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Os seis membros mais antigos da Leader batem ponto diariamente na sala dos sócios fundadores

Enquanto em muitas empresas os acionistas brigam por poder, na rede de lojas de departamentos que mais cresce no País os sócios jogam sinuca e se ajudam nas palavras cruzadas. Religiosamente depois do almoço, os fundadores da Leader encaram uma boa partida na mesa de sinuca colocada estrategicamente no refeitório, a poucos metros da sala do Conselho de Administração, no quinto andar da sede da empresa, em Niterói (RJ).

O fundador da Leader Magazine, Newton Gouvêa, ladeado pelos irmãos Dirceu e Laênio.
Isabela Kassow
O fundador da Leader Magazine, Newton Gouvêa, ladeado pelos irmãos Dirceu e Laênio.
Hoje eles já não fazem parte do conselho, mas se reúnem diariamente na sala do dos sócios fundadores, onde a idade média supera os 80 anos. Não há computador. Revistas de palavras cruzadas dividem espaço com jornais e publicações do setor varejista.

Entre irmãos, cunhados e “um que não é nada”, os seis velhinhos que ergueram a Leader e ainda frequentam a empresa se divertem no ambiente de trabalho. Mas também provam, com aumento de 17% nas vendas e faturamento anual de R$ 1 bilhão, que continuam atentos aos passos da companhia, 60 anos após sua fundação.

Os amigos relatam a trajetória da Leader, iniciada por Newton Fernandes Gouvêa, de 86 anos. Filho de ferroviário, o adolescente começou a vida, junto com os irmãos, vendendo doces caseiros da mãe e empilhando toras de madeira para fazer lenha na estação de trem perto de sua casa, em Palmas, na Zona da Mata de Minas Gerais. Leia mais sobre a trajetória da Leader .

Revistas de palavras cruzadas entre revistas e jornais na sala dos sócios fundadores
Isabela Kassow
Revistas de palavras cruzadas entre revistas e jornais na sala dos sócios fundadores
Em meio às tantas histórias que marcaram a construção da rede de 53 lojas, os donos contam, orgulhosos, que nunca houve rivalidade entre eles – exceto na hora do jogo. Ao longo dos primeiros anos em que atuou no comércio, Newton decidiu que não prosperaria sozinho: chamou irmãos, cunhados e um tio para erguer o império que fatura hoje um bilhão de reais anualmente. Quem o acompanhou demonstra admiração e gratidão.

Bola escondida

“Ele foi de uma coragem ao levar com ele dois cunhados, três irmãos, um tio, e um que não é nada, era faxineiro (rindo). São 60 anos de convivência e 60 anos de harmonia. Tudo o que ele falava a gente dizia sim, porque dava certo. Nunca houve desavença entre nós”, conta o irmão mais velho Dirceu Gouvêa, acionista de 88 anos. Mas o Newton tem um defeito: ele não me respeita como mais velho. Esconde a bola da vez e não me deixa jogar”, conta Dirceu.

O presidente da Leader, Robson Gouvêa, beija o pai
Isabela Kassow
O presidente da Leader, Robson Gouvêa, beija o pai

Durante a conversa, o presidente da Leader, Robson Gouvêa, filho de Newton, entra na sala e dá um beijo no pai. Laênio Gouvêa, o primeiro irmão, se emociona com a cena. “É sempre assim. Todos os filhos e sobrinhos fazem isso aqui, beijam a gente. Nossa família é isso”, diz, com os olhos cheios d'água. “A Leader se profissionalizou mas não perdeu esse caráter de família”, acrescenta.

Cabelo em pé

Pelo menos uma vez por semana, os principais executivos da Leader se juntam à primeira geração da empresa, na sala dos sócios fundadores ou no refeitório perto do Conselho de Administração. Eles almoçam e jogam uma sinuquinha.

“Trabalhar numa empresa onde o Conselho de administração é tão presente poderia ser um tremendo estresse, normalmente seria motivo de muita tensão. Mas o clima deles é tão bom que faz bem para a empresa, sem dúvida”, afirma Fernando Labanca, vice-presidente. O executivo tem metas ambiciosas para o grupo, que deixam os donos da empresa de “cabelo em pé”.

“A segunda geração está fazendo um ótimo trabalho. Multiplicaram o que começamos, mas agora é mais fácil porque tem capital. Antes não tinha nada; viemos do zero quilômetro”, afirma Laênio, o mais falante dos irmãos. “Essas metas deles nos deixam de cabelo em pé”.

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