Tamanho do texto

Chineses falando português e bebês de olhos puxados são preciosidades do local em que os brasileiros vivem no sul da China

João Carlos Dutra, Janet Zhou e o filho chinês Thiago Bin Dutra, que fala mandarim, inglês e um pouco de português
Arquivo pessoal
João Carlos Dutra, Janet Zhou e o filho chinês Thiago Bin Dutra, que fala mandarim, inglês e um pouco de português

Eles moram no ponto mais distante da terra do local onde nasceram. O idioma local não tem a menor semelhança com sua língua materna e é considerado um dos mais difíceis do mundo. As comidas são diferentes e as pessoas têm outros costumes. Ainda assim, a família Vieira, natural de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, nem pensa em voltar à cidade natal.

“Vivemos muito bem aqui e não temos planos de voltar, pelo menos por enquanto,” diz Odeti Vieira, de 42 anos. Ela, o marido e os dois filhos moram em Dongguan, na província de Guangdong, no sul da China. O que os prende lá? Além das boas oportunidades de trabalho, a segurança. “Há mais de três mil câmeras instaladas nas ruas,” diz o pai João Vieira.

Família Vieira: segurança e emprego os mantêm em Dongguan
Olívia Alonso
Família Vieira: segurança e emprego os mantêm em Dongguan
Além deles, mais de dois mil brasileiros vivem na cidade, segundo estimativas da Embaixada brasileira em Pequim. Os primeiros chegaram há 15 anos, para trabalhar no setor de calçados, em um momento em que a indústria calçadista do sul do Brasil começava a passar por dificuldades, principalmente em função da concorrência com a própria China. Como tinham experiência na área, os brasileiros que viajavam para Dongguan não tinham dificuldade em conseguir empregos em fábricas localizadas na cidade, em quaisquer cargos.

Alguns abriram suas próprias empresas, mas a maioria trabalha para grandes companhias estrangeiras ou chinesas. Na família Vieira, o pai, João, é diretor de produtos de uma companhia norte-americana de sapatos de couro que vende 15 milhões de pares por ano, 90% para os Estados Unidos. Jean, o filho mais velho, trabalha para uma empresa chinesa de solados de sapatos. Jader, mais novo, era funcionário da mesma empresa do pai, mas agora se prepara para ir estudar música em Boston, nos Estados Unidos.

Desde o início da década de 1990, quando os primeiros brasileiros foram para Dongguan, algumas famílias já voltaram para o Brasil, mas ainda há aquelas que fazem o sentido inverso. Hoje, como resultado da forte presença brasileira, as características tupiniquins já fazem parte da cidade. Além das churrascarias, botecos e salões de beleza, os próprios chineses já aprenderam um pouco sobre o País.

No shopping do centro de Dongguan, muitos vendedores arriscam falar em português. Conhecido como “Warma”, como os moradores chamam o supermercado “Walmart”, que ocupa o térreo do edifício, o prédio tem lojas de artigos falsificados, como bolsas e carteiras, chás, sapatos, roupas, CDs e DVDs, relógios e bijuterias. “Oi, amigo, tá em promoção, vem ver uma carteira.” O sotaque revela que é um chinês falando, e a situação é tão particular que é difícil conseguir passar por ele sem parar para conversar.

“Outro dia uma moça me chamou e disse: ‘seu irmão veio aqui ontem’. Depois ele confirmou que tinha ido mesmo lá. É incrível como elas prestam atenção” diz Jean.

Brasileirinhos de olhos puxados

Atenção, aliás, que já terminou em romances entre as orientais e os brasileiros. “Há diversos casais, alguns até com filhos, que ficam lindos, loirinhos de olhos azuis e puxados” afirma Odeti. Segundo eles, é mais difícil ver uma brasileira com um chinês, mas o contrário vem se tornando cada vez mais comum. Os bebês sino-brasileiros atraem atenção. "São todos muito lindinhos, alguns deles loirinhos e de olhos puxados e azuis," diz Odeti. Eles estão também em outros municípios das redondezas de Dongguan, como Guangzhou e Shenzhen.

Maior parte dos brasileiros vive em condomínios em Dongguan
Olívia Alonso
Maior parte dos brasileiros vive em condomínios em Dongguan
João Carlos Dutra, de São Luiz Gonzaga (RS), casou-se com Janet Zhou há nove anos, com quem tem um filhinho brasileiro de olhos puxados. Eles moram a 30 minutos de Dongguan e, por enquanto, não trocam a China pelo Brasil. “A gente sempre procura o melhor lugar. No momento, a China oferece segurança e garantia de emprego,” afirma. Ele é sócio de uma rede de churrascarias, a Latin, e vive viajando a Pequim para visitar as unidades localizadas na capital chinesa.

Mas é mesmo em Dongguan que está a maior concentração dos brasileiros na China. Eles vivem no bairro central, que mais parece uma pequena Miami do que a China. As ruas são charmosas, com árvores na calçada e jardins cuidados. “Acho que todo mês a Prefeitura pinta os canteiros,” diz Jean Vieira. Restaurantes e bares temáticos de um lado, lojas modernas e com arquitetura ocidental de outro. Apesar de os chineses serem maioria na cidade, que tem 7 milhões de habitantes, os brasileiros afirmam se sentirem em casa.

O condomínio onde muitos deles moram tem praças, escolas internacionais e dois salões de beleza para brasileiras. Um deles é das gauchas Michelli Vecchiato, manicure, de 27 anos, e Mabi Nunes, cabeleireira, de 29 anos. “Agora nos associamos a uma esteticista de Minas Gerais, que acabou de chegar para morar com o marido, e estamos ampliando o salão,” diz Michelle. Juntas, as duas têm mais de 100 clientes, a maioria do Brasil, e estão sempre com as agendas lotadas. “De última hora, é quase impossível termos um horário disponível,” diz Mabi.

Brasileiras Michelli e Mabi: salão de beleza tem mais de 100 clientes
Olívia Alonso
Brasileiras Michelli e Mabi: salão de beleza tem mais de 100 clientes
Quando chegaram, seis meses depois dos maridos, o plano era de ficar apenas cinco anos. Mas esse tempo já passou e nada de voltarem para casa. “Os dois vieram para trabalhar no ramo de couro e calçados. Combinamos de ficar apenas um período, mas agora já não sabemos se queremos ir para o Brasil,” conta Michelle. No início ela, tentou trabalhar em uma calçadista, mas como não falava bem o inglês, acabou saindo e teve a ideia de montar o salão. “No Brasil, eu nunca trabalhei como manicure, mas aqui o negócio é muito bom.”

É também dentro do condomínio que o brasileiro Fernando Vittabar, de 20 anos, faz aulas de mandarim com uma professora particular.

Fernando Vittabar, entre trabalho na churrascaria e no bar, faz aulas de mandarim
Olívia Alonso
Fernando Vittabar, entre trabalho na churrascaria e no bar, faz aulas de mandarim
Ele mora em Dongguan com o pai, dono de uma empresa de artigos de couro, desde 2007. Das 10 da manhã às 14h, trabalha como gerente do Picanha Grill, um restaurante de rodízio de churrasco. Em seguida, faz quatro horas de aulas de segunda a sábado. “Quero aproveitar que estou aqui para aprender a língua,” afirma. Depois das aulas, algumas vezes na semana vai para o VittaBar, bar que fundou em parceria com a família Vieira e outros dois sócios.

Os planos dele são fazer uma faculdade em Hong Kong, que fica a apenas uma hora de Dongguan, e ficar na China por um bom tempo. “Com o dinheiro que ganho, vivo bem aqui, mas não viveria nas mesmas condições no Brasil,” afirma.

Desde o dia 27, o iG está publicando uma série de reportagens sobre como a China está se preparando para se tornar a maior economia do mundo . O portal revelou que o homem mais rico da China, que leva a vida sem nenhum glamour e trabalha doze horas por dia, seis dias na semana, tem planos de investir no Brasil . Também mostrou como é a Alibaba , a empresa na qual os jovens do país desejam trabalhar. Conheça também o maior mercado de bugigangas do mundo, em Yiwu , e a cidade que tem o metro quadrado mais caro da China . Veja tudo sobre o Expedições iG - China .

Veja também:

- China se prepara para ser maior potência do mundo em dez anos

- Classes médias do Brasil, Índia e China vão mover consumo global

- Investimentos chineses no Brasil superam R$ 48 bilhões