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Estímulo de gastos no País leva taxa desemprego a uma baixa histórica de 5,8%, mas governo tem dificuldade para gastar bilhões alocados para grandes obras

NYT

Mais de 40.000 trabalhadores estão trabalhando num complexo portuário em Ipojuca, no nordeste do Brasil, ajudando a construir uma refinaria para a empresa estatal de petróleo. Cinco mil outros trabalham em um estaleiro, um outro projeto administrado pelo governo. Os preços dos imóveis estão subindo e o desemprego está caindo nesta região ao longo da costa atlântica que era reconhecida por sua pobreza.

Em uma demonstração da influência extraordinária que o governo do Brasil exerce em quase todas as áreas da economia, a presidenta Dilma Rousseff está colocando em ação uma série de projetos de estímulo ao redor do Pais que visam acelerar o ritmo do crescimento econômico do Brasil.

A assertividade de Dilma em reforçar o papel do governo na política econômica não é muito diferente do modelo da China, que está se tornando cada vez mais popular em Paises em desenvolvimento. O estímulo de gastos no Brasil tem ajudado a preservar empregos, fazendo com que o desemprego esteja atualmente passando por uma baixa histórica de 5,8%, bem abaixo dos 13% de uma década atrás. Com isso, o índice de aprovação de Dilma chegou a mais de 60%.

Obras próximas a refinaria da Petrobras no Recife
Tomas Munita/The New York Times
Obras próximas a refinaria da Petrobras no Recife


Mas os incentivos de investimento já estão demonstrando sinais de desgaste. Com a aprovação de diversos projetos de uma vez só, incluindo a construção de estádios para a Copa do Mundo de 2014 e a construção de usinas hidrelétricas na Amazônia, o governo está tendo dificuldades em gastar todo o dinheiro alocado. Por exemplo, apenas um quinto dos US$ 7 bilhões orçados para projetos rodoviários em 2012 foram gastos.

Dilma defende vigorosamente sua reação à desaceleração (o Brasil conseguiu 0,2% de crescimento no primeiro trimestre deste ano). Em um discurso este mês, ela fez uma comparação das políticas adotadas no Pais com as políticas de austeridade na Europa, onde mais da metade dos jovens em alguns Paises estão desempregados.

"Nós não temos uma visão que justifique um ajuste que deixe 54% dos jovens de um Pais sem trabalho", disse. "Nunca pensamos dessa maneira, nossa política atua claramente contra o desemprego.”

A posição de Dilma reflete o excedente fiscal do Brasil, já que as melhorias na maneira de cobrar impostos e a melhoria na economia ajudaram a reforçar as finanças do Estado. Mas seu pensamento também está enraizado na tradição brasileira de ter o governo tomando conta da economia.

Os oficiais das empresas administradas pelo governo do Brasil argumentam que o Pais ainda precisa de tais projetos para consolidar os ganhos na redução da desigualdade.

Mais sutilmente, embora possivelmente com ainda maior impacto, as autoridades também exercem influência econômica por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, uma instituição do Rio de Janeiro que tem crescido rapidamente fazendo quatro vezes mais empréstimos do que o Banco Mundial faz ao redor do mundo.

Assim como o Banco Mundial, o Banco Nacional de Desenvolvimento financia grandes projetos de infraestrutura destinados a aliviar a pobreza e a impulsionar o desenvolvimento. Fundado em 1952, o banco permaneceu sob controle do Estado em todo Brasil durante a onda de privatização na década de 1990, financiando até mesmo muitos dos leilões de empresas estatais.


Sob o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de 2003 a 2010, o banco expandiu agressivamente adquirindo participações minoritárias em uma série de empresas privadas. Algumas eram grandes empresas, como o JBS, o maior frigorífico do mundo. Outras são menores, como a Bug Agentes Biológicos, que produz vespas em massa para combater larvas que ameaçam as lavouras de soja.

O governo de Dilma está disposto a confrontar a elite financeira do Brasil novamente este ano. Ela aproveitou a desaceleração econômica como uma oportunidade para convencer os bancos privados do Brasil a baixar os juros - até recentemente elas estavam entre as mais altas do mundo - pressionando o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal a diminuir suas taxas.

Inicialmente, a reação destes poderosos estabelecimentos bancários brasileiros foi de descrença.

Ao mesmo tempo que atendem às suas vontades, alguns interesses empresariais estão começando a se irritar com as políticas intervencionistas de Dilma.

"Precisamos mudar nosso caminho urgentemente", disse a influente revista Exame, em um editorial deste mês, ao reclamar da “mão pesada” de Dilma.

Também surgiram preocupações sobre a crescente dívida dos consumidores à medida que 9 milhões de brasileiros solicitaram empréstimos pela primeira vez em 2011. Ao mesmo tempo, as avaliações de algumas das maiores empresas do Brasil têm diminuído e o real tem caído em relação ao dólar.

Ipojuca é um claro exemplo de onde as vantagens e desvantagens da forte dependência do governo.

No lado positivo de tudo isso, está a resiliência do Brasil mesmo diante de um momento de turbulência econômica global.

Por Simon Romero


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