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Participação da PDVSA em Abreu e Lima exigiria unidade à parte de US$ 400 milhões

A Petrobras já se conformou com um provável calote da petroleira de Hugo Chávez na Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Concebida como um projeto binacional entre Brasil e Venezuela, anunciada com pompa e circunstância pelos dois governos em 2007, a planta está sendo erguida a pleno vapor com cerca de 35% das obras prontas. Mas a sócia Petróleos de Venezuela (PDVSA), até agora,  nada de pagar sua parte no empreendimento.

Se até agosto não realizar o pagamento, a empresa de Chávez ficará definitivamente fora do projeto. Até lá, terá se esgotado o empréstimo concedido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), de quase R$ 10 bilhões, para a construção da refinaria, e os donos do empreendimento terão de desembolsar recursos próprios. A PDVSA terá de desembolsar 40% do valor do financiamento do BNDES se quiser ficar no projeto.

Pelo menos três fontes revelam ao iG que a direção da Petrobras até torce para a PDVSA não entrar no projeto. Isso porque o projeto original, com a PDVSA como sócia, prevê o processamento de petróleo venezuelano, pesado demais para ser transformado em combustível junto com o óleo brasileiro, de melhor qualidade. Além disso, o petróleo da Venezuela possui quantidade muito grande de enxofre, que exige a construção de uma unidade a parte, avaliada em cerca de US$ 400 milhões, somente para retirar a substância.

Obras na Refinaria Abreu e Lima
Eudes Santana/Divulgação
Obras na Refinaria Abreu e Lima

Em visita às obras nesta segunda-feira, o presidente da Refinaria Abreu Lima, Marcelino Guedes Gomes, apresentou o projeto para jornalistas. Na apresentação, ele não incluiu a unidade de tratamento de enxofre, que é condição para a entrada da PDVSA na refinaria.

Indagado sobre se a empresa venezuelana já foi retirada do projeto - a ponto de apresentarem um projeto diferente do original -, o diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, confirmou como o sócio está longe: "A PDVSA não está fora mas também não está dentro", respondeu.

Além da questão do óleo cheio de enxofre, outra dor de cabeça é a questão da comercialização dos combustíveis, que tem de ser realizada totalmente no País, segundo exige a Agência Nacional do Petróleo (ANP). A PDVSA, segundo o diretor, queria inicialmente exportar parte da produção, mas foi proibida pela reguladora. "Eles (PDVSA) não têm que concordar, têm que cumprir".

A Refinaria Abreu e Lima está em construção no Complexo Industrial Portuário de Suape, Pernambuco, com investimento previsto de US$ 13,36 bilhões. Com entrada em operação prevista para dezembro de 2012, processará 230 mil barris de petróleo pesado/dia, cerca de 11% da capacidade atual de refino de petróleo no Brasil. O projeto prevê a produção de diesel com baixo teor de enxofre (cerca de 70% do volume de petróleo a ser processado pela Refinaria), gás liquefeito de petróleo (GLP), nafta petroquímica e coque. Para implantação do projeto, há previsão de geração de 107 mil empregos (diretos, indiretos e por efeito renda).

Investimento previsto de US$ 13,3 bilhões para processar 230 mil barris de óleo por dia
Eudes Santana/Divulgação
Investimento previsto de US$ 13,3 bilhões para processar 230 mil barris de óleo por dia

O projeto original estima a participação acionária na empresa de 60% para a Petrobras e 40% para a PDVSA, sendo operada com pessoal de ambas as empresas. Metade da capacidade da refinaria seria destinada para processar petróleo do bloco Carabobo 1, na faixa petrolífera do Orinoco, na Venezuela. Sem a a participação da PDVSA, a produção e a comercialização será 100% voltada para o mercado brasileiro. A Petrobras não descarta tentar outro sócio para o empreendimento, mas a possibilidade é remota, segundo fontes.