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Para brasileira chefe de Economia Criativa na Conferência da ONU, Copa e a Olimpíada podem trazer nova dinâmica do desenvolvimento

O Brasil tem rica herança cultural, somos um povo multirracial, esbanjamos talento e alegria de viver, e, sobretudo, somos um país emergente com  certa educação, diz Edna
Divulgação/ Luiz Perez Riotur
O Brasil tem rica herança cultural, somos um povo multirracial, esbanjamos talento e alegria de viver, e, sobretudo, somos um país emergente com certa educação, diz Edna
Se o Brasil possui criatividade suficiente para estar entre os países que mais lucram com suas ideias, uma justiça já foi feita. O posto mais alto do programa de Economia e Indústrias Criativas da Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) é ocupado por uma brasileira: Edna dos Santos-Duisenberg.

Veja, a seguir, a entrevista que ela concedeu ao iG , por email, da Suíça.

i G: Como a senhora vê o florescimento de uma política específica destinada à Economia Criativa no seu país?
Edna dos Santos-Duisenberg:
Excelente ver que finalmente o Brasil percebeu a importância de articular uma sólida estratégia a fim de melhor se beneficiar da economia criativa para promover um desenvolvimento mais inclusivo e sustentável no País. Desde 2004 quando a UNCTAD introduziu o tema da economia criativa na agenda econômica de desenvolvimento, começamos a trabalhar com o governo brasileiro no sentido de sensibilizar não só os diversos ministérios e instituições do setor público e privado, mas também os artistas, a comunidade criativa e a opinião publica sobre o potencial da economia criativa para geração de empregos, comércio e inovação. No trabalho pioneiro desenvolvido pela UNCTAD durante a última década, enfatizamos a contribuição da economia criativa para diversificar a economia dos países em desenvolvimento e também por ser um elo que facilita inclusão social, diversidade cultural e um modelo de desenvolvimento mais holístico e condizente com a sociedade contemporânea. No século XXI, precisamos perceber e por em pratica políticas interministeriais que vinculem de forma mais efetiva a interface entre a economia, a cultura, a tecnologia, assim como as questões sociais e ambientais – e é nesse contexto que enquadramos a dimensão de desenvolvimento da economia criativa.

iG: Na sua análise sobre o desenvolvimento da economia criativa no mundo, em qual estágio a senhora vê o Brasil e qual o nosso potencial?
Edna:
O brasileiro sempre foi muito criativo, principalmente porque precisamos encontrar soluções para os diversos desafios que enfrentamos a cada dia. Temos uma rica herança cultural, somos um povo multirracial, esbanjamos talento e alegria de viver, e, sobretudo, somos um país emergente com certo grau de educação e um quadro institucional e regulatório bem definido – enfim, todos esses fatores contribuem para a formação do capital intelectual do País e estimulam a criatividade não só no campo artístico e cultural, mas também nos negócios, na ciência e nos setores de ponta da economia. Porém, a economia criativa no Brasil e na America Latina como um todo continua sendo subutilizada. Estudos da UNCTAD comprovam que as indústrias criativas são um dos setores mais dinâmicos da economia mundial e o Brasil tem todos os atributos para ter um papel mais determinante no mercado mundial de produtos e serviços criativos, ao mesmo tempo promovendo cultura e educação.

iG: E, nesse cenário, como está o Brasil frente aos demais países emergentes?
Edna:
Pesquisa da UNCTAD indica que o Brasil exportou US$, 1,2 bilhões de bens criativos em 2008, aumento considerável se comparado as receitas de 2002 que foram de US$ 740 milhões. Porém, se tomarmos em conta o vasto potencial de capacidade criativa do país, o Brasil ainda tem participação muito tímida no mercado mundial. Pois a China, esta dominando o setor e exportou US$ 84,8 bilhões em 2008, apesar da recessão econômica resultante da crise financeira mundial. O Brasil está melhor posicionado na área de serviços criativos, com exportações de US$ 6,3 bilhões nas áreas de serviços de arquitetura, audiovisuais, publicidade, serviços culturais e de recreação, etc. Mas, ainda assim, precisamos reforçar a competitividade de nossos produtos criativos: música, cinema, moda, design, artesanato, novas mídias, entre outros. Talvez a grande diferença, é que enquanto o Brasil pensa, a China faz.

o Brasil é muito mais que futebol e carnaval, mas esses dois eventos (esportivos) oferecem uma oportunidade extraordinária para alavancarmos o desenvolvimento no País e projetarmos uma nova imagem.

iG: O que a senhora vê como possíveis potenciais legados na área de economia criativa para o Brasil com a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016?
Edna:
Sem dúvida, o Brasil é muito mais que futebol e carnaval, mas esses dois eventos oferecem uma oportunidade extraordinária para alavancarmos o desenvolvimento no País e projetarmos uma nova imagem, de um País vibrante e dinâmico. Um país que está buscando novas opções de crescimento, tendo em conta suas próprias potencialidades, limitações e realidades. Precisamos explorar todos os vínculos a nível macro e micro da economia, para estimular negócios nas diversas áreas, vinculando cultura, turismo, conectividade e serviços em geral. A economia criativa engloba uma série de setores, desde os mais tradicionais como o artesanato, as festas populares e as artes em geral, mas também setores mais intensivos em tecnologia e serviços como a mídia, design e novas mídias. Portanto, precisamos colocar o "nexus criativo" em pratica a fim de atrair investidores, tecnologia, empreendedorismo e comércio tanto em nível nacional como internacional. Para tal, precisamos de ações mais ousadas e uma visão estratégica mais voltada para o futuro. Precisamos otimizar este "momentum" e usar a Copa e a Olimpiada para um efeito multiplicador na criação de uma nova dinâmica de desenvolvimento e inovação no pais.

iG: Qual a importância da economia criativa que a senhora vê em relação à economia tradicional no futuro, daqui 10 ou 20 anos?
Edna:
Estamos na era da economia criativa em que, através do conhecimento, da educação e da tecnologia, transformamos ideias em produtos ou serviços. E a partir dai criamos novas oportunidades de empregos, estudos e lazer. O estilo de vida da sociedade atual está cada vez mais associado a estilos, marcas e diferenciação. A globalização e a conectividade são realidades que transformaram o nosso dia-a-dia, pois vivemos cercados de sons, imagens e símbolos. A revolução digital, a internet, os telefones portáteis, as redes sociais fazem parte do nosso quotidiano. Portanto, estamos vivendo uma fase de transição de um modelo tradicional para esquemas mais flexíveis, participativos e que requerem parcerias em todos os níveis e articulações políticas, desde o comunitário, municipal, estadual até o âmbito federal. Certamente a Humanidade continuará a depender da agricultura, das manufaturas e dos serviços básicos, mas tudo no contexto de uma economia mais verde e com alternativas mais criativas a todos os níveis. Evidentemente, não haverá uma ruptura drástica com a estrutura da economia tradicional, mas o Brasil tem muito mais a oferecer, tanto à sua própria população como ao mundo, do que café, suco de laranja e minério de ferro.

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