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Mais renomado economista da Universidade de Tsinghua, a “Harvard da China”, fala sobre os desafios do criticado modelo econômico

A economia chinesa não deve crescer menos que 9% ao ano, nos próximos anos. Apesar da intenção do governo de desacelerar o ritmo de avanço, a China deverá ultrapassar os Estados Unidos como a maior potência do mundo em até dez anos. Esta é a projeção de David Li, o mais renomado economista do gigante asiático, chefe do departamento de finanças da Universidade de Tsinghua, “a Harvard da China”, e diretor do Centro para a China na Economia Global (CCWE).

Li recebeu o iG no moderno prédio de professores do departamento de Economia, no centro do campus da universidade de Tsinghua, no distrito de Haidan, na região central de Pequim. Ali, estudaram alguns dos nomes mais ilustres da China, como o Hu Jintao, atual presidente, e Xi Jinping, vice-presidente. O campus, cuja área é metade da ocupada pela cidade universitária da USP, em São Paulo, tem suas ruas arborizadas e limpas. Prédios novos e antigos são separados por jardins impecáveis. Quando as aulas terminam, sãs todas as vias são tomadas por milhares de bicicletas dos estudantes que moram na universidade ou nas redondezas. Na China, é comum mudar-se para o campus, mesmo aqueles que são da própria cidade.

De dentro de uma das salas de reunião dos professores, Li afirma que a China está evoluindo para uma economia de mercado complexa e sofisticada e não há sinais de desaceleração. Com modelo político e econômico que mistura as forças do mercado e do governo central, o que ele considera o “único possível para a China”, o país deverá acelerar o consumo doméstico, manter a inflação em torno de 4% ao ano e deixar sua moeda valorizar cerca de 4% ao ano. “Assim, em menos de uma década, devemos deixar os Estados Unidos para trás.”

Mas, enquanto cresce, a China tem grandes desafios, reconhece o economista. O maior, na opinião dele, é a crescente tensão social. Da janela de sua sala, ele aponta os jovens estudantes que passam pelas ruas do campus e manifesta preocupação com os seis milhões de jovens que se formam todos os anos na China. “É uma legião de jovens que estão insatisfeitos com a falta de emprego, com a inflação, com as políticas do governo e com a corrupção. Tudo isso reflete descontentamento com suas carreiras e suas vidas.”

Para os brasileiros, Li sugere mais atenção aos investimentos estrangeiros e menos críticas à moeda chinesa. “Ao invés de reclamar tanto sobre o câmbio, o Brasil deveria focar em medidas para atrair investimentos produtivos e aumentar suas exportações de valor agregado.”

Na entrevista abaixo, o economista também fala da fragilidade chinesa diante dos preços crescentes das commodities no mercado internacional e da relutância das companhias chinesas para aumentar os salários dos trabalhadores.

iG: O governo chinês quer desacelerar o crescimento. Isso vai mesmo acontecer?
David Li:
Na realidade, nos últimos cinco anos, a China cresceu 11,2% ao ano. Agora, o governo central que desacelerar para um crescimento anual de cerca de 7%. Eu vejo os 7% de um jeito diferente: essa meta é uma indicação da preocupação do governo com a qualidade do crescimento. Mas minha perspectiva é de um crescimento de 9% ao ano na próxima década, o que já são dois pontos percentuais abaixo da média dos últimos cinco anos. Então os 7% são apenas uma indicação da preferência do governo central.

Por que desacelerar a economia?
Li:
O governo está preocupado com três coisas. A primeira é o alto desequilíbrio da economia: quando crescemos muito depressa, dependemos mais de demanda estrangeira. Em segundo lugar, está a preocupação com a demanda crescente por commodities no mercado global. O terceiro ponto é que o crescimento muito rápido poderia piorar nossa tensão social, criando desigualdade na distribuição de renda. Então, eles esperam que com uma pequena desaceleração possamos mitigar estes problemas.

Qual deve ser o melhor motor do crescimento chinês para o país lidar com essas questões?
Li:
O governo quer depender mais de consumo doméstico. Ficar menos dependente das exportações.

Como?
Li:
Cortando taxas, fornecendo subsídios e melhorando o sistema de seguridade social, de forma a dar mais confiança aos cidadãos para consumir mais.

O governo pretende incentivar o crédito para pessoas com menor renda?
Li:
Esse é um tema em discussão na China, mas não acho que será um componente significativo na política para o crescimento doméstico. Hoje, as famílias não consomem porque acham que sua renda não crescerá na mesma velocidade do país, não é por falta de crédito. Eles não querem comprar muito.

Na sua projeção, quando a China vai superar os EUA como a maior economia do mundo?
Li:
É provável, não é certo, que em até dez anos a China se tornará a maior economia do mundo. Considerei minha projeção para o crescimento chinês, para o crescimento dos Estados Unidos e para as taxas de inflação e câmbio. Esses quatro pontos, juntos, indicam que é provável que a China se torne a maior economia do mundo em dez anos.

Quais os níveis de crescimento, inflação e taxa de câmbio que você considerou?
Li:
Assumi de 4% a 5% de valorização do yuan em relação ao dólar, 9% de crescimento do PIB da economia da China e 2,5% da economia dos Estados Unidos. E também de 4% a 5% de inflação na China e 1% nos EUA. Tudo isso, cominado, gera essa projeção.

Por que esta projeção de até 5% para a inflação?
Li:
Porque a inflação está sendo guiada por dois aspectos. O primeiro é o preço internacional de commodities, incluindo cobre e minério de ferro. Isso é internacional, é algo que a China não pode controlar. O segundo é a alta dos salários.

Em seu plano quinquenal, a China afirma que quer estabelecer um conceito “científico” de desenvolvimento. O que isso significa?
Li:
Científico, na China, não é sinônimo de ciência, mas quer dizer comprometimento real. Isso significa duas coisas. Em primeiro lugar, diminuir a tensão social para ter uma base melhor para o desenvolvimento econômico, com, por exemplo, melhor distribuição de renda e de seguridade social. O segundo aspecto é ser mais preocupado com o meio ambiente, menos dependente das commodities e mais dependente do desenvolvimento do setor de serviços. Isso também significa estar mais dependente das pesquisas científicas e do desenvolvimento tecnológico, com maior base de pesquisa.

Quão preocupado, de fato, está o governo chinês com o crescimento sustentável e “verde”?
Li:
A China é um país gigante, com uma população de 1,3 bilhão de pessoas. Seis vezes a população do Brasil. É impossível, para nós, perpetuar o modelo atual com a atual taxa de crescimento dependendo tanto das fontes de matérias-primas internacionais. Se continuarmos nesse ritmo, da maneira atual, o mundo todo será impactado. Não temos alternativa senão diminuir nosso consumo de matérias-primas e investir em energia renovável. Podemos fazer isso com o desenvolvimento científico, por exemplo.

As universidades e empresas chinesas estão prontas para esse desenvolvimento?
Li:
Sem dúvidas, aqui na universidade de Tsinghua, por exemplo, temos um centro de pesquisa em energia limpa, grandes departamentos de pesquisa, um instituto de estudos para o meio ambiente em parceria com o governo italiano e diversos outros projetos.

O que o governo quer dizer quando afirma que quer uma sociedade mais harmônica?
Li:
Isso quer dizer mitigar a tensão social para deixar um número maior de pessoas aproveitarem os benefícios do crescimento econômico.

Muitos economistas e analistas internacionais afirmam que o modelo político-econômico chinês, que mistura governo ditatorial, capitalismo e socialismo, não vai durar. O que o sr. acha disso?
Li:
A China está mudando, se tornando uma sofisticada economia de mercado. A economia chinesa está se tornando mais complexa e sofisticada. Tem de ser uma mistura apropriada de propriedade do governo e propriedade privada. Tem de ser um balanço das duas forças, ou seja, um modelo de intervenção do governo com forças do mercado. Isso é o que estamos evoluindo para nos tornar. Como por exemplo, nosso mercado imobiliário. Costumávamos depender apenas das forças do mercado e os preços foram ficando inatingíveis para as pessoas. Agora, o governo quer fazer uma mistura e controlar um pouco os preços. Então a China está mudando. Ainda não há ainda um modelo chinês pronto, mas estamos melhorando e evoluindo.

Mas o sr. acredita que este manter essas duas forças – do governo e do mercado – é o melhor modelo para a China?
Li:
Este é o único jeito de andarmos para frente. Se é o melhor, se a China vai ter sucesso ou não, não está muito claro. Temos esperanças, estou confiante e otimista, mas ainda não há resposta porque ninguém tentou antes dessa forma.

O governo chinês afirma que vai elevar os salários nos próximos anos. Em sua opinião, a que ritmo isso deve acontecer?
Li:
O governo quer elevar salários, mas o salário dos trabalhadores braçais, dos operários, não está crescendo na mesma velocidade do Produto Interno Bruto (PIB) nominal por causa das forças do mercado.

As empresas não querem elevar os salários para não perder competitividade, é isso?
Li:
Não é o desejo das empresas verem os salários crescerem, de fato. Mas a força do mercado está puxando os salários para cima. Então, as empresas terão de pagar salários mais altos. Hoje, muitas estão tendo margens de lucro muito grandes, o que pode ser usado para promover o aumento dos salários. Além disso, a produtividade tem crescido na China nos últimos anos. É outra fonte para absorver os aumentos dos salários.

O governo está dando subsídios para as empresas estatais e privadas elevarem os salários?
Li:
O governo com certeza tem seus objetivos, mas não acho que há uma pressão tangível sobre as empresas.

Qual sua maior preocupação com a China, hoje?
Li:
A tensão social. A economia vem crescendo rápido demais e, consequentemente, a má distribuição de renda, somada ao alto número de recém-formados que procuram emprego qualificado. Isso provoca tensão social.

Você pode dar exemplos dessa tensão social?
Li:
Na internet, por exemplo, jovens reclamam da inflação, de políticas do governo, da corrupção. Tudo isso reflete certo descontentamento com suas carreiras e suas vidas. Estão preocupados com suas rendas, com a alta dos preços. Em muitos sites chineses, vemos muitas reclamações. Isso é sinal de tensão social.

A política de um só filho não é tão restrita como antes. Isso tem uma relação com o objetivo de incentivar o consumo doméstico?
Li:
A princípio, a política duraria 30 anos, a partir de 1978, e dizia que se um casal é formado por duas pessoas que são filhos únicos, eles podem ter dois filhos. Mas quem tem irmãos não pode. Mas essa política está evoluindo. Ajuda a controlar o crescimento populacional, mas, independente disso, as pessoas já estão começando a consumir mais.

Qual lição o Brasil deveria aprender com a China?
Li:
Em primeiro lugar, a educação. Com uma boa educação básica, você consegue desenvolver o setor industrial e também o de serviços. Em segundo lugar, colocaria grande ênfase em políticas macroprudenciais, corte de déficits comerciais e fiscais e controle de inflação.

E o que a China tem a aprender com o Brasil?
Li:
As políticas sociais. O ex-presidente Lula fez muitas políticas e vocês têm programas mais bem sucedidos do que outros países.

O que o sr. acha das críticas brasileiras à taxa de câmbio chinesa?
Li:
Investimentos estrangeiros, em geral, podem trazer força para a economia, podem trazer novos modelos de negócios e práticas. Então, o Brasil não deve só focar em taxas de câmbio. Ao invés disso, deveria focar em medidas para atrair investimentos produtivos e aumentar suas exportações de valor agregado. As exportações da China ao Brasil estão crescendo e o setor industrial brasileiro parece estar sofrendo com a moeda da China, mas só parece. A moeda chinesa não estava depreciada até 1994, mas mesmo antes disso já éramos muito competitivos no setor industrial. Eu sinceramente tenho esperança de que os governantes brasileiros foquem mais em investimentos produtivos e educação.