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Mesmo com campanha salarial em andamento, centrais sindicais têm encontrado resistência das empresas para reajuste de salários – não querem corrigir nem a inflação

Carros novos são transportados em São Bernardo do Campo (SP)
REUTERS/Paulo Whitaker
Carros novos são transportados em São Bernardo do Campo (SP)

Em um aspecto, montadoras, autopeças e metalúrgicos concordam: faz mais de dez anos desde que viram, pela última vez, um cenário tão crítico para o setor. No entanto, as concordâncias param por aí. Diante da resistência de montadoras e outras empresas da cadeia produtiva automobilística em corrigir os salários, centrais sindicais se preparam para unir forças para pressionar as empresas.

A iniciativa partiu da Força Sindical, que pleiteia apoio para a sua campanha salarial, com data-base em 1º de novembro. Na terça-feira (26), o presidente da Força Sindical, Miguel Torres, ofereceu suporte para a dura campanha salarial da CUT. “Este é o momento de nos unir. O trabalhador pode sair prejudicado e não podemos deixar a política partidária interferir na luta sindical”, explica.

A preocupação de Torres faz sentido. Atualmente, a cadeia automotiva emprega 1,3 milhão de trabalhadores, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. No front de venda, a coisa vai mal – a queda na venda de veículos, segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), já chega a 17% neste ano.

Com uma queda tão grande nas vendas, é natural que as negociações salariais estejam travadas – e isso é o que mais preocupa Torres. “Os metalúrgicos ligados à CUT já tomaram muito balde de água fria. Estamos preocupados”, diz Torres.

Com a data-base para o acordo coletivo marcada para o 1º de setembro, os sindicatos ligados à Central Única dos Trabalhador (CUT) ainda não receberam sequer uma proposta econômica das empresas.

Segundo o presidente da Federação dos Sindicatos dos Metalúrgicos da CUT, Valmir Marques da Silva, o Biro-Biro, as negociações estão muito atrasadas. “As empresas estão com dificuldade de chegar a um acordo entre elas mesmas para propor o acordo”, explica.

O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, filiado à CUT, é um dos que enfrenta um cenário pouco favorável. A Mercedes-Benz, fabricante de caminhões, já tem 1,2 mil funcionários com contratos de trabalho suspensos. Atualmente a empresa negocia possibilidades de redução de salário e corte de pessoal. Procurada pelo iG , a Mercedes não disponibilizou porta-voz.

Na terça-feira (26), Biro-Biro esteve com o Grupo 8 (de empresas de siderurgia), o Grupo 2 (de empresas de máquinas e eletrônicos) e o Grupo de Estamparia. Nenhuma das três reuniões rendeu um acordo. “No ano passado, a essa altura a gente já estava negociando e assinando os documentos”, lamenta.

Pelo andar das negociações, neste ano os metalúrgicos não conseguirão aumento real – bem longe do que pleiteiam. Com as reduções de pessoal, férias coletivas, cortes e demissões, a sobrecarga já é uma reclamação. Segundo o sindicalista, os trabalhadores pedem aumento proporcional ao adicional de serviço. “As empresas estão com dificuldade de repor até a inflação”, comenta Biro-Biro, que não descarta o apoio da Força para a reta final de sua campanha. “Essa colaboração pode sim acontecer”, diz.

Embora não tenha ainda sido convidada para participar do “mutirão sindical”, a CSP-Conlutas também defende a união de forças. “Mais do que nunca precisamos de todos os metalúrgicos unidos. Se não nos juntarmos, não vamos ter outra saída além de aceitar acordos como o da GM em São José dos Campos”, diz Atnágoras Lopes, secretário geral do CSP-Conlutas. Por lá, mais de 900 funcionários da GM concordaram com o lay-off – ficarão até fevereiro sem trabalhar, recebendo salários reduzidos complementados com o suporte do Fundo de Apoio ao Trabalhador (FAT).