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Um dia de negócios na cidade de Yiwu tem guia em qualquer língua e almoço típico oferecido por lojistas – sem cachorro no cardápio

No aeroporto de Yiwu, cidade onde está o maior mercado de bugigangas do mundo , na província de Zhejiang, na China, um funcionário de uma empresa de exportação recebe um cliente estrangeiro e o leva a um hotel de luxo em uma BMW preta e de interior em couro bege, como apreciam os chineses. São 9h30 da manhã e as boas vindas são na língua do novo comprador, seja ela qual for.

Intérprete ajuda estrangeiro em primeiro contato com fornecedor
Olívia Alonso
Intérprete ajuda estrangeiro em primeiro contato com fornecedor
“Falamos russo, português, espanhol, hindi, inglês, japonês, coreano, polonês, francês, italiano”, diz Andy King, intérprete da empresa de importação e exportação East Star, uma das 80 do ramo que atuam na região. “Como você é do Brasil, pode me chamar de André”, afirma o chinês, sorridente e orgulhoso de falar português. Natural de Yiwu, ele morou cinco anos em Angola, onde aprendeu o idioma. Por isso, é o responsável pelos clientes de todos os países lusófonos.

É assim que começam os negócios de mais de 20 mil compradores, todos os dias, que levam produtos de Yiwu para seus países, em diversos pontos do mundo. Chegando ao hotel, com uma decoração que mistura vermelho, dourado e gigantescos quadros de paisagens e poesias chinesas, Andy aguarda o cliente fazer o check in em um dos sofás do lobby, ao lado de chineses, quase todos fumando. Enquanto o estrangeiro se aloja, Andy faz contato com o escritório e deixa agendado o almoço, que, no caso da East Star, será numa das salas privativas do restaurante Xiuhu, da própria empresa.

No bar do hotel, fazem uma primeira reunião para confirmar os interesses do cliente. Enquanto conversam, Andy pede um copo de água quente, “que faz muito bem para a saúde”, e oferece uma bebida gelada ao cliente. Começam então os negócios.

O carro deixa a dupla no mercado de Yiwu, no centro da cidade, onde estão 53 mil estandes de mais de 40 mil fabricantes chineses. Com 2,6 mil quilômetros quadrados, o equivalente a seis Maracanãs, o complexo tem produtos que vão de bijuterias a ferramentas, de brinquedos a utensílios domésticos e de escritório. Quando os compradores estrangeiros se aproximam dos produtos, o vendedor levanta de seu banquinho baixo de plástico colorido e usa todo o pouco inglês que sabe para passar as especificações e preços e trocar cartões. Como nem todos os 210 mil funcionários que ficam nos estandes falam uma língua estrangeira, o intérprete ajuda nesse primeiro contato.

No total, o mercado de Yiwu tem 320 mil variedades de produtos – das 500 mil reconhecidas pelo departamento de estatísticas de comércio das Nações Unidas, segundo dados da Prefeitura da cidade. Para não se perder no mar de bugigangas, Andy guia o cliente aos blocos onde estão os fabricantes de seu interesse. “Se querem artigos de cama, mesa e banho, vamos direto ao bloco B, por exemplo.”

Se um visitante quiser passar por todos os estandes e ficar três minutos em cada um, precisará andar oito horas no mercado de Yiwu durante um ano inteiro para ver tudo, segundo cálculos da assessoria de marketing do mercado. Para comer, entre um corredor e outro há máquinas de bebidas e de salgadinhos – nada de sabor pizza ou bacon, mas sim pimenta, algas ou camarões. Se precisar trocar de camisa, há também máquinas que vendem modelos lisos e xadrez por R$ 22 a R$ 40.

Coletadas as informações sobre os produtos que procura, se o cliente tiver interessado em algum dos fornecedores, ali mesmo o representante da empresa liga para sua sede para agendar a ida à fábrica, que pode ser para o período da tarde ou então para os próximos dias. Caso ele não tenha tempo para a visita, terá ajuda da empresa de importação e exportação na negociação dos valores e modos de pagamento.

Mercado de Yiwu equivale a seis Maracanãs
Olívia Alonso
Mercado de Yiwu equivale a seis Maracanãs
Do mercado, partem ao restaurante, onde o cliente poderá experimentar pratos típicos da região. “É uma forma de mostrar nossa atenção”, diz Ralph Deng, presidente da East Star, vez ou outra também presente nos almoços de negócios. Na seleção do menu, nada de cachorro. Os pratos são fartos de peixes, frutos do mar, sopa de frango, arroz, carne de porco e de vaca e legumes. Para a sobremesa, frutas. Ainda que seja apenas uma pessoa, são mais de seis pratos. As opções de bebidas são água, suco de milho, água de coco, refrigerantes, chás, cerveja ou vinho. Satisfeitos, eles vão para a sede da companhia para combinar a comissão e conhecer melhor os serviços que podem ser contratados.

Entre as opções, as companhias costumam oferecer ajuda em todas as etapas do negócio, incluindo o controle de qualidade da produção e os serviços de alfândega. No caso da East Star, que também é fabricante de roupas, cosméticos, tapetes e joias, o armazenamento das compras em seus galpões faz parte do pacote, mesmo que sejam de um de seus 20 mil fornecedores externos. Em geral, as companhias de exportação e importação cobram comissões de 2,5% a 5% dos negócios concretizados. "Em geral, cobramos 3% dos novos clientes e 2,5% dos antigos”, afirma Deng.

Se o produto for de produção própria da East Star, após o almoço, o cliente visita as salas de amostra, que ficam ao lado de uma das fábricas da empresa. De lá, em geral, emendam um tour nas linhas de produção e nos centros de armazenagem e distribuição das mercadorias. Em alguns casos, no mesmo dia o cliente já assina o contrato com a companhia. “Os brasileiros, normalmente, demoram de dois a três dias para pensar e conversar com sócios no Brasil antes de decidir”, diz Deng.

Já os mais rápidos do mundo, segundo ele, são os compradores de Argélia, Marrocos, Kuwait, Arábia Saudita, Rússia, Colömbia, Chile e Argetina. Além de estarem entre os mais lentos nas decisões, os brasileiros também são considerados bons parceiros para negócios, ao lado dos argelinos, sauditas, chilenos e colombianos. Os que mais pechincham, segundo Deng, são os clientes da Síria e do Irã. Com o negócio fechado, no fim da tarde, a BMW leva o estrangeiro ao hotel.