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Inspirados pelas famílias, motoristas abraçam a profissão, mas enfrentam o custo de ficar meses longes dos parentes

Eloir Sbardelotto, gosto pelas estradas: interesse pelos costumes locais
André Vieira/iG
Eloir Sbardelotto, gosto pelas estradas: interesse pelos costumes locais
“Meu pai é caminhoneiro. Meu tio é caminhoneiro. Meus três irmãos são caminhoneiros. Eu tenho paixão por ser caminhoneiro, mas sou uma exceção: gosto do que faço”, diz Eloir Antonio Sbardelotto, de 28 anos.

Sentado na cabine de um caminhão Mercedes, em um posto de combustível à beira da “Rodovia da Morte”, a Régis Bittencourt, o trecho da BR-116 que liga São Paulo à Curitiba, Sbardelotto tem entusiasmo pela profissão que adotou mesmo antes de completar 18 anos.

Diz que já rodou todo o Brasil. “Caminhoneiro é turista de periferia, conhece todos os lugares onde são feitas as entregas de cargas”, diz. Para completar em seguida: “Eu, não. Gosto de saber os costumes locais e o que se come em cada região”.

Com o primeiro grau completo, Sbardelotto chega a tirar R$ 4 mil nos melhores meses do ano, quando a safra precisa ser escoada pelas estradas e os caminhoneiros costumam dobrar ou triplicar sua remuneração. “Há muito médico que não tira isso”, compara, dizendo que chega passar dia sem dormir para cumprir a entrega de cargas.

Tiago Marciano, de 22 anos: caminhão 13 anos mais velho
André Vieira/iG
Tiago Marciano, de 22 anos: caminhão 13 anos mais velho
De acordo com o sindicato dos caminhoneiros autônomos, o salário médio da categoria varia entre R$ 900 a R$ 1.300.

Há dois anos, Sparbelotto deixou a esposa, sua namoradinha desde a adolescência, para trás, em São Miguel do Oeste, em Santa Catarina, onde nasceu.

No início, ela acompanhava nas viagens de caminhão, mas cansou da vida, de dormir na boléia e tomar banho em posto de gasolina. Pediu para ele deixar a estrada. Ele não quis.

“Sou do mundo”, afirma.

Sonho frustrado

Tiago Marciano dirige um caminhão Mercedes 1113 desde os 18 anos. O veículo foi fabricado em 1976, 13 anos antes de ele nascer.

“Segui a profissão do meu pai, que também tem caminhão”, afirma o jovem de 22 anos, que tentou ser mecânico.

“Mas não deu. Não conseguiu estudar”, antes de fazer uma entrega numa fábrica de produtos de limpeza às margens da Rodovia Raposa Tavares, em Cotia e voltar à  Valinhos, ambos municípios em São Paulo, distantes a 100 quilômetros.

O argentino Damian Molina: ganhos de R$ 6 mil por mês levando cargas da Argentina para o Brasil e vice-versa
André Vieira/iG
O argentino Damian Molina: ganhos de R$ 6 mil por mês levando cargas da Argentina para o Brasil e vice-versa
Entregas internacionais

O argentino Damian Molina, caminhoneiro há 21 dos seus 38 anos, costuma fazer a rota entre a Grande Buenos Aires, onde nasceu, até a Grande São Paulo, “puxando” - como se diz na gíria das estradas – cargas de autopeças, produtos de higiene e limpeza e máquinas.

Com residência em Paso de los Libres, na fronteira da argentina com o Rio Grande do Sul, Molina tem cinco filhos gerados em três casamentos. “É uma profissão muito dura. Ninguém aguenta ficar longe da família. Minhas mulheres já me mandaram embora várias vezes.”

Filho de caminhoneiro, ele dá preferência a correr grandes distâncias. "Para nós (argentinos), é mais fácil transportar cargas internacionais”, conta.

“Como se fica três a quatro dias esperando na fronteira para desembaraçar as mercadorias, a gente costuma ganhar diárias. Já os caminhoneiros brasileiros, não. A maioria ganha uma comissão por frete. Para eles, dia parado é prejuízo.”

Molina diz que na Argentina vive também uma falta de caminhoneiros, mas que as empresas pagam três vezes mais do que no Brasil, algo equivalente a R$ 6 mil por mês.

Ele aponta a organização sindical como um dos fatores que fortalece a profissão na Argentina.

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