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Antes de vir ao Brasil, a JAC não tinha logotipo ou mesmo uma área de comunicação, por jamais ter saído da China. Agora, brasileiros são ouvidos até em carros a serem lançados

No meio do Salão do Automóvel de Xangai, em 2011, uma frase ecoava do estande da JAC Motors, no meio do mais completo evento da indústria automotiva global: o "Ô loco, meu!", pronunciado em alto e bom português pelo apresentador Fausto Silva. Não se tratava, no entanto, de uma estratégia para divulgar o sucesso da campanha publicitária da empresa no Brasil. A JAC, uma, entre as quase 50 montadoras da China, jamais deixara o país até então e, simplesmente, não tinha vídeos de qualidade mundial para mostrar na feira. Do mesmo modo que, com 30 mil empregados, não tinha um departamento de comunicação na China. Ou um logotipo definido, como o da GM ou da Mercedes, que teve de ser trabalhado pela equipe brasileira, com a vinda ao País.

Habib:
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Habib: "Processo incipiente de expansão favorece o diálogo e encurta os períodos de tomada de decisão"

"A JAC está se internacionalizando rapidamente. Exporta para dezenas de países e está iniciando seu primeiro passo fora da China na construção da planta no Brasil", afirma Sergio Habib, presidente da JAC Motors no Brasil, por email. "Esse processo incipiente de expansão favorece o diálogo e encurta os períodos de tomada de decisão. Tudo é muito prático. E rápido."

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Tão rápido que, lançada comercialmente em março de 2011, a JAC Motors Brasil anunciou, cinco meses depois, a fábrica no País. A pedra fundamental será inaugurada nesta segunda , 26, em Camaçari (BA) por Habib, An Jin, presidente do conselho da JAC Motors, bem como pelo ministro Fernando Pimentel e pelo governador da Bahia, Jacques Wagner. Serão investidos R$ 900 milhões e geradas 3,5 mil vagas.

Depois de ter desenvolvido todas as ações relacionadas à marca no País e ter trazido para cá a fábrica, o grupo SHC, que controla a JAC Motors Brasil, passou a atuar como uma espécie de consultor para a empresa, inclusive nos dentro da própria na China. "Pelo menos em estratégia de futuros produtos, temos sido consultados para ações da empresa na China", diz Habib.

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J2: 230 modificações no projeto original para entrar no mercado brasileiro
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J2: 230 modificações no projeto original para entrar no mercado brasileiro

Para o mercado brasileiro, a prática já está estabelecida. O J2, que será lançado nesta terça, sofreu 230 alterações para passar a ser importado ao País. Segundo Habib, a parceria acontece porque se criou uma relação de confiança entre os dois lados. "Já estive, nos últimos dois anos, cerca de 30 vezes, sem exagero, visitando a sede da JAC", afirma. "Estar lá todos os meses, logicamente, aumenta essa confiança e promove a parceria longeva."

Por trás do lançamento da pedra fundamental da fábrica, mais do que boas histórias da chegada de uma empresa que jamais havia deixado a China ao Ocidente também há o exemplo de como as empresas chinesas aprendem com parceiros. "A China se abriu ao Ocidente há 40 anos", diz Ling Wang, sócia da consultoria Win Education & Business Suport, que assessora empresas interessadas em fazer negócios com a China. "Nesse período, o país aprendeu a produzir, vender, exportar e consumir. Agora, chegou a fase de se comunicar e pode ter certeza de que os chineses vão aprender rápido."

Se algumas empresas, como a Embraer, tiveram dificuldades nas negociações com os chineses , no caso da JAC, Habib afirma que não houve problemas na interlocução. "No nosso caso, a negociação foi extremamente rápida, pragmática, tranquila" diz ele. "Eles foram bem objetivos na construção do negócio e revelaram, desde o início, a preocupação em criar uma parceria de longo prazo." 

Para Habib não se pode, evidentemente, generalizar as negociações com os chineses. Seu sucesso, afirma, depende de seu interlocutor. "Há diversos tipos e perfis de chineses, que variam de acordo com as províncias", diz ele. "Na prática, os chineses do norte são completamente diferentes dos do sul. Os que habitam o litoral também são diferentes dos que vivem no interior".

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Até mesmo o fato de a empresa jamais ter saído da China até pouco tempo atrás é considerado vantagem por Habib. Segundo Wang, ser pouco ocidentalizado é, inclusive, oportunidade de negócios. "Sempre que meus clientes reclamam que o site da empresa chinesa é um horror, sem versão em inglês ou com traduções mal feitas, digo: 'fique feliz'", diz Wang. "Isso significa que há um chinês está esperando alguém que faça negócios com ele. Se estiver perfeito, quer dizer que já há alguém lá."

O site da JAC até tem uma versão em português. Mas cheia de erros de digitação e com algumas palavras que não existem, como se a traducão tivesse sido feita por um robô. Pelo jeito, ainda há muitas oportunidades de negócio entre a JAC na China e a JAC no Brasil.

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