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Autorizada desde 2008, iniciativa ajudou a conter queda do dólar, mas especialistas não veem riscos de entrada em massa de recurso

As grandes empresas exportadoras do Brasil mantêm atualmente cerca de US$ 20 bilhões em contas no exterior. Os recursos são provenientes das receitas obtidas com exportações. Desde 2008, uma medida do Banco Central permitiu às companhias deixar no exterior a totalidade dos recursos obtidos durante suas operações. Embora o montante seja considerável _no ano passado, todo o saldo comercial do Brasil foi de US$ 25,3 bilhões_, especialistas não vêem riscos de entrada em massa de capitais via exportadores em 2010.

Segundo Roberto Giannetti da Fonseca, diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Derex) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o montante ajudou a conter a queda do dólar no ano passado. “São US$ 20 bilhões de receita de exportação que não foram internados pelos exportadores. O que seria da taxa de câmbio se esse dinheiro já tivesse entrado?”, questionou, em fórum sobre as perspectivas para o câmbio em 2010, recentemente organizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Quando a regra foi adotada, o objetivo do governo era conter a valorização do real, embora a medida também tenha sido criada para ajudar a reduzir os custos dos exportadores. Até então, uma empresa que quisesse pagar um fornecedor internacional precisava internalizar o dinheiro e, depois, remetê-lo de volta. “Como a maior parte dos exportadores são também importadores de matéria-prima, esses recursos podem ser utilizados para fazer pagamentos e já ficam direto lá fora”, diz André Sacconato, economista da Tendências Consultoria.

Para Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Espírito Santo, a medida foi mais “uma normalização”, já que nos países desenvolvidos os exportadores não eram obrigados a internalizar os recursos. Ele destaca que a proposta não teve impacto relevante na taxa de câmbio. “O fluxo de moeda entra num contexto global", diz. "Lá fora, o dólar vinha muito debilitado, mas descobriram que o euro está pior ainda e o dólar voltou a ganhar força. Não foi essa medida nem o IOF que deixou o dólar perto de R$ 1,80.”

Ele aponta que a tendência é que os exportadores sigam deixando mais dólares em contas no exterior. “Ao longo do tempo, esporadicamente, eles podem interar parte dos valores", afirma Serrano. "Tudo vai depender da cotação.”

Entrada de recursos

Os especialistas não acreditam que os US$ 20 bilhões sejam uma ameaça para a cotação do dólar atualmente. Primeiro, porque os exportadores não trariam todo o recurso de uma única vez. Além disso, os compromissos com pagamentos a fornecedores externos também ajuda a deixar parte do montante fora do País.

Por fim, segundo André Sacconato, da Tendências Consultoria, o próprio Banco Central já mostrou força de atuação diante de um forte fluxo de capitais. “O BC enxugou quase US$ 7 bilhões em outubro de 2009, quando aconteceu o processo de abertura de capital do Santander", afirma. "Se, por algum motivo específico, metade desses US$ 20 bilhões entrassem no Brasil, o BC já mostrou que tem condições de enxugar esse excedente no mercado.”

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