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Investimentos para o transporte de passageiros devem ocorrer nos próximos cinco anos e não se limitam ao trem-bala do Sudeste

Quando Prudente de Moraes chegou ao Rio de Janeiro em 2 de novembro de 1894 para tomar posse como o primeiro presidente civil da República, ele chegou de trem. Não havia alma a esperá-lo na estação da Central na então capital do País. Moraes foi ignorado por obra das maquinações do presidente da ocasião, Floriano Peixoto. Mas de nada adiantaram os estratagemas de Floriano, o Marechal Mão de Ferro: Prudente de Moraes assumiu em 15 de novembro o posto para o qual fora eleito.

Prudente de Moraes chegou de trem ao Rio de Janeiro para assumir a presidência da República; Dilma Rousseff não poderia repetir o ato nem se quisesse
Agência Estado
Prudente de Moraes chegou de trem ao Rio de Janeiro para assumir a presidência da República; Dilma Rousseff não poderia repetir o ato nem se quisesse
O episódio, um retrato alegórico do início da vida republicana brasileira, é também um atestado do ocaso do transporte ferroviário de passageiros no País. Se a presidenta Dilma Rousseff quisesse chegar de trem ao Distrito Federal para sua posse, em 1º de janeiro deste ano, não conseguiria nem que, ao contrário do que ocorreu com Prudente de Moraes, lá a aguardasse a mais entusiasmada das claques – fosse o Distrito Federal em Brasília ou no Rio de Janeiro.

A indústria ferroviária crê que o desprezo pelas estradas de ferro arrefeceu. A depender da fonte consultada, a previsão é que, em um intervalo de cinco anos, os aportes para o transporte de pessoas por trens e metrôs sejam de R$ 75 bilhões a mais de R$ 100 bilhões. O setor se apressa, vai depressa, vai na toda, que só leva pouca gente, pouca gente, pouca gente.

A Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (Abifer) prevê para este ano a produção no País de 450 carros para passageiros – número que, se atingido, será recorde para o setor. Em 2010, foram produzidas 430 unidades. Em Veículos Leves sobre Trilhos (os VLTs, modalidade de transporte ferroviário com capacidade menor que a de um metrô convencional e que é a definição técnica mais adequada para o Metrô do Cariri , que liga Crato a Juazeiro do Norte), há 140 encomendas, de acordo com a entidade. Somadas, elas devem movimentar R$ 500 milhões. Há projetos de adoção do VLT em Brasília, Recife, Maceió, Arapiraca (AL), Sobral (CE) e Macaé (RJ).

Também estão aquecidas as encomendas dos monotrilhos, usualmente utilizados para deslocamentos mais curtos. Ainda segundo a Abifer, as encomendas do transporte somam 378 carros, que, apenas em equipamentos, devem movimentar R$ 1,44 bilhão. O Brasil tinha apenas um sistema de monotrilho, localizado em Poços de Caldas (MG), mas o serviço está inativo. No futuro, os carrinhos do monotrilho poderão ser vistos como extensão da linha dois do metrô de São Paulo.

Passageiros que sumiram

“Na década de 60, o Brasil transportava 100 milhões de pessoas por ano em ferrovias interestaduais. Isso se perdeu com o tempo”, diz Vicente Abate, presidente da Abifer. Atualmente, é possível viajar sobre trilhos apenas na Estrada de Ferro Carajás, entre São Luís e Carajás, e na Estrada de Ferro Vitória-Minas, que parte da capital capixaba e vai até a Belo Horizonte. Ambas têm o serviço de transporte de pessoas apenas como um apêndice, já que seu fim primordial é levar carga. Somadas, elas carregam 1,5 milhão de passageiros ao ano. (Para comparação: a previsão é que o trem-bala que ligará Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro terá demanda de 33 milhões de pessoas por ano. Esse projeto deverá custar pelo menos R$ 33 bilhões).

Os novos projetos de transporte ferroviário de pessoas incluem 14 linhas regionais definidas como prioritárias. O plano para essas linhas, que interligam municípios próximos dentro de um mesmo Estado, é reativar estradas de ferro que já existem, mas que foram abandonadas. As ligações entre Londrina e Maringá, no Paraná, e Caxias do Sul e Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, são as que têm sua fase de estudos em estágio mais avançado, afirma Vicente Abate, da Abifer.

“Estamos trabalhando para o resgate do transporte ferroviário”, diz Antonio Chalita de Figueiredo, gerente de controle e tráfego da Companhia Cearense de Transportes Metropolitanos (Metrofor), empresa do governo estadual que administra o Metrô do Cariri. A Metrofor trabalha no projeto do metrô de Fortaleza e dos VLTs de Fortaleza e Sobral. “O trem é um transporte muito barato”, afirma. É, afinal, o transporte do pobre , como cantava o sanfoneiro Jonas de Andrade.