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Plano Decenal de Energia mostra que a construção de grandes hidrelétricas a fio dágua vai alterar a operação do sistema elétrico

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O Plano Decenal de Energia 2011/2020, colocado em consulta pública no início do mês, mostra que a construção de grandes hidrelétricas a fio dágua (sem reservatório) vai alterar a operação do sistema elétrico. De acordo com o planejamento, o sistema Sudeste/Centro-Oeste, por exemplo, que tem grande capacidade de regularização do estoque de água, mudará sua operação com o início do funcionamento de Belo Monte.

As usinas da região terão de economizar água dos reservatórios durante o período chuvoso para atender ao consumo na época em que Belo Monte reduzirá sua produção, na seca. Na avaliação do diretor da PSR Consultoria, José Rosenblatt, esse tipo de operação vai aumentar a chance de verter a água dos reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste, que hoje representam 71% do sistema nacional.

"Além disso, o aumento da geração no período seco significa que os lagos das hidrelétricas provavelmente vão terminar o período seco mais vazios do que hoje", diz o executivo, se referindo a dados do próprio Plano Decenal. Ou seja, a operação do sistema elétrico brasileiro ficará mais complexa a partir de agora e exigirá uma série de manobras para suprir o vácuo das hidrelétricas sem reservatório, nos momentos de seca.

A solução, sugerem especialistas, é ampliar a base térmica na matriz elétrica, o que deixaria o sistema mais robusto e seguro. Muitos deles discordam da estratégia atual, verificada no Plano 2011/2020, de apostar nas fontes alternativas como complemento da matriz. Eles defendem a construção de usinas eólicas e de bioeletricidade apenas como forma de diversificação.

"Mas, para complementar a geração hídrica, a melhor alternativa é a térmica", afirma o diretor da PSR. A explicação dele é que essas energias alternativas também são vulneráveis às condições climáticas. "Se o volume de vento diminuir, a usina eólica vai produzir menos", destaca Rosenblatt.

O mesmo ocorre com a bioeletricidade: se a safra for menor pode haver redução da produção de energia. Ele destaca que, para suprir o vazio de energia das usinas fio dágua durante o período seco, o País precisa apostar em unidades capazes de produzir a qualquer hora, independentemente das condições climáticas.

Com as reservas descobertas pela Petrobrás nos últimos anos, as termoelétricas a gás podem ser uma opção menos poluente que as usinas a óleo combustível e diesel. Mas, segundo o Plano Decenal, elas não são uma alternativa considerada pelo governo, diz o presidente da Associação Brasileira de Geradoras Termelétricas (Abraget), Xisto Vieira.

O trabalho cita apenas as usinas que já foram leiloadas no passado, como as usinas a óleo combustível em construção. Xisto destaca que há cerca de 10.800 MW de energia térmica inscritos no leilão que ocorrerá em julho. E, mesmo assim, a fonte não é uma alternativa para o governo. "O Plano Decenal está repetindo o mesmo equívoco do passado. Não leva em consideração a geração térmica."

Ele conta que, num estudo feito há alguns anos pela Abraget, chegou-se à conclusão de que o ideal para o Brasil seria ter 65% de energia hídrica e o resto de térmica.

Tarifas

Mas tudo tem um custo. E não é baixo. A diversificação da matriz e a opção por usinas a fio dágua, para reduzir impactos ambientais, vai pesar no bolso do consumidor, que já paga uma das maiores tarifas do mundo, diz o vice-presidente da CNI, José de Freitas Mascarenhas.

Nivalde Castro, da UFRJ, pondera, porém, que essa não é uma peculiaridade brasileira. "O aumento dos preços de energia é uma tendência mundial."

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