Tamanho do texto

Cidade constrói bairro chique para atrair estrangeiros e é uma das duas mil que vão puxar um novo ciclo de crescimento no país

Wendeng, na província de Shangdong, tem apenas 600 mil habitantes, o que a classifica entre as pequenas na China. Não tem arranha-céus, metrôs ou shopping centers. Os supermercados são pequenos e quase não se vê produtos estrangeiros nas prateleiras. É claramente uma cidade subdesenvolvida. Mas, com apoio dos governos central e local, vem crescendo mais rápido do que a média do país . Com o objetivo de transformar a região em um “novo centro” da China, a Prefeitura vem fazendo investimentos em infraestrutura e está construindo um bairro no estilo europeu para atrair estrangeiros com dinheiro no bolso.

“Estamos crescendo 15% ao ano e pretendemos crescer ainda mais,” afirma ao iG o prefeito Andy Cong. O objetivo do governo local é de transformar a cidade em um centro industrial e de turismo, uma nova opção para a China depender menos das já saturadas Xangai e Pequim. A localização ajuda muito. Situada exatamente entre as duas grandes cidades – a uma hora de voo de ambas - no nordeste da China, Wendeng está bem próxima de Seul, capital da Coréia do Sul, e do Japão.

Os moradores da cidade ainda não estão acostumados com os estrangeiros. Diferente do que acontece em cidades grandes ou turísticas, o melhor hotel de Wendeng não tem quartos para não fumantes nem restaurante internacional. As placas dos estabelecimentos comerciais não têm versões em inglês e, principalmente, os vendedores não dão preços mais altos para lucrar mais em cima dos clientes de outros países, prática bastante comum no país. Tanto um estrangeiro como um local compram um suéter de lã feminino por 7,50 yuan (R$ 1,80), por exemplo.

Para se tornar um novo centro do país, a Prefeitura de Wendeng está se preparando para comportar mais pessoas e atrair investimentos estrangeiros. Com a ajuda do governo central chinês, agora está construindo um bairro inteiro para receber empresários de outros países. Há cinco anos, a cidade ganhou uma área de 160 quilômetros quadrados para usar em seu novo projeto.

Na China, todos os terrenos são estatais. Quando uma família, um comerciante ou uma indústria compram uma terra, não se tornam donos eternamente, como acontece no Brasil, mas apenas têm direito de usá-la por um período. Para uso residencial, são 70 anos, para fins comerciais, 40 anos, e para uma fábrica, 50 anos. Quando os prazos expiram, é preciso pagar novamente. Mas, em Wendeng, quem se instalar no novo bairro não precisará pagar a primeira compra.

As primeiras casas já estão prontas para receber os estrangeiros. Com dois andares e arquitetura europeia, ficam de frente para a Praia do Ouro, nome inspirado na areia quase dourada. “Teremos também hotéis, hospitais, teatros e escolas. Todas as condições de vida necessárias e estrutura para viver serão muito boas,” diz Robert Zhao, assessor de Cong.

Andy Cong, na Prefeitura de Wendeng:
Olívia Alonso
Andy Cong, na Prefeitura de Wendeng: "crescemos 15% ao ano"
Em infraestrutura o investimento inicial foi de 3,5 bilhões de yuan (cerca de R$ 873 milhões), o que inclui saneamento, água, eletricidade, aquecimento, gás e telecomunicação. “Colocamos 1 bilhão de yuan (R$ 250 milhões), por ano desde 2007. Assim, quando os empresários vierem para cá, não precisarão se preocupar com isso,” afirma o prefeito. Para facilitar o acesso à região, as estradas estão prontas. Todas com quatro ou cinco pistas largas e bem sinalizadas, que vão às grandes cidades da região nordeste do país. Como resultado dos esforços na preparação para o crescimento, o avanço já começou a acontecer. Em 2009, Wendeng ficou entre as 15 cidades com a maior expansão econômica no país.

A cereja do bolo de South Sea (Mar do Sul), nome dado ao novo bairro, será uma ilha artificial de dois quilômetros quadrados, a um quilômetro da orla. Por enquanto, só é possível ver um pontinho, uma ilhota de menos de um quilômetro quadrado. Mas o governo irá aterrar em volta e criar um centro para resorts de turismo e negócios. “Será como uma mini Dubai, com complexos de lazer e empresariais”, diz Robert, em referência às belas ilhas artificiais The Palms, nos Emirados Árabes. Segundo ele, o investimento inicial já foi aprovado e é de US$ 700 milhões (R$ 1,2 bilhão), vindos de investidores de Hong Kong.

Novo ciclo de crescimento

Wendeng nunca esteve nos planos de estímulos de crescimento do governo central. Agora, afirma o prefeito, “estamos entre as principais prioridades.” Assim como Wendeng, outras duas mil cidades estão sendo ajudadas pelo governo chinês para se desenvolverem.

Bairro para investidores já tem apartamentos prontos de frente para a praia
Olívia Alonso
Bairro para investidores já tem apartamentos prontos de frente para a praia

Apenas o movimento dessas economias será suficiente para impulsionar a China e garantir um forte avanço ao país nos próximos anos. Nem todas oferecem incentivos para a ida de estrangeiros, como é o caso de Wendeng. A principal estratégia do governo central, em todas elas, tem sido o estímulo à urbanização por meio dos investimentos em infraestrutura. “Em milhares de locais, alguns governantes já estão facilitando a acomodação de pessoas vindas da zona rural,” diz David Li, diretor do departamento de Economia da Universidade de Tsinghua.

Wendeng, no nordeste da China, é uma das 2 mil cidades que estão começando a se desenvolver na China
Olívia Alonso
Wendeng, no nordeste da China, é uma das 2 mil cidades que estão começando a se desenvolver na China
Economistas calculam que o cidadão que vive nos centros urbanos consome 1,6 vezes mais do que o morador do campo. Como pouco mais de metade dos 1,3 bilhão de chineses ainda vive em áreas rurais, a ida de uma parcela para as cidades já será suficiente para acelerar o consumo e manter forte o ritmo de crescimento do país, segundo Li.

Outro exemplo da atuação do governo para preparar áreas para receber a população é Ordos, no norte do país. Depois de vultuosos investimentos, a cidade ficou pronta para acomodar um milhão de chineses que trabalham em empresas de carvão e gás natural, abundantes na região. Mas a cidade está vazia.

A preocupação dos governantes era com a previsão de falta de água na cidade onde essas famílias vivem atualmente, a 25 quilômetros dali, então a nova cidade foi construída com um maior acesso ao recurso. “A China costuma mesmo se antecipar,” comenta Li. No entanto, enquanto ainda não precisam, os moradores não se mudam. Com prédios lindos e modernos, por enquanto Ordos parece feita para fantasmas.

Veja também no iG:

- Gigante da internet na China quer ensinar Brasil a vender na rede
- A feira que junta todos os produtos do mundo
- Na China, “Mãe da 25 de Março” recebe 20 mil compradores estrangeiros por dia
- Veja o infográfico do iG sobre preços em Yiwu e na 25 de março
- Metro quadrado mais caro da China equivale ao de Leblon e Ipanema

Desde o dia 27, o iG está publicando uma série de reportagens sobre como a China está se preparando para se tornar a maior economia do mundo . O portal revelou que o homem mais rico da China, que leva a vida sem nenhum glamour e trabalha doze horas por dia, seis dias na semana, tem planos de investir no Brasil . Veja tudo sobre o Expedições iG - China .