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Com fábrica em Campinas, a Tozan, braço da Kirin no País, faz a tradicional bebida japonesa com arroz importado do Uruguai

Não devia ser fácil a vida dos primeiros imigrantes japoneses no Brasil. Trabalho pesado, terra estranha e língua idem, além de os costumes dos espevitados brasileiros terem pouca relação com sua cultura. Havia ainda um requinte de crueldade: por falta de saquê , a milenar bebida nascida da fermentação do arroz, os festejos da comunidade eram regados a cachaça.

O alento surgiu em 1934. Por iniciativa do barão Hisaya Iwasaki, presidente do grupo empresarial Mitsubishi, nasceu em Campinas (SP) a Indústria Agrícola Tozan, filhote da Fazenda Tozan, surgida sete anos antes. A empresa, então provedora do saquê para nipônicos sedentos, segue sua trajetória há quase 80 anos – e, agora, é também o braço mais longevo no Brasil da nova dona da Schincariol .

A japonesa Kirin anunciou a compra da segunda maior cervejaria brasileira nesta segunda-feira por R$ 3,95 bilhões. Ainda há trâmites a serem respeitados até a conclusão efetiva do negócio (e também será necessário desenroscar o embate entre os controladores da companhia, que a venderam, e os minoritários, que tentam barrar a operação ), mas já se pode falar que esta não é a estreia da Kirin no Brasil.

A Tozan produz saquê na unidade de Campinas com arroz importado do Uruguai. Entre as marcas que comercializa no País estão Guinjo, Hiroshigue e Namazake, mas a bebida não é item solitário em seu portfólio. Estão nele também a Kirin Ichiban (cerveja feita à base de cevada, milho e arroz), molho de soja, tempero para sushi e utensílios como tigelas e copos para chá.

Com um faturamento anual de US$ 28 bilhões (R$ 43 bilhões, em valores atuais), a Kirin é a sexta maior cervejaria do mundo. A compra da Schincariol já é encarada como um marco de mudança na indústria de bebidas do Brasil , já que a japonesa tem também linhas de sucos, vinhos e água mineral.

A fabricante da Kirin Lager, a cerveja mais antiga do Japão (seu lançamento ocorreu em 1888), é parte do conglomerado Mitsubishi, que abarca empresas de setores tão díspares quanto o petrolífero (Nippon Oil), o financeiro (Mitsubishi Trust and Banking) e o automobilístico (Mitsubishi Motors). No Brasil, o terceiro maior mercado de cerveja do mundo (os maiores são China e Estados Unidos), a Kirin tenta alternativas de crescimento fora do Japão, que há anos convive com a deflação e a estagnação do crescimento demográfico.

Há dúvidas se a empresa vai conseguir fazer o paladar brasileiro se habituar com cervejas que têm arroz em sua composição, mas a Kirin há de ter outras armas para se abrasileirar. A Tozan, sua atual operação no País, há muito já se habituou com miscigenações como caipirinhas de saquê com jabuticaba. E, no futebol, a Kirin patrocina, desde 1978, a Copa Kirin, da qual Palmeiras, Internacional, Santos, Fluminense e Flamengo já foram campeões. O torneio é hoje disputado apenas por seleções nacionais.

Cervejas da Kirin em gôndola japonesa: ao controlar marcas como a Devassa, a empresa vai ter que se abrasileirar
Bloomberg/Getty Images
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