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O novo marco regulatório do setor de petróleo não está afastando petroleiras estrangeiras do Brasil, apesar de haver sinais desse movimento, avalia o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, em entrevista exclusiva à Agência Estado. Segundo ele, o que está ocorrendo é um ajuste de portfólio no mercado internacional.

A americana Devon pôs seus ativos no País à venda e a italiana Eni indicou que pretende reduzir suas atividades por aqui. "Elas não estão deixando o País, mas ajustando seus portfólios internacionais. As empresas estrangeiras estão deixando as bacias com maior risco", disse. "Tenho conversado com muitas empresas de petróleo e o interesse de vir para o Brasil é extraordinário."

Gabrielli comentou o processo de capitalização da estatal, rebatendo críticas de que há pressa em promover a oferta de ações para garantir o aumento da participação da União na companhia antes das eleições presidenciais. Ele rejeitou também as reclamações da indústria paulista no mercado de gás. "É uma loucura um grande consumidor querer contratar gás de 2016 em diante. Eles querem que a Petrobras faça o quê? Resolva os problemas de todos os setores da economia? Não pode."

Apesar de admitir que há interesse em entrar no mercado de distribuição de gás em São Paulo, o executivo evitou comentar se a estatal negocia a compra da Gás Brasiliano. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Depois de alguns meses da apresentação do novo marco regulatório do de petróleo, começam a aparecer petroleiras estrangeiras com interesse em deixar o País. Qual é a sua avaliação dessa situação?

Elas não estão deixando o País, mas ajustando seus portfólios internacionais. Nós, por exemplo, vamos deixar de expandir nosso investimento internacional para nos concentrarmos no projeto do pré-sal. Esse é o nosso ajuste de portfólio. O Brasil tem várias bacias exploratórias, com riscos diferentes. As empresas estrangeiras estão deixando as bacias de maior risco.

O sr. acredita que elas voltem em novos processos licitatórios?

Sim. Claro que depende da situação financeira e do portfólio de cada uma. Eu tenho conversado com muitas empresas de petróleo e o interesse de vir ao Brasil é extraordinário. E não só as parceiras da Petrobras, mas empresas que querem ser.

Pode dar o nome de alguma?

Não, as negociações estão ocorrendo. Mas há várias empresas grandes que não estão no pré-sal, mas estão interessadas em entrar no pré-sal, que têm procurado a Petrobras. E aquelas que têm pequena participação demonstram interesse em aumentar sua parte.

Há uma certa pressa em aprovar os projetos de lei do marco regulatório e da capitalização da Petrobras. Existe a preocupação de que, em uma eventual mudança de governo, haja alteração nos planos da Petrobras?

Não. É impossível uma empresa de petróleo funcionar com um horizonte de quatro anos. O plano estratégico trabalha até 2020. O próximo plano deve ter horizonte até 2030.

Então, é um caminho sem volta.

Não, espera um pouco. Estou falando do plano estratégico. A forma de organização e a prioridade dependem do governo. Não tem dúvida. Só para dar um exemplo: mais de 90% do crescimento da produção da Petrobras nos últimos 11 anos vêm dos campos de Marlim, Jubarte, Roncador e Albacora, descobertos na época do monopólio. Isso porque entre a descoberta e o primeiro óleo demora sete, oito anos. Se você olhar de 2009 a 2015, o pré-sal vai ter pouco impacto no crescimento da produção. O pré-sal atualmente concedido vai ter impacto a partir de 2017. O pré-sal ainda não concedido vai levar sete, oito anos depois da descoberta. Portanto, quanto mais rápido você tiver o marco regulatório, mais o seu horizonte de sete anos à frente se aproxima. Na indústria do petróleo, sete anos podem ser fatais. É muito importante manter o crescimento, incorporar novos barris às reservas. E isso tem duas maneiras: ou você incorpora novos campos à produção ou faz com que os campos atuais produzam mais. As duas coisas precisam de tempo.

Com os recursos que a Petrobras tem é possível manter os investimentos para as áreas do pré-sal já concedidas sem a capitalização?

A capitalização é muito importante para fortalecer a estrutura de capital da Petrobras, sem dúvida. Hoje a Petrobras tem um plano de investimento de US$ 174 bilhões para cinco anos, que vai aumentar. Quanto, eu não sei ainda. Mas, com certeza é maior; US$ 174 bilhões em cinco anos significa que é preciso investir de US$ 34 bilhões a US$ 35 bilhões por ano. A companhia não é capaz de gerar caixa livre para fazer esse investimento. Você tem que aumentar dívida. Em 2009, levantamos US$ 31 bilhões de dívida nova. Não é possível fazer isso todo ano, principalmente se você tem uma estrutura de capital em que sua razão dívida/capital próprio aumenta. Então ou você diminui dívida ou aumenta o capital próprio. Como nós vamos ter que continuar investindo...

Mas a geração de caixa também vai aumentar.

A geração de caixa vai aumentar em um horizonte distinto pelo volume. Porque você não está projetando aumento de preço, você trabalha com preços conservadores.

Até o início do debate sobre a capitalização, o discurso era que seria possível manter a alavancagem mesmo com esse plano de US$ 174 bilhões.

E as áreas não concedidas? Como será feito?

O mercado vem questionando a pressa da Petrobras em fazer essa capitalização, pois os investimentos nas áreas não concedidas são de longo prazo e há falta de definição do preço dos barris de petróleo que farão parte da cessão onerosa. Por que não esperar 12 meses ou 24 meses para fazer essa capitalização, já que esses investimentos de US$ 174 bilhões já estariam garantidos, de acordo com o discurso anterior?

Por duas razões simples. Porque o barco não para, os investimentos continuam. Isso significa que, quanto mais saudável for a relação dívida/capital próprio, mais condições você terá de captar novos recursos, em condições melhores, a custos menores. Do ponto de vista puramente financeiro, tem lógica aumentar o capital se você tem investimentos crescentes. O problema da reavaliação do valor da cessão onerosa, da forma que está estruturada, ocorrerá em um determinado período fixo. Portanto, será perfeitamente precificável no início da operação, que será feita separadamente da operação de capitalização.

A cessão onerosa dá suporte à capitalização?

Dá suporte em termos de sinalizar tamanho. Mas não tem nenhuma relação direta entre uma coisa e outra. Pode ser maior, pode ser menor do que a operação de cessão onerosa, que é uma operação comercial.

Mas é um dos fatores que definirão o valor da capitalização?

Ela sinaliza o tamanho, mas não determina. O tamanho vai depender exatamente da avaliação que a Petrobras fará das condições de o mercado capitalizar a Petrobras. São duas coisas diferentes. Evidentemente - e a preocupação do mercado tem, a meu ver, essa origem - é a capacidade do mercado de subscrever. Esse é o problema.

Aí vem o questionamento: essa pressa toda não é para garantir o aumento da participação da União na Petrobrás?

Não. Acho que pode acontecer, mas esse não é o objetivo. Se o mercado subscrever, não acontecerá. Eu acho que é uma visão um pouco ideológica. Se aumentar a participação da União porque ela colocou mais recursos, qual o problema? Só porque é Governo? A operação que está sendo proposta dá todos os direitos a todos os acionistas.

Então o sr. acha que essa avaliação de que há pressa está equivocada?

Essa ideia de precipitação é de quem não entende da indústria do petróleo e entende de finanças. Em finanças você pode fazer a operação a qualquer momento, é indiferente o tempo. Na indústria do petróleo, tem um tempo de investimento e ele é físico, não tem como. A gravidez é um fato real.

Por que, então, não autorizar que os minoritários utilizem os recursos do FGTS para subscrever?

O FGTS é uma moeda pertencente a um fundo para garantia do futuro que, no passado, o governo permitiu que os trabalhadores usassem para aplicar em um ativo de risco, que são ações. Se o Governo renova essa autorização para os mesmos que optaram naquela época, estará aprofundando a diferença entre os que fizeram aquela opção, naquele momento, e os que não fizeram a opção naquele momento. Você está usando o mesmo recurso para aprofundar uma diferença.

A Petrobras já tem um valor aproximado, um número mágico para essa capitalização?

Não tem número nenhum, não tem mágica nisso. Aí você tem que saber onde vai se produzir, e a perfuração está começando. Vai depender do resultado da perfuração, da projeção de produção que virá dessa produção, dos custos estimados para esse investimento e da variação de receita. Então é impossível dizer qualquer número. É chute.

O que, de fato, falta para fechar essa equação é a questão da cessão onerosa, não é? Porque vocês já devem saber o valor dos investimentos que vão precisar.

Não sabemos o valor dos investimentos fora do pré-sal concedido. Não tem como, é uma área desconhecida. Você mal e porcamente tem sísmica. Não tem perfuração nenhuma fora do pré-sal concedido. Só tem furo em áreas concedidas.


Esse trabalho vai correr de forma a possibilitar a capitalização até o final do primeiro semestre?

Sim, é a cessão onerosa. Vamos localizar áreas onde podem ser produzidos cinco bilhões de barris. Lembre que hoje as nossas reservas são de 14 bilhões. Os recursos identificados como potencial produção são de 10 bilhões a 16 bilhões de barris em Tupi, Iara, Guará e Parque das Baleias. Agora, nos campos de Caramba, Carioca e Bem-Te-Vi, não se sabe qual o volume. E das áreas não concedidas, ninguém sabe nada.

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