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Bernardo Figueiredo diz que a meta do governo é alcançar os R$ 100 bilhões por ano de investimento em infraestrutura

Brasil Econômico

Figueiredo reclama da falta de mão de obra
Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr
Figueiredo reclama da falta de mão de obra

Encarregado pela presidente Dilma Rousseff de desatar os nós para que o Brasil chegue ao patamar de R$ 100 bilhões por ano de investimento em logística e infraestrutura, o diretor-presidente da EPL (Empresa de Planejamento e Logística), Bernardo Figueiredo, diz que a falta de mão de obra especializada é um dos principais obstáculos. Ele reconhece que o Brasil enfrentará um período crítico nos próximos cinco ou seis anos, prazo para a expansão da malha dar os primeiros resultados. “O papel da EPL é fazer o patamar de investimento chegar em R$ 100 bilhões”, diz nesta entrevista ao 'Brasil Econômico'.

Quanto tempo o Brasil terá de esperar para que os investimentos em infraestrutura de transporte comecem a dar resultado?

Bernardo Figueiredo – Nós teremos de investir R$ 200 bilhões para a reconstrução de uma malha ferroviária minimamente adequada. É um projeto de médio prazo. Teremos uma malha mais abrangente dentro de cinco ou seis anos. Será um período crítico, mas as filas de caminhões que esperam nos portos podem ser minimizadas com medidas operacionais.

Que tipo de medida?

Entre elas está a operação do porto por 24 horas. Isso gera um ganho no curto prazo com investimento marginal, alivia a pressão e reduz o custo. Não é uma mudança estrutural, mas permite esperar esse tampo de maturação nos investimentos em rodovias.

Em dez anos e meio de governo Lula-Dilma o processo não podia estar bem mais adiantado?

Este ano foi finalizada a contratação de 10 mil quilômetros de ferrovias e a duplicação de 5.500 quilômetros de rodovias. Esses investimentos serão realizados em cinco anos. Fizemos o trabalho de identificação dos gargalos principais na articulação de todo o sistema. Em agosto ou setembro fica concluído o primeiro trabalho de propostas de investimentos na área portuária. Estamos hoje fazendo um diagnóstico mais preciso dos problemas. Nos anos 1990, o governo federal investia perto de R$ 2 bilhões por ano em todo o sistema de transporte. No governo Lula, com o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), esse patamar de investimentos saltou para R$ 15 bilhões por ano. O primeiro passo foi multiplicar por quase dez vezes o investimento com infraestrutura. Agora foi lançado um programa de R$ 220 bilhões de investimento. A gente deveria ter feito isso há 20 ou 30 anos. Hoje estamos correndo atrás do prejuízo. Deixamos o problema se instalar. Acabaram com a estrutura de planejamento do País na década de 1990. Houve uma desarticulação do governo por um período longo demais sem investimento. Não existe mágica.

Qual é o patamar ideal de investimento?

Para resolver os problemas, temos de chegar em R$ 100 bilhões de investimento por ano. Eram R$ 2 bilhões e foi para R$ 15 bilhões: um avanço. Com esse programa, chegaremos ao R$ 45 bilhões. Temos de preparar o País para uma ação contínua nos próximos anos. Esse é o papel da EPL: fazer o patamar de investimento chegar aos R$ 100 bilhões por ano e não deixar mais gerar passivo.

Falta de mão de obra especializada?

 Na minha época, tinha engenheiro vendendo cachorro quente porque não tinha emprego – me formei em 1973, na UNB (Universidade de Brasília). O jovem não tinha estímulo de fazer engenharia porque não tinha perspectiva de trabalho. Por isso hoje nós não temos engenheiros. Quando voltaram os investimentos com o PAC isso começou a mudar. No ano passado, pela primeira vez se formaram mais engenheiros do que advogados. Mas teremos dificuldade nessa área para executar um programa de investimento mais agressivo. Temos de criar ações mitigadoras.

Recentemente faltou luz no aeroporto Santos Dumont, no Rio. Isso preocupa?

Temos um problema que não é privilégio de aeroportos. Não temos uma estrutura de gestão no aparato do Estado. Percebemos isso muito claramente no PAC – não tinha engenheiro no Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) nem fiscal no Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). A reversão disso implica em mudar a cultura e reaparelhar as empresas. O governo está mudando isso usando o instrumento da privatização. Está usando a iniciativa privada para contribuir nessa modernização.

A resistência sindical nos portos é um obstáculo?

Não temos problema de mão de obra portuária. Essa nem era a discussão, mas interesses foram movimentados com esse novo marco e os trabalhadores se engajaram na disputa. Não se mudou muita coisa. De qualquer forma, temos de modernizar as relações trabalhistas nos portos e em outras estruturas. Hoje, todos os terminais operam com a iniciativa privada. É uma relação entre os terminais e os empregados. Não existe restrição desde 1993 de contratação de mão de obra direta. Algumas não fazem por conveniência. É mais fácil usar os trabalhadores avulsos.

Como está a Transnordestina?

Houve um acordo de repactuação e serão aplicadas sanções graves em caso de não e execução dos investimentos. Pode acontecer até a perda das concessões. Acredito que ela começa operar os primeiros trechos dentro de dois ou três anos.

Como será o calendário das concessões?

Estamos andando no TCU (Tribunal de Contas da União) agora com a parte de rodovias. Assim que liberarem, começam as publicações dos editais e leilões. Estimamos começar entre o final de julho e começo de agosto, e as ferrovias entre o final de agosto e começo de setembro. O mercado demanda uma forma mais escalonada para as propostas.

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