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Como a infraestrutura é a mesma, nem pacote preventivo da Anac evitará fim de ano com terminais lotados, atrasos e filas para táxi

Os esforços da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) não conseguirão evitar o desconforto dos passageiros para embarcar neste fim de ano. O motivo é que os aeroportos brasileiros receberão três milhões de passageiros a mais em dezembro deste ano com uma infraestrutura igual a do ano passado. O resultado desse aumento de passageiros sem uma expansão dos aeroportos será atrasos de voos, terminais lotados, falta de vagas de estacionamentos e filas para fazer check-in e pegar táxis no fim de ano, segundo especialistas consultados pelo iG .

Aeroporto de Confins ficou lotado em dia que o terminal fechou, em novembro
Agência O Globo
Aeroporto de Confins ficou lotado em dia que o terminal fechou, em novembro
A expectativa da Anac é que os aeroportos recebam 14 milhões de passageiros em dezembro, 8 milhões apenas entre o Natal e o Ano Novo. Em dezembro do ano passado, 11,5 milhões de pessoas embarcaram ou desembarcaram nos aeroportos brasileiros, 21,7% menos do que a projeção para este ano. Entre janeiro e outubro, a demanda por voos domésticos cresceu 25%, de acordo com a agência reguladora.

O único avanço significativo na infraestrutura aeroportuária entre 2009 e 2010 foi a instalação do módulo operacional no aeroporto de Brasília, que trará mais conforto para os passageiros que aguardam o embarque.

“Mas será só na sala de embarque. Brasília também terá problemas de atrasos e falta de estacionamento”, diz Allemander Pereira, ex-diretor da Anac.

Para tentar prevenir um caos aéreo no fim de ano, a Anac convocou nesta segunda-feira os executivos das seis maiores empresas aéreas do país – TAM, Gol, Azul, Trip, Webjet e Avianca - para definir um plano para o fim de ano, que inclui a manutenção de 17 aeronaves reservas nos aeroportos, a proibição do overbooking (venda de mais passagens do que o número de assentos) e a contratação de funcionários temporários.

Para o sócio-executivo da Aviation Management Consulting, Nelson Riet, os problemas são inevitáveis. “As medidas da Anac são um quebra-galho, mas não resolvem o problema. Os aeroportos já estavam no limite no ano passado e agora vão receber mais gente”, afirma.

Se o tempo estiver favorável para a aviação, os passageiros enfrentarão atrasos leves e terão o desconforto da superlotação, mas quase todos conseguirão embarcar, de acordo com Pereira. Mas, se as condições meteorológicas provocarem o fechamento dos principais aeroportos, atrasos graves devem acontecer e alguns passageiros não conseguirão pegar os voos para passar as festas de fim de ano no destino planejado, diz o especialista. “A malha de voos está no limite e sobre pouco espaço para reposição de atrasos neste período”, diz.

Do lado de fora do aeroporto, os passageiros também devem enfrentar problemas. Nos aeroportos de Guarulhos e Congonhas, em São Paulo, a expectativa dos especialistas é que faltem vagas de estacionamento e os passageiros tenham que pegar filas para entrar no táxi. A melhor solução neste caso é conectar os aeroportos com o sistema de metrô da cidade.

Projeção subestimada

Para o ex-diretor da Anac as estimativas oficiais estão subestimadas. A expectativa dele é que 16 milhões de pessoas viagem de avião em dezembro, 10 milhões na segunda quinzena do mês. “A média de embarques mensais no ano é de 12,5 milhões. Em dezembro, esse número será muito maior”, afirma. O aumento do emprego e da renda da população, o real valorizado e a expansão do crédito aquecem o setor aéreo.

As companhias aéreas não divulgam quantos bilhetes já venderam, mas estimativas de aumento das operações. A TAM espera uma alta de 22% na demanda por voos domésticos e 15% para internacionais. A Webjet prevê uma demanda 40% maior no fim de ano e, a Azul, 7%. A Gol informou que divulga a informação apenas no final do mês.

TAM, Gol e Webjet informaram que não praticam overbooking. A Azul não se manifestou sobre o tema. Para os especialistas, a venda de passagens acima da oferta de assentos ocorre entre as companhias brasileiras, mas não é freqüente. “As taxas de ocupação dos voos estão longe de 100% e não apontam para isso”, diz Riet. O ex-diretor da Anac afirma que, no fim de ano, as empresas sabem que os passageiros não vão deixar de embarcar e, por isso, evitam a prática.

Aeronaves reserva

A manutenção de aeronaves reserva pode, efetivamente, minimizar os atrasos de voos. Hoje, se uma aeronave atrasar, todos os voos seguintes previstos para o mesmo avião serão adiados ou cancelados. Para Reit, as aeronaves extras podem evitar uma reação em cadeia de atrasos de voos nos diferentes aeroportos. “As companhias deveriam sempre ter aeronaves extra, mas com esta tendência de redução de custos, elas não querem deixar os aviões parados”, diz.

A Webjet vai manter duas aeronaves reserva, que serão aviões novos incorporados à frota da companhia. A Azul já mantém uma aeronave extra no aeroporto de Viracopos para eventuais substituições. A Gol vai reservar quatro aeronaves, mas não detalhou a origem dos aviões. "Essa decisão será avaliada com base em possíveis mudanças na programação dos voos", disse a empresa, em nota.

A TAM desloca todo mês cerca de cinco aeronaves para a manutenção na segunda quinzena, mas vai antecipar o procedimento para liberar as aeronaves para atender a exigência da Anac. A empresa também pode transferir para este fim aviões que operam rotas internacionais.

Plano emergencial

Enquanto não há uma expansão da infraestrutura aeroportuária, a solução é a criação de um projeto emergencial. O ex-diretor da Anac defende que sejam definidas medidas mais pontuais para situações extremas, como um plano de procedimentos para a quebra de aeronaves na pista ou para a queda do sistema de check-in.