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O consumo de minério de ferro no mundo, cerca de 1,6 bilhão de toneladas por ano, deve chegar a 2,2 bilhões em uma década, ainda puxado pela locomotiva chinesa

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O consumo de minério de ferro no mundo, cerca de 1,6 bilhão de toneladas por ano, deve chegar a 2,2 bilhões em uma década, ainda puxado pela locomotiva chinesa. A previsão, chancelada pelo diretor de Marketing, Vendas e Estratégia da Vale, José Carlos Martins, justifica os investimentos recordes da mineradora para elevar e diversificar a produção, já que o minério de ferro é apenas o destaque mais evidente do “boom” mundial das commodities metálicas. Segunda maior mineradora do mundo, a Vale prevê que o setor mineral invista US$ 1 trilhão ao longo dos próximos cinco anos, sendo que 25% desse total, ou US$ 200 bilhões, vão somente para o segmento de minério de ferro, liderado pela companhia brasileira. As vendas aquecidas e as projeções favoráveis desmentem previsões sobre o “estouro da bolha chinesa”, que circulam no mercado desde o início dos anos 2000. “Estamos vivendo um fenômeno de urbanização global. Tem foco na China, mas está ocorrendo em uma escala global. O ciclo é longo - mais do que consigo enxergar. Estão falando de um superciclo. Às vezes, chego a pensar em 'forever cycle' (ciclo para sempre). Acho que estamos vivendo fenômeno semelhante à revolução industrial.” O otimismo se ancora na China, que se firmou como a segunda maior economia mundial, mantendo a maior taxa de poupança doméstica do mundo, de mais de 40% do PIB, de acordo com os dados mais recentes do Fundo Monetário Internacional (FMI). Martins lembra que a população chinesa ainda é essencialmente rural e o país ainda ruma para a urbanização. O executivo explica que a demanda mundial está crescendo mais rápido que a oferta por causa, principalmente, da migração populacional do campo para a cidade nos países asiáticos. “O negócio é tão simples que gera um certo ceticismo. Por isso, digo que estamos vivendo uma revolução urbanizacional”, comentou. O incremento da construção civil puxa a demanda por minério e aço. “A necessidade de investimento nessa área mineral nos próximos cinco anos não é abaixo de US$ 1 trilhão”, afirma. Gestão Executivo responsável por coordenar as relações entre a companhia e seus clientes, José Carlos Martins chegou a ser bem cotado para substituir Roger Agnelli, que deixou a Vale no mês passado, depois de dez anos na presidência da mineradora. Sob nova direção, ele permanece como um dos principais executivos da diretoria de Murilo Ferreira, com quem já havia trabalhado na época de Agnelli. Martins descarta novas mudanças na empresa e elogia a indicação de Ferreira. “Ele tem um perfil completamente diferente do Roger. Mas, provavelmente, era isso que os acionistas estavam procurando. Não estou falando nem melhor, nem pior, apenas diferente. Mais ‘low profile’ (despercebido). Ele é muito sensato, tem bom senso”, afirma. O executivo também desmente, bem-humorado, rumores sobre uma eventual aposentadoria. “A melhor coisa do mundo é ser presidente da Vale. A segunda melhor coisa do mundo é ser diretor da Vale”, brinca, entre risos. Martins, que viaja para ¿?sia pelo menos quatro vezes por ano, é categórico ao afirmar que a única coisa que poderia interromper o atual ciclo de demanda por matérias-primas seria uma parada no processo de urbanização na região. Mas ele alerta para um perigo que pode rondar o setor no futuro: a produção ficar muito abaixo da demanda. Nesse caso, explica, o preço se descola tanto que inviabiliza novos investimentos, pois poucos compradores conseguiriam pagar o preço exigido. “Se, em algum momento, a oferta não conseguir avançar, você vai ter o que os economistas chamam de ‘fly up’, que são os preços decolando. Não vai ter nada a ver com o custo”, explicou. Para evitar esse quadro, ressalta Martins, as companhias vêm ampliando seus investimentos em aumento de capacidade. “Não temos alternativas. O mundo não tem alternativas”, prevê. E completa: “ Porque o preço sobe? Porque a oferta não está acompanhando a demanda na mesma velocidade. O mecanismo de preço tem duas vertentes. A primeira é atrair investimento, a segunda é cortar demanda.” O executivo vê com ceticismo a constatação de que hoje existe um excedente mundial de aço, estimado em 600 milhões de toneladas. Para ele, essa sobreoferta “é mais teórica do que prática”. Ele volta citar a China que, este ano, deve produzir 700 milhões de toneladas de aço. “Deve consumir 650 milhões e exportar 50 milhões de toneladas. É só 6% da produção chinesa. Mas para o mundo é uma pancada. Então, isso aí assusta”, diz, lembrando que o excedente de aço hoje vem basicamente da Europa e dos Estados Unidos, a preços que não são competitivos.

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