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Para Peter Mandelson, injeção de capital feita pelo BCE foi essencial para que sistema bancário europeu não corresse risco de entrar em colapso

Mandelson diz que sem injeção de liquidez, sistema bancário europeu corria riscos
Getty Images
Mandelson diz que sem injeção de liquidez, sistema bancário europeu corria riscos
O controverso ex-ministro britânico da Indústria e do Comércio do governo Tony Blair e ex-comissário de Comércio da União Europeia, Peter Mandelson, fez coro com a chanceler alemã Angela Merkel e criticou, ainda que indiretamente, as medidas protecionistas adotadas pelo Brasil na tentativa de conter a valorização do real frente ao dólar.

“Medidas protecionistas não são a solução. Acreditar que só o mercado interno pode resolver tudo, sem se abrir para o mundo, não me parece ser a coisa mais sensata a se fazer, e o Brasil sabe disso por experiência própria”, afirmou Mandelson.

Político aposentado, segundo ele próprio, e integrante da consultoria de investimentos financeiros Lazard e da Casa dos Lordes britância, Mandelson veio ao Brasil para dar uma palestra sobre a crise europeia nesta terça-feira, a convite do Centro de Estudos Americanos da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).

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Acompanhado na mesa pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, pelo o ex-ministro da Fazenda, embaixador Rubens Ricúpero, e pelo embaixador Sérgio Amaral, também ex-ministro da Indústria e Comércio nos anos FHC, Peter Mandelson reconheceu que as volumosas injeções de capital feitas pelo Banco Central Europeu (BCE) colocam ainda mais pressão sobre as já valorizadas moedas dos países emergentes, como o Brasil. “Entendo as preocupações do Brasil e sou até simpático à posição da presidente Dilma Rousseff”.

Desde o final de dezembro, o BCE já concedeu empréstimos a juros inferiores a 2% ao ano aos bancos europeus de mais de 1 trilhão de euros. Ao longo dos últimos três anos, os bancos europeus já injetaram na economia quase quatro vezes o valor do PIB brasileiro , que fechou hoje em R$ 4,1 trilhões . No entanto, Mandelson entende que sem a maciça injeção de liquidez, todo o sistema econômico europeu corria risco de naufragar.

“Por isso acho que é preciso compreender que se o Banco Central Europeu não agisse estaríamos colocando o nosso sistema bancário em grande risco”, diz ele. “E tenho certeza que um colapso econômico da União Europeia teria um efeito muito pior para o Brasil do que a valorização da moeda”, afirmou.

Peter Mandelson foi figura chave no renascimento do Partido Trabalhista britânico, que culminou com a vitória de Tony Blair em 1997, ao derrotar por grande vantagem de votos o então o sucessor de Margareth Thatcher, John Major. Em 1998 ele assumiu o ministério da Indústria e Comércio, mas logo teve que deixar o governo por conta de acusações que envolviam empréstimos suspeitos junto a um milionário britânico.

Em 1999 voltou ao governo Blair como ministro da Irlanda do Norte, mas novamente deixou o cargo sob acusações de uso indevido da função. Após deixar o governo de Tony Blair de forma definitiva foi Comissário de Comércio da União Europeia por quatro anos, para então assumir um posto no gabinete de Gordon Brown, o sucessor de Blair. Em meio a tudo isso Mandelson declarou-se homossexual e assumiu um romance de longa data com um brasileiro naturalizado inglês.

Europeu demais para muitos britânicos, Mandelson é um otimista em relação à União Europeia. Para ele, hoje, o grande problema da comunidade não é econômico, mas sim político. “É uma questão delicada, que envolve confiança de alguns, desprendimento de outros e a aceitação de todos de que o modelo atual não funciona mais, precisa ser refeito”.

É o que ele chama de uma Zona do Euro 2, com mais controle sobre a política fiscal dos países membros. “Países periféricos terão que ceder, e a Alemanha terá que aceitar que parte da conta será paga por ela, não é simples”. Apesar das dificuldades, Mandelson acredita que apenas unida a Europa poderá competir em tempos em que as potências econômicas têm dimensões continentais. “Veja, o Brasil já superou a Grã-Bretanha, já é a sexta economia do mundo”.

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