Tamanho do texto

Aprovação do programa de reciclagem de caminhões, carretos e reboques pode ampliar em 25% a produção industrial local; 90% das 2,8 mil empresas são pequenas e médias

Nem só de vinhos e chocolates vive a Serra Gaúcha. O segundo maior polo da indústria metalúrgica do Brasil também está ali, com uma característica bastante peculiar – 90% das 2,8 mil companhias que sustentam o arranjo produtivo local são pequenas e médias, ou seja, têm menos de 20 funcionários. Estas são as principais fornecedoras das grandes, como a Randon, Marcopolo e Agrale, que também estão instaladas na região.

Complexo da Randon em Caxias do Sul
Divulgação/Magrão Scalco
Complexo da Randon em Caxias do Sul

Apesar da diferença de porte, há algo em comum entre as pequenas e as gigantes desse mercado. Trata-se da esperança de aprovação do programa de renovação da frota de caminhões que, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), deve tirar 230 mil caminhões de circulação. O programa deve ser divulgado já ao final de março e poderá entrar em vigor ainda no segundo semestre deste ano, nas expectativas de Luiz Moan, que preside a Anfavea.

Assista: Anfavea e 9 entidades levarão ao Governo proposta de reciclagem de veículos

Após um 2012 sofrível e um 2013 com alguma recuperação nos negócios, a aprovação do programa pode elevar em até 25% a produção das empresas do Arranjo Produtivo Local Metalmecânico e Automotivo (APLMMeA) da Serra Gaúcha até 2015. Essa é a expectativa do Grupo Randon, segundo Marcelo Kuver, diretor Comercial e de Tecnologia da Suspensys, que faz parte do conglomerado

“Essa medida jogaria no mercado cerca de 20 mil caminhões, seria muito positivo para a indústria local”, diz Kuver. Para quem enfrentou um queda de produção de 40% em 2012, um incremento na produção cairia muito bem, principalmente após a recuperação de 35% na produção no ano passado. “Estamos quase voltando aos patamares de 2011.”

“Em 2011, trabalhamos 15 meses em 12”, diz Getulio da Silva Fonseca, Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul. No entanto, no ano seguinte, a obrigatoriedade de adoção do padrão de emissões Euro 5 para caminhões entulhou os estoques das montadoras e de toda a cadeia do setor. “Chegamos a trabalhar com férias coletivas e redução de jornada”, além da redução de 4 mil funcionários entre janeiro e dezembro daquele ano.

Não houve fechamento de fábricas, no entanto, o freio nos investimentos deixa Fonseca sobressaltado. “Os investidores estão inseguros”, conta. “As empresas vão arrumar um jeito de sobreviver, o nosso medo é que elas caiam na informalidade.”

Para as menores, cenário ainda é preocupante

As empresas menores, que compõem a maior parte desse arranjo, no entanto, ainda não estão tão perto da boa fase de 2011. O efeito Euro 5 se espalhou por toda a cadeia. “O ano de 2012 foi terrível”, lamenta Alcides Wolff, dono da Metalúrgica ARW, que, com quatro funcionários, faz manutenção de máquinas e equipamentos para empresas como Marcopolo e Randon.

“A gente sobreviveu como deu, mas tem empresa que está me devendo até hoje.” O que salvou a pele de Wolff, foi a carteira com 40 clientes. “Sempre vai ter um ou outro precisando do serviço, mas meu mercado é muito instável. Quando aperta um pouco a empresa, eles fazem manutenção interna e não me pedem nada fora.” Ele diz ainda não ter voltado aos níveis de 2011, mas está esperançoso. "Comecei 2014 até que bem, acho que esse ano a gente vai se dar melhor."

Leia também: Produção de caminhões cresce por projetos de infraestrutura

É justamente este o conselho que Leonardo Gaffrée, assessor econômico da Secretaria de Desenvolvimento e Promoção do Investimento do Rio Grande do Sul, tem dado às empresas menores. “As pequenas só não quebraram em 2012 porque diversificaram seus produtos e seus clientes, além de terem conseguido apoio dos bancos regionais”, afirma.

2013 foi ano de recuperação e 2014 promete

No contexto geral, no entanto, o ano passado foi de recuperação. As indústrias automotivas e metalmecânicas somaram R$ 18 bilhões em faturamento, 10,4% a mais que em 2012.

O sucesso do setor é fruto da safra recorde de grãos, uma das principais alavancas do setor. Na safra 2012/2013 foram colhidas 186,9 milhões de toneladas de grãos. Em 2014, a expectativa é que esse montante utrapasse as 190 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Diretor de Exportação e Marketing da Randon S.A. Implementos e Participações, Cesar Alencar Pissetti
Divulgação/Magrão Scalco
Diretor de Exportação e Marketing da Randon S.A. Implementos e Participações, Cesar Alencar Pissetti

A parte de implementos rodoviários, carretas e semireboques sofrem impacto direto das oscilações nas safras de grãos. Mas é à baixa taxa do Programa de Sustentação do Investimento - Financiamento de máquinas e equipamentos (PSI-Finame) que Cesar Alencar Pissetti, diretor de marketing e exportação da Randon Implementos, agradece. “Cerca de 80% dos nossos produtos são adquiridos via Finame”, comenta.

Neste ano, no entanto, a taxa para o financiamento deverá subir. Enquanto, no ano passado, a taxa foi num crescente de 2,5% para 3,5%, neste ano vai chegar a 6%. No entanto, segundo Marcelo Kuver, as montadoras não sinalizaram grande preocupação com a taxa, o que deve sustentar o ritmo do crescimento deste mercado.

Por outro lado, o ano começou mais tarde. A decisão sobre as regras do PSI-Finame neste ano só sau em 14 de janeiro, o que atrasou as compras. “O atraso na liberação desse recurso bateu forte neste começo de ano”, diz Pissetti. “A liberação de recurso estava travada.”

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.