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De acordo com Lafer Piva, setores que ficaram de fora das medidas de estímulo desta semana farão lobby para novos incentivos

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Os setores que foram deixados de fora do pacote de medidas de estímulo à atividade econômica podem iniciar um forte trabalho de lobby e forçar o governo a lançar, mais para frente, outro conjunto de medidas . A previsão é do ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e atual membro do Conselho da Klabin, Horácio Lafer Piva. Uma nova onda de pressão, de acordo com o empresário, será inevitável, pois o governo escolheu somente alguns setores para serem beneficiados.

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"Tudo bem que os manufaturados sofrem, mas o comércio, a agroindústria e outros setores industriais que ficaram de fora já estão reclamando", disse Piva, para quem o governo, ao eleger setores para serem contemplados pelas medidas, acabou por criar uma anomalia no sistema como um todo. De acordo com ele, em vez de tratar de medidas de caráter horizontal, que beneficiem infraestrutura, reformas, inovação, e educação, de forma a mostrar os setores competitivos e os empresários com "espírito animal", o governo insiste em adotar medidas de curto prazo.

O que se viu na terça-feira em Brasília, na opinião de Piva, é o que se vê sempre. "Cria-se o anúncio algumas semanas antes, gera-se uma enorme expectativa, aí você começa a assistir a tensão entre os ministérios, com a Fazenda contra todo o resto, e uma fila de empresários que saem do evento com certa frustração. Ou seja, é um crônica anunciada. Isso acontece há anos e anos no Brasil, e o teatro é rigorosamente o mesmo", criticou o ex-presidente da Fiesp. Para ele, isso se torna cansativo, porque, na verdade, não pode ser combatido, uma vez que há, nestes pacotes, medidas que criam algum alívio, embora não resolvam os problemas.

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"Alguém pode dizer que estamos criando medidas para enfrentar a crise internacional, mas não temos de tratar da crise internacional. Temos de tratar da competitividade interna", disse. "A crise mundial reforça o nosso velho diagnóstico, de que nós temos problemas estruturais e que precisamos enfrentá-los. Temos problemas que vão desde a conscientização do empresariado, que precisa ter mais competitividade e produtividade, até a própria aliança com o governo, no sentido de tentar aprovar coisas de forma definitiva", afirmou.

Ainda segundo Piva, cada pacote lançado pelo governo torna o sistema tributário ainda mais confuso, pois cria determinados desvios na legislação tributária. "O que precisamos é de boa infraestrutura, reformas fiscal, tributária, trabalhista e previdenciária. O que tem de mudar é a estrutura da economia. Nós temos a terceira energia elétrica mais cara do mundo, isso com o sistema mais barato de produção. Isso precisa mudar", cobrou Piva. "Não estou combatendo o governo, porque a presidente Dilma Rousseff tem, de fato, uma preocupação. Foi lá e fez um plano. Agora, o Brasil é um player mundial, aceitou o desafio da inserção competitiva e tem uma oportunidade excepcional, à medida que a Europa está de joelhos. Portanto, este é o momento de a gente tentar entrar com mais ousadia no enfrentamento da pobre estrutura do setor industrial do País", observou.

China

Segundo Piva, a desaceleração da China preocupa algumas das principais empresas de celulose do País, que exportam grandes volumes para o país asiático. Não é o caso da Klabin, que vende apenas para o mercado interno. "Desaceleração na China é crescimento de 6% ao ano, o que chega a ser até engraçado. A mim, não preocupa, mas empresas como Fibra e Suzano devem estar mais preocupadas, porque, na verdade, é um mercado que pode ficar curto para todo mundo", previu.

De acordo com o ex-presidente da Fiesp, a China tem tal importância que qualquer suspiro do gigante asiático cria constrangimentos no mercado mundial, seja do ponto de vista da produção, seja do ponto de vista da percepção.

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