para investir, dois paulistas de vinte e poucos anos que fundaram um site de compras coletivas “com foco em tudo”, um francês que mora no Vale do Silício e vai lançar um portal de esportes bancado por Allain Prost e estava achando a cena digital brasileira “muito mais entusiasmada que na França”, um representante de uma incubadora tecnológica de Recife, um programador que trabalhou na criação do Twitter, um americano responsável por ficar de olho em novas empresas até que elas comecem a ter receita e possam ser alvo de investimentos maiores – tinha, ao todo, cerca de 250 pessoas na Startuparty, “balada nerd” que aconteceu sábado (30), em São Paulo, na qual se trocou muito mais cartões que cantadas.

iG
"Festa nerd": chance de conhecer criador do Twitter e gestores de fundos
À frente do grupo que veio conhecer os novos negócios digitais brasileiros, estava Dave McClure, um dos nomes mais respeitados do Vale do Silício. Após criar e vender empresas de sucesso, McClure tornou-se um importante “investidor anjo” (como são conhecidos os capitalistas que arriscam dinheiro em companhias nascentes) e criou o 500Startups, grupo que tem por objetivo bancar e orientar negócios inovadores – por sua relevância, McClure é frequentemente referido como “investidor super-anjo”. Para atuar além dos limites do Vale do Silício, ele organiza o “Geeks on a Plane”, ou “nerds num avião”, que veio ao Brasil no último fim de semana e confraternizou com nerds locais no Startuparty.

“Vejo que há muita atividade acontecendo no Brasil e que as pessoas aqui têm verdadeira paixão pelos negócios que desenvolvem”, afirma McClure. “Se eu tivesse de comparar, diria que está me lembrando a viagem que fizemos para a China”, avalia, antes de ser puxado para conversar com um grupo de jovens com uma ideia que parece merecer a atenção da vedete da noite. Mas o “super-anjo” da internet não é o único alvo do assédio dos criadores digitais da festa.

O programador paulista Chim Kan, por exemplo, conversou pouco com McClure – achou que ele parecia cansado da viagem. Na verdade, Kan nem foi ao evento atrás de dinheiro, mas sim para ouvir gente experiente e “validar idéias” de produtos e serviços que tem na cabeça. No fim, as conversas com investidores renderam mais do que ele esperava. “A [experiente empreendedora] Francine Hardway amou a rede social de ‘fortune telling’ [adivinhação] que estou criando, me apresentou para uns investidores do grupo e acabei agendando conversas para o fim do mês”, diz. “Foi bem interessante, acredito que eles acharam nossa comunidade vibrante”. 

Se um dia a ideia de Kan crescer a ponto de precisar de novas rodadas de investimento, é possível que ele se sente para conversar com Allen Taylor. Representante da “super-incubadora” Endeavor em San Francisco, na vizinhança do Vale do Silício, Taylor trabalha para conectar o capital americano com empreendedores de países emergentes. “A enorme maioria dos capitalistas querem escolher o Brasil para investir, eles me pedem isso”, afirma. “Primeiro, porque o mercado aqui é grande; segundo, porque as empresas são boas”. Em sua décima visita ao País, ele também está entusiasmado com o evento. “Há dois anos, não poderia haver algo parecido aqui”.

Alguns foram à Startuparty apenas com uma idéia – como o blogueiro Fabio Krauss, 21, que já tem 13 mil usuário em sua rede de conteúdo acadêmico e ainda precisa descobrir como transformar isso em lucros. Outros têm negócios digitais que saíram do papel e buscam dinheiro para novas etapas. É o caso de Pedro Waengertner, criador da Zuppa, uma rede de reservas de mesas em restaurantes que em dois meses no ar conta com 30 estabelecimentos cadastrados e já recebeu US$ 2 milhões de investimento. “Agora precisamos de capital para fazer marketing e tornar a marca conhecida, porque acredito que só vá existir espaço para um serviço do tipo”, diz.

“Comparado com outros lugares onde fomos, eu diria que aqui ouvimos menos pitches [apresentações rápidas para apresentar um negócio a eles], as pessoas preferiram discutir e amadurecer suas idéias”, conta Evan Henshaw-Plath, chefe de programação da primeira versão do Twitter. “Acho que os brasileiros se sentem menos dependentes desse capital americano”, avalia. “E os americanos certamente estão prontos para investir aqui, sem dúvida, conheço muitas pessoas interessadas”.

Claro que ainda faltam muitos pedaços dessa ponte entre Brasil e Vale do Silício, tanto que algumas queixas sobre o ambiente tecnológico do País foram ouvidas mais de uma vez no evento. Mas Bedy Yang, fundadora do Brazil Innovators e uma das responsáveis por trazer o “Geeks on a Plane” ao País, é otimista. “Todo mundo na comitiva falou bem dos desenvolvedores brasileiros de tecnologia, disseram que qualquer um aqui tem uma idéia interessante”, diz. Para ela, a visita foi um passo importante para que os americanos passem a conhecer melhor o cenário local e possam vir, nas próximas vezes, para fechar negócio. “Eles precisam conhecer primeiro, nada substitui o contato pessoal”.

A festa aconteceu no Pto de Contato, um espaço de coworking – ou “escritório compartilhado – que fica no último andar da Galeria Ouro Fino, no bairro dos Jardins, em São Paulo. No melhor estilo “nerd”, começou às 19h e antes das 23h30 já estava terminando – ainda havia cerveja, mas a Coca-Cola e a água tinham acabado. Após participar de outros encontros em São Paulo, o grupo dos “Geeks on a Plane” irá passar a terça-feira no Rio de Janeiro e depois segue viagem para o Chile e a Argentina.