Tamanho do texto

Objetivo do projeto é fazer a irrigação de cerca de 50 mil hectares de agricultura

Maior obra de infraestrutura hídrica no país realizada pelo governo federal, que está sob a responsabilidade do Ministério da Integração, a transposição do Velho Chico também tem a intenção de, ao garantir o abastecimento de água, fomentar o desenvolvimento econômico e social do Nordeste Setentrional - que concentra as áreas mais secas dos Estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. Atualmente, estão empregados nas obras 8.705 profissionais da construção civil. Com a conclusão da transposição, devido à intenção de irrigar 50 mil hectares com agricultura de ponta, poderão ser gerados 150 mil empregos diretos.

Trecho da obra de transposição do Rio São Francisco
Tomas Munita/The New York Times
Trecho da obra de transposição do Rio São Francisco

“Para cada hectare irrigado são necessárias de duas a três pessoas”, afirma o especialista em geomorfologia e meio ambiente e pesquisador do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo, Jurandyr Ross. Isso sem contar a demanda de mão de obra para embalagem, transporte e venda dos produtos. “Não basta colocar a água para o consumo doméstico. Ao usá-la também para a agricultura são gerados emprego, renda e impostos. E não adianta investir no cultivo de mandioca, milho e feijão, que têm valor agregado muito baixo. É preciso apostar em abacaxi, banana, melão, mamão, uva e manga, por exemplo, que têm forte mercado inclusive no Exterior.”

A transposição tem efeito permanente para o desenvolvimento regional e a geração de emprego, avalia o professor de ciências políticas e gestão pública do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF) José Luiz Pagnussat. “Essa localidade sofrida está prestes a resolver o problema da seca, que a atinge desde o início do século XX”, diz. A tendência, segundo ele, é que ocorra o mesmo com as margens do Rio São Francisco. “Isso leva um tempo mas, décadas atrás, lá também era tudo seco. Com os projetos de irrigação da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba), tornou-se possível apostar em culturas intensivas de mão de obra. Onde antes o terreno era árido, hoje são produzidos vinhos reconhecidos internacionalmente e frutas que são exportadas. Sem contar a produção de queijo do leite de cabra, produto altamente valorizado. Certamente serão atraídas pequenas indústrias que oferecerão leque de oportunidades.”

Veja também: Nordeste terá mais garantia de energia

Na esteira da criação de vagas, outro benefício é a diminuição da pressão populacional dos centros urbanos, destaca Pagnussat. Pelo fato de regiões próximas aos canais de água passarem a ser abastecidas, é possível que pessoas que haviam se mudado em busca de melhores condições sejam atraídas para retornar às suas terras natais, onde, inclusive, ainda estão suas famílias.

Para que todas essas oportunidades sejam viabilizadas, porém, o professor de recursos hídricos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) Rubem Porto, que já atuou como consultor do Banco Mundial para o assunto, pondera que é necessário haver infraestrutura e garantia do abastecimento para atrair investimentos. “O empresário que se interessar terá de comprar a terra, plantar o pomar, esperar crescer, prover energia e construir espaço físico. Portanto, não pode haver o risco de ele não poder contar com a água. Se não tiver essa segurança, ele não vai investir ali. Vai preferir aportar seus recursos às margens do São Francisco”, afirma.

Quanto à mudança de hábitos do sertanejo que só plantou milho, feijão e mandioca a vida toda, também é necessária uma adaptação. “Ele não vai virar, de uma hora para outra, um agricultor. Ele não sabe irrigar. Por isso, o governo deve procurar criar condições para que haja investimento e que ele seja treinado, para também ensinar a técnica a seus filhos, e oferecer melhores perspectivas para o futuro. A água não é o único problema, mas a educação e a comercialização também. Hoje, a cada seca, o sertanejo perde a plantação. E, quando tem produção, é mais para subsistência, pois não há mercado por ali, e ele não tem recursos para vender em localidades mais distantes”, explica Porto.