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Montadora entrará em uma cidade que já tem gigantes como Cosan e Caterpillar e que, a reboque da cana, prevê mais dinheiro privado

A Hyundai terá em Piracicaba sua primeira fábrica própria na América do Sul. (Está em operação em Anápolis [GO], desde 2007, uma montadora de veículos da marca, mas a unidade pertence ao grupo CAOA, distribuidor dos carros da empresa coreana no Brasil). O projeto consumirá mais de R$ 1 bilhão em investimentos, valor que inclui os aportes que serão feitos também pelas empresas que serão fornecedoras do complexo automobilístico.

Guilherme Lara Campos/Fotoarena
Estudante coreano em Piracicaba
A previsão é que os primeiros modelos comecem a sair da linha de montagem no fim do primeiro semestre de 2012, segundo José Antonio de Godoy, secretário de Governo da prefeitura municipal. Um novo modelo de veículo hatch, batizado, até o momento, de HB – e desenvolvido especialmente para o mercado brasileiro –, será fabricado na cidade.

Não é de se desprezar o impacto que o investimento de uma montadora internacional causa sobre a cidade escolhida para a empreitada, mas a relevância de Piracicaba precede o projeto coreano. O município é a terra natal da Cosan, o maior produtor de etanol do mundo, e da Dedini, especializada na montagem de projetos de usinas de açúcar e álcool combustível. Entre várias outras grandes empresas, a Caterpillar, fabricante de máquinas e veículos pesados, tem uma unidade no município, na qual trabalham quase seis mil pessoas. É também em Piracicaba que fica a Esalq, da Universidade de São Paulo (USP), um dos principais centros de pesquisa agrícola do País.

O investimento da Hyundai é a cereja do bolo de um cenário de crescentes investimentos privados, segundo os mandatários da cidade. “Estamos vivendo o ‘momento Piracicaba’”, diz Pedro Luiz da Cruz, secretário de Desenvolvimento Econômico da prefeitura. “E está tudo ligado à energia limpa”. Piracicaba é um dos principais centros produtores de cana do País. Quatro empresas com raízes na cidade apresentaram ao município nas últimas semanas planos de expansão – seus nomes não foram revelados. Também o shopping center local faz as contas para dobrar de tamanho.

"Piracicaba está formando um cinturão de investimentos com Campinas, com muitas empresas coreanas", diz Bruno De Luca Drago, sócio do Demarest & Almeida, um dos principais escritórios de advocacia do País (a distância entre as cidades é de 70km). A demanda fez com que o escritório - que tem unidades em São Paulo, Campinas, Brasília, Rio de Janeiro e Nova York, além de representantes em mais quatro capitais - decidisse abrir uma unidade no município, que ficará pronta em março. Já está com o Demarest & Almeida o processo de abertura de uma agência de viagens coreana, que atenderá os emigrados que estão por mudar para Piracicaba.

Se o cronograma for cumprido, a fábrica piracicabana da Hyundai entrará em operação calibrada para produzir 150 mil veículos por ano. Novos modelos serão adicionados à linha de montagem com o passar dos anos – está prevista, por exemplo, uma versão 1.6 do ainda inédito HB, que nascerá para competir com o Gol, da Volkswagen, e o Palio, da Fiat.

Seong-Bae Kim, presidente da Hyundai no Brasil: silêncio sobre o investimento
Guilherme Lara Campos/Fotoarena
Seong-Bae Kim, presidente da Hyundai no Brasil: silêncio sobre o investimento
Ou entusiasmo, ou megalomania

Há quem diga que o entusiasmo com o investimento da montadora se transformou em megalomania. Às vésperas da chegada da comitiva da montadora ao município, circulou o rumor de que a empresa estaria preparando a criação de uma "Hyundainópolis" em Piracicaba, um colosso em torno da fábrica que teria hospital, escolas e sistema de transporte próprios. E não seria uma cidade-satélite qualquer, segundo a boataria: ela teria capacidade para 250 mil pessoas, número que representa mais de dois terços da população atual de Piracicaba, de pouco mais de 360 mil habitantes.

Na versão do poder público, a tal Hyundainópolis seria apenas balão de ensaio para a valorização dos terrenos que ficam próximos da fábrica. De Seong-Bae Kim, presidente da Hyundai no Brasil, não se sabe a versão: o comandante da empresa que está a cargo do investimento em Piracicaba não quis falar sobre investimento. Ao iG , preferiu ressaltar as diversas frentes para "estreitar os laços de amizade" com a cidade, como o jogo entre XV de Piracicaba e Jeonbuk Hyundai, e a importância do município na atuação global da companhia.

Na fase de obras da fábrica, já há cerca de 150 coreanos em Piracicaba. Quando a unidade entrar em operação, serão 43 os profissionais trabalhando diretamente na produção dentro da Hyundai, que ficarão com a função de coordenadores (o número de profissionais coreanos chegará perto de 100 se forem contados também os empregados das fornecedoras, segundo o secretário José Antonio de Godoy). Todas as outras tarefas serão entregues à mão de obra local. Em 2013, prevê-se que o complexo terá quatro mil trabalhadores.