Tamanho do texto

Em entrevista exclusiva ao iG, Zong Qinghou diz como vai colocar sua empresa de bebidas entre as 500 maiores do mundo

Zong Qinghou dirige uma Mercedez Benz que comprou há dez anos. Chega cedo ao escritório, um prédio cinza, antigo, de seis andares, que tem na entrada principal durante as 24 horas do dia dois seguranças de farda verde com detalhes em amarelo. Aos 66 anos, trabalha de segunda a sábado, pelo menos 12 horas ao dia e não tem planos de se aposentar.

Apesar de levar uma vida sem nenhum glamour – ele almoça no refeitório da empresa, não gasta com caros ou viagens de turismo aos exterior -, ele é o homem mais rico, entre os 149 bilionários da China, segundo o Hurun Report 2010, publicação dedicada ao mapeamento da riqueza no país. Segundo esse relatório, Zong é dono de uma fortuna de US$ 12 bilhões (R$ 19,4 bilhões). Na lista da Forbes, ele aparece como o terceiro chinês mais rico, com US$ 5,9 bilhões (R$ 9,5 bilhões).

Ele, entretanto, não pretende parar por aí. Dono da empresa de bebidas não alcoólicas Wahaha, presente apenas no território chinês, ele disse ao iG, em seu escritório, que está de olho no mercado brasileiro. Em Hangzhou, no leste da China, dentro de uma sala de 100 metros quadrados, decorada com um aquário – que simboliza a fortuna – dois sofás vermelhos desbotados e as paredes cobertas por estantes de madeira escura lotadas de livros, o assunto preferido do homem mais rico da China estava a 18 mil quilômetros de distância, o Brasil.

Depois de apontar onde cada um dos presentes na entrevista deveriam ficar, como dita a etiqueta de negócios chinesa, Zong sentou-se de frente para a porta – lugar do mais velho, ou do mais importante na hierarquia – e colocou em cima da mesa seu maço de cigarros da marca suíça Davidoff, uma caneca de porcelana com chá e disse para a intérprete que tinha uma hora para a conversa. Como usou uma parte do tempo da entrevista, que foi filmada do começo ao fim por um de seus funcionários, deixou durar um pouco mais.

Sem qualquer embaraço pelo pouco conhecimento que tem do País, perguntou: “Qual é mesmo o número de habitantes do seu país? E quanto custa uma caixinha de chá nos supermercados?” Recebidas as respostas, sorriu, como um garoto que acaba de fazer arte. No instante seguinte, mostrou como o chinês que acumulou do zero uma fortuna de US$ 12 bilhões é rápido em tomar decisões: “Bem, o Brasil me parece um bom mercado. Pode escrever aí que vou começar já a planejar a venda de chá no seu país.”

Clique aqui e leia a íntegra da entrevista com Zong Qinghou

Leia também: Sou muito ocupado para pensar em luxo, diz o homem mais rico da China

Passados os quase 70 minutos de entrevista, durante os quais fumou três cigarros, Zong levantou-se, atravessou seu escritório e entrou em um quarto, no extremo oposto da porta de entrada. De lá, um minuto depois, ele volta com uma grande caixa nas mãos, em um embrulho vermelho, que simbolizam a fortuna e alegria. Em uma atitude completamente previsível, tratando-se de um executivo chinês, presenteou o visitante num ato que, para os chineses, sela a criação de uma boa relação profissional e pessoal.


iG: Qual o momento mais especial da história da Wahaha?

Zong Qinghou : A história da Wahaha está intimamente ligada à reforma econômica da China nos últimos 30 anos. A primeira fase importante da empresa foi durante a era de Deng Xiaoping [presidente chinês de 1978 e 1992], quando foi estabelecido no país o sistema operacional e de distribuição de terra para motivar as pessoas e desenvolver empresas. No início, a Wahaha vendia sorvetes, mas logo detectamos uma demanda nova no mercado e passamos a fabricar bebidas nutritivas para crianças. O segundo momento essencial para Wahaha, durante a década de 1990, foi quando compramos uma empresa de comidas enlatadas. Naquela época, percebemos que o mercado de bebidas era maior e decidimos focar neste setor. O terceiro momento-chave foi quando a Wahaha construiu sua primeira fábrica fora de Hangzhou, com apoio do governo central que queria desenvolver a região de Três Gargantas. De lá para cá, a empresa se expandiu rapidamente por toda a China.

iG: Como você deseja ver a Wahaha cinco anos e daqui a dez anos?

Qinghou: A Wahaha irá manter a sua liderança no setor de bebidas e vai crescer para todos os setores da cadeia. No momento, temos participação de 15% no setor de bebidas e esperamos aumentar para 20% até 2016. A meta é estar no ranking da [revista norte-americana] Fortune 500 em cinco a dez anos.

iG: Como a Wahaha tenta se diferenciar para competir com gigantes como a Coca-Cola e a PepsiCo?

Qinghou: Competimos para melhorar nossos produtos, o que ajuda o desenvolvimento da empresa. Em termos de refrigerantes cola, Coca-Cola e a Pepsi definitivamente lideram o mercado, mas a Wahaha Future Cola captura determinado grupo de consumidores. Acredito que estamos mais bem posicionados do que os concorrentes, pois temos uma gama maior de produtos do que os dois. Posso dizer que, pelo menos na China, a Wahaha tem uma posição melhor do que a Coca-Cola e a Pepsi.

iG: Qual a estratégia da Wahaha para estar entre as maiores do mundo?

Qinghou : Na China, vamos crescer em toda a cadeia de bebidas. Também pensamos em entrar no mercado internacional. Já conversamos com algumas empresas, mas, neste momento, vamos manter a calma e pensar em cada movimento antes de tomar uma decisão. Precisamos estar bem preparados para as oportunidades. Recentemente adquirimos uma fazenda de gado para não dependermos apenas dos pequenos produtores chineses de leite. O próximo movimento é procurar oportunidades para desenvolver o negócio de varejo. Queremos também entrar no mercado brasileiro, mas não estamos familiarizados com o mercado até agora. Gostaríamos de fazer parceria com empresas brasileiras de matérias-primas, como por exemplo, companhias de leite em pó ou de plantas das quais podem ser extraídos nutrientes.

iG: A Wahaha vai atuar no mercado brasileiro?

Qinghou: Eu acho que pode ser ótimo. Mas nunca estive no Brasil e primeiro vou fazer uma visita para avaliar o mercado. Se o povo brasileiro está começando mesmo a se preocupar mais com a saúde, acho que pode ser um bom mercado para os chás da Wahaha. Pode escrever aí que vou começar a planejar a ida da Wahaha para o seu país. Depois, se as vendas forem bem, podemos abrir uma fábrica no Brasil. Por enquanto, apenas compramos matérias-primas do Brasil para o nosso suco de laranja.

iG: A Wahaha vai manter seu foco na produção de bebidas de alto valor nutritivo?

Qinghou: Estamos nos concentrando no desenvolvimento de engenharia biológica. Os chineses têm melhor condição de vida hoje em dia, e, portanto, a estrutura de consumo das famílias mudou. As pessoas compram refrigerantes não só para matar a sede, mas também para ter saúde. Então a Wahaha vai colocar mais energia e nutrientes nos refrigerantes num futuro próximo.

iG: Quanto a Wahaha vai investir este ano em pesquisa e desenvolvimento?

Qinghou: Temos uma equipe especializada, que vem estudando diferentes culturas. Vamos investir o que for necessário. Em 2010, investimos 50 milhões de yuan [cerca de R$ 12,5 milhões] em equipamentos para pesquisa e desenvolvimento.

iG: Depois de faturar 55 bilhões de yuan (R$ 13,7 bilhões) no ano passado, qual a sua meta para 2011?

Qinghou: Esperamos que o aumento das receitas de para 70 bilhões de yuan [R$ 17,4 bilhões] este ano e 100 bilhões [R$ 25 bilhões] no ano seguinte.

iG: Como é ser o homem mais rico da China?

Z : Eu não me sinto pressionado por isso. Estou envolvido fundamentalmente nos negócios. Criei minha fortuna passo a passo, por isso não estou preocupado ou estressado em relação a isso.

iG: Como surgiu a ideia de fundar a Wahaha?

Qinghou: Eu trabalhava no campo há 15 anos e os meus pais, na cidade. Minha mãe era uma professora de escola primária. Quando ela aposentou, ocupei sua posição. Naquela ocasião, eu comecei um negócio, mas as pessoas me subestimavam. Então decidi trabalhar para valer, para que eu pudesse ser respeitado. A reforma econômica da China me ajudou a começar.

iG: Agora você sabe que conquistou esse respeito...

Qinghou : Sim. O período que passei no campo, na verdade, me deu a força para conseguir superar problemas diferentes e desenvolveu meu modo de trabalhar duro e meu estilo de vida simples. Quando fundei Wahaha, eu tinha 42 anos, com uma visão mais precisa e madura.

iG: Qual seus planos para a sua filha na Wahaha?

Qinghou : Hoje ela está cuidando de um terço do meu negócio.

iG: O senhor tem fama de mesquinho, por gastar pouco dinheiro. Não gosta de fazer compras?

Qinghou: Eu não me controlo para não ser consumista. Sou de origem pobre e não desenvolvi o hábito de comprar. Além disso, sou muito ocupado para pensar em luxo.

iG: Os estímulos do governo chinês ao consumo interno vão ajudar os negócios da Wahaha?

Qinghou: A Wahaha, particularmente, não deve receber nenhum subsídio ou ajuda financeira do governo. Embora tenhamos a visão de que o país está no caminho certo, o governo central ainda não detalhou como vai alcançar seus objetivos e conseguir a mudança que pretende no desenvolvimento econômico, diminuindo a dependência do exterior. Mas, de maneira geral, a renda familiar está aumentando a um ritmo estável, o que deve impulsionar o mercado de bebidas para um crescimento anual de 20%.

iG: Qual o maior desafio da empresa hoje?

Qinghou: A Wahaha estabeleceu marca, com uma boa imagem, e alcançou uma boa condição financeira até agora. Portanto, não temos um grande problema. No entanto, temos falta de pessoal qualificado e talentoso na empresa.

iG: Como vocês vão resolver isso?

Qinghou: Patrocinamos a educação e investimentos em vários cursos para a nossa equipe. Estamos enviamos alguns funcionários para fazer treinamentos no exterior.

iG: A China vai manter o ritmo de crescimento nos próximos anos e ultrapassar os EUA como maior economia do mundo?

Qinghou: A China é capaz de manter um elevado ritmo de crescimento nos próximos 20 anos. Se a mudança no modelo econômico para o consumo interno for alcançada, isso vai contribuir também para o crescimento de toda a economia global.

iG: O que você mais se orgulha da economia da China?

Qinghou: A China está experimentando o mais rápido ritmo de desenvolvimento ao longo destes anos, e a evolução da infraestrutura em muitas cidades estão bem resolvidos.

iG: Qual sua opinião sobre o Brasil?

Qinghou: O Brasil tem experimentado rápido desenvolvimento econômico nos últimos anos. Tanto a China como o Brasil são países em desenvolvimento e acho que os dois continuarão a ter um crescimento robusto se trabalham arduamente e em conjunto. O Brasil tem a vantagem de ser rico em recursos naturais, mas a riqueza é feita por humanos e isso não acontece naturalmente. Se todos nós trabalharmos duro, o nosso sonho de ser ricos acabará sendo realizado.