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Só neste ano, a participação do setor na geração de riquezas no país caiu quase 2 pontos percentuais

A participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto Brasileiro (PIB) já caiu mais de seis pontos percentuais desde 2004. Somente do final do ano passado para junho deste ano a fatia ocupada pelo setor no PIB recuou de 14,6% para 12,83%, ou seja, diminuiu quase dois pontos em seis meses.

Enquanto a indústria perde espaço, o setor de serviços segue avançando e já representa 67,94% de toda a riqueza produzida pelo país (veja quadro abaixo). Era de 62,97% há oito anos (veja quadro abaixo), segundo levantamento da Confederação Nacional de Serviços (CNS).

Economistas consultados pelo BRASIL ECONÔMICO argumentam que o avanço da economia de serviços no Brasil é precoce e mostra a debilidade da indústria. “Para que a economia de serviços seja positiva, a indústria precisa perder a participação no PIB à medida que acontece sua evolução tecnológica, o que se traduz em aumento da competitividade. Isso ainda não aconteceu no Brasil”, avalia o diretor do departamento econômico da Federação das Indústrias (Fiesp), Paulo Francini.

Mundialmente, a consolidação do setor de serviços ocorre após um forte processo de industrialização, que vem seguido pelo seu aumento de produtividade e pela elevação da renda per capita ao nível estimando entre US$ 15 mil e US$ 20 mil. Com esse avanço da renda, aumenta a demanda por serviços.

No Brasil, porém, essa nova fase se deu quando os brasileiros ainda tinham uma renda per capita de US$ 7 mil, segundo Paulo Francini. Contudo, sem qualidade e competitividade. “Qual é a riqueza dos serviços brasileiros? Onde ela está?”, questiona, observando que eles deixam muito a desejar, por faltar ainda maturidade da indústria.

Para efeitos de comparação, Francini faz menção à Alemanha, ao lembrar que, apesar de ser um país desenvolvido, a indústria detém participação de 25% no PIB. “Enquanto isso, aqui no Brasil, a indústria segue trilhando o caminho da derrota. Dizer que neste momento o setor de serviços apresenta um enriquecimento da economia brasileira é uma falácia. Ele não carrega uma dinâmica indutora como a indústria”, dispara.

O professor da Unicamp e ex-secretário de política econômica da Fazenda, Julio Gomes, compartilha da mesma opinião e afirma que o governo precisa, ainda por um longo tempo, manter estímulos à indústria para que o setor de serviços cresça com qualidade. “Por exemplo, o crescimento econômico da China é baseado na indústria, com participação de 50% no PIB. Isso acontece porque a indústria é mais dinâmica, por isso pode promover um crescimento econômico mais acelerado, trazendo qualidade aos serviços”, argumenta.

Mas no Brasil, questões estruturais, como o câmbio em desvantagem e as altas cargas tributárias formam um conjunto que penaliza a indústria e favorece os serviços, de acordo com Gomes. “O Brasil está abdicando de um setor que poderia ajudar no seu crescimento.”

Mas de acordo com argumentos do presidente da Confederação Nacional de Serviços (CNS), Luigi Nesse, a indústria já passa pelo processo de inovação tecnológica com o uso cada vez mais frequente da automação nos processos produtivos, levando o país a essa nova realidade. “O que existe agora é uma participação maior do setor de serviços na indústria. Ela virou uma montadora de produtos. Daí temos essa diferença na fatia de participação do PIB”, defende.

Além disso, Nesse lembra que este é o setor que mais emprega, justamente por conta do aumento da renda das famílias.

“Esse fator faz com que haja uma procura cada vez mais frenética por diversos tipos de serviços, que vão desde salão de beleza, restaurantes, à viagens. O resultado é a ampliação do setor”, explica, se mostrando totalmente pessimista quanto a este cenário para a indústria. “Não creio que haja recuperação de emprego industrial”, finaliza.

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