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Bactéria é usada para aproveitamento de rejeitos; alternativa é mais barata que a tradicional, que utiliza ácido sulfúrico

Uma pesquisa realizada na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) desenvolveu uma nova técnica para a extração de metais que acabam sendo descartados depois que esses minerais são retirados do solo. A química Nury Alexandra Muñoz Blandon utilizou bactérias no processo, que deu bons resultados em laboratório. A aplicação já está disponível para as mineradoras, mas ainda não foi adotada de forma comercial.

No mercado, já existem alternativas para a extração dos minerais descartados, que acabam acumulados em barreiras de rejeitos. A vantagem da nova técnica é o custo: atualmente, as mineradoras acabam abrindo mão da extração do minério presente nos rejeitos porque a relação custo-benefício acaba não sendo compensadora. Com as bactérias, a extração já vale a pena. A novidade da pesquisadora da Unesp também reduz o impacto ambiental, já que não há uso de produtos químicos na técnica.

Barreira de rejeitos: bactéria retira até 90% dos metais, e com baixo custo
Getty Images
Barreira de rejeitos: bactéria retira até 90% dos metais, e com baixo custo
Como funciona o processo

As bactérias separam o que realmente é rejeito (como terra e pedras) do que é mineral aproveitável comercialmente. Nos testes, a bactéria fez essa separação (com eficácia de 50%) durante duas semanas com material extraído por meio de um processo conhecido como flotação (técnica em que o minério é mergulhado em um líquido e associado a espumas de gases, que grudam no minério e fazem a separação).

O processo gera resíduos, e é sobre eles que as bactérias vão agir. Os microorganismos (foi usada a bactéria Acidithiobacillus ferrooxidans lr) são depositados sobre os rejeitos, fornecidos pela Votorantim para a pesquisa. Naturalmente, eles produzem ácido sulfúrico. Com isso, o ambiente fica mais propício para a oxidação do minério. É nessa etapa que fica possível separar o metal aproveitável do que realmente é resíduo.

A nova técnica mostrou-se eficiente na separação de cobalto, níquel e cobre - os três metais que foram usados nos testes da pesquisadora. Na extração de níquel, a separação com as bactérias liberou o dobro do material obtido com as técnicas mais tradicionais, que usam produtos químicos (caras e de difícil aplicação). “Em apenas 14 dias, conseguimos retirar 50% do metal presente no resíduo. Em 50 dias tiraríamos certamente 90%”, diz Nury.

Apesar de a quantidade de metais presente nos resíduos ser pequena, é importante fazer o máximo de extração, já que isso evita danos ambientais e perdas econômicas. Dos minerais escolhidos para a pesquisa, puderam ser encontrados nos rejeitos, em média, 0,3% de cobre, 0,4% de níquel e 0,2% de cobalto. Segundo Nury, a técnica poderá ser ampliada também para outros metais.

Um microorganismo poderoso

As bactérias são usadas em países como Estados Unidos e Austrália para extrair minérios altamente concentrados e em menor quantidade para resíduos – a bactéria usada na pesquisa de Nury tem aplicação mais específica do que no exterior. No Brasil, a maioria dos rejeitos não tem seus metais reaproveitados.

“O microorganismo utilizado no estudo tem muito potencial. Não é qualquer um que tem a mesma aplicação. No exterior são usadas bactérias da mesma família”, diz Denise Bevilaqua, co-orientadora do estudo e pesquisadora do Instituto de Química da Unesp.

Embora a técnica ainda não seja utilizada no País, os benefícios são grandes. Ela pode, assim, ser uma alternativa para as empresas do setor. “A extração com as bactérias é viável e pode reduzir em até 50% os custos. É melhor porque não usa materiais danosos ao ambiente e necessita de poucos insumos”, diz Luiz Sobral, chefe do Serviço de Processos Minero-Metalúrgicos e Biotecnológicos do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem).

Trabalhador em mina de cobre: testes foram feitos também em resíduos da extração do metal
Bloomberg via Getty Images/Bloomberg
Trabalhador em mina de cobre: testes foram feitos também em resíduos da extração do metal
Produção no Brasil

Extrair metais de resíduos é uma possibilidade, ainda que em pequeno porte, para as empresas aumentarem sua produção. Segundo dados do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), referentes a 2008, o País registrou uma produção de 1.215 toneladas de cobalto, o que representa 1,6% da produção mundial. O material é um importante componente de ligas metálicas para hélices de turbinas de aviões e ferramentas de corte. Os maiores produtores mundiais são Congo, com 40,8% do total, e Canadá, com 11,3%.

Ainda de acordo com os dados do DNPM, a produção de níquel no Brasil foi de 67,1 mil toneladas, ou 4,2% do total mundial naquele ano. Seu uso é comum em baterias, equipamentos bélicos, espaciais e eletrônicos, produtos químicos e materiais de construção. O mesmo estudo revelou que aproximadamente 37,8% das reservas brasileiras estão concentradas em Goiás.

O cobre é um metal utilizado principalmente para a fabricação de condutores elétricos (fios e cabos) e em ligas metálicas.

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