Tamanho do texto

Arbix quer transformar a instituição em banco para elevar o investimento em inovação de R$ 4 bilhões aos R$ 40 bilhões necessários

Arbix: ou as empresas inovam ou nossa economia vai ser abatida por outras
João Luiz Ribeiro/Finep/Divulgação
Arbix: ou as empresas inovam ou nossa economia vai ser abatida por outras
Quem inova no Brasil é quase um herói. Essa é a visão de Glauco Arbix, presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) desde o início deste ano. A instituição ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) é a responsável pelo investimento de recursos públicos para inovação no país. Para ele, “inovar aqui é caro, arriscado e não remunera bem”.

Com previsão de orçamento polpudo no início do ano, a Finep viu os cortes atingirem-lhe em cheio. Mas Arbix, que também já foi presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ainda espera levantar verbas suficientes para elevar o volume de R$ 4 bilhões em 2010 para quase R$ 5 bilhões em financiamentos neste ano.

A má notícia é que, para ele, o ideal seriam R$ 40 bilhões. Para chegar mais perto dessa meta nos próximos anos, ele quer transformar a Finep em um banco e ter autonomia para captar no mercado financeiro recursos que repassaria às empresas e universidades.

Veja a seguir a entrevista que Arbix concedeu ao iG em Brasília.

iG: Como o senhor vê a inovação no Brasil hoje?
Glauco Arbix:
Inovar no Brasil é caro, arriscado e não remunera bem a ponto de transformar inovação em uma atividade permanente. Por isso, ela ocorre de maneira ocasional no Brasil. Temos pequenas, médias e grandes empresas excepcionais, mas esse é um grupo muito seleto de empresas inovadoras. Esse é o calcanhar de Aquiles da economia brasileira. Inovar hoje não é escolha, é necessidade. Ou as empresas inovam, porque são elas que transformam ideias em algo com impacto financeiro, ou nossa economia vai ser abatida por outras. China e Índia já estão nos atropelando, porque eles oferecem mão de obra mais barata, têm tecnologia e têm uma relação diferente de sua moeda com o dólar, mais vantajosa.

iG: Mas muitas empresas brasileiras dizem que essa questão conjuntural, como o câmbio, prejudica demais a inovação.
Arbix:
As empresas gostam de ressaltar os desafios externos a elas. Isso é verdade, mas é bom olharmos para dentro. Muitas empresas não estão preparadas para inovar. Inovar é ter gente competente, transformando idéias em produtos. Não adianta só ter computador de última geração. Muitas empresas brasileiras ainda acham que salário é custo, e não investimento. As empresas têm que contratar gente mais qualificada.

Só com inovação o Brasil terá futuro. Se ficarmos na armadilha do dólar e das commodities, vai compensar mais importar do que produzir aqui. Isso é desindustrialização.

iG: Esse crescimento todo da economia não tem levado a uma escassez de Mao de obra qualificada?
Arbix:
Sim, mas sempre teremos problemas externos e internos. Como eu disse, inovar não é fácil. Quem inova é quase um herói. E tem quem consegue. É gente muito boa que inova, indo para áreas mais próximas do conhecimento, atacando os problemas para elevar produtividade e competitividade. Quando o empresário olha para o câmbio e os juros, fica esperando o governo agir. O outro olhar é o de organizar a empresa, apesar desses obstáculos. O caminho é qualificar as pessoas, aproximar empresas da universidade, além de lutar por flexibilizar o mercado de trabalho, a carga tributária, de forma a tirar a coleira das empresas.

iG: Existe hoje um sentimento manifestado de que o Brasil caminha para uma desindustrialização. Como fugir dessa tendência?
Arbix:
O Brasil só pode dar esse passo com inovação. Ainda temos dependência de commodities – embora extrair petróleo e minérios, por exemplo, hoje sejam tarefas repletas de tecnologia. Só com inovação o Brasil terá futuro. Se ficarmos na armadilha do dólar e das commodities, vai compensar mais importar do que produzir aqui. Isso é desindustrialização. O caminho é ter um sistema de inovação.

iG: O senhor vê setores que conseguem inovar mais do que outros?
Arbix:
Sim. A Embraer é um exemplo. Também as empresas de cosméticos, siderúrgicas e bancárias. A automação bancária brasileira é altamente inovadora. Você tem a Petrobras, as mineradoras, e as empresas nascendo na área de software e de mídia. Praticamente em todas as áreas o Brasil consegue ter empresas exemplares, mas são um destacamento pequeno. Há empresas hoje que trabalham com etanol, que, apesar de ser commodity, são altamente inovadoras. Essas empresas estão arriscando até R$ 30 milhões e não conseguiram nada ainda. Não estou exaltando o fracasso, mas quero dizer que há um amadurecimento das empresas brasileiras inédito. Elas estão dispostas a arriscar, porque quem der o pulo do gato do etanol de segunda geração vai se destacar no cenário mundial.

iG: Esse é o espírito capitalista por excelência, não?
Arbix:
Sim, mas o Brasil não está acostumado com isso.

iG: Qual a situação hoje da Finep em recursos disponíveis para inovação?
Arbix:
A Finep passou por um crescimento surpreendente nos últimos dez anos. Em 2003, eram R$ 300 milhões para 60 empresas e, em 2010, R$ 4 bilhões para 2 mil empresas. Sendo que, desse total, 95% são pequenas empresas. No começo deste ano, nós brasileiros fomos surpreendidos com cortes. No Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), que é a principal fonte de recursos da Finep, o corte foi de 22%, ou R$ 650 milhões. Isso deu um baque na gente. O segundo corte foi no MCT, o que também nos atingiu. O terceiro foi a redução de 10% do limite de empenho, determinado pelos ministérios de Fazenda e Planejamento. E, hoje, temos uma situação difícil, que é o quarto corte, pela redução do disponível financeiro. Tem orçamento, mas não tem o dinheiro para pagar as contas. E isso gera constrangimentos de vários tipos.

iG: Mas a Finep tem conseguido driblar isso, de alguma forma?
Arbix:
Em primeiro lugar, tentamos aumentar uma das pernas da Finep, que é a parte de crédito, que não tem relação com o superávit primário. Conseguimos da presidenta Dilma Rousseff R$ 1,75 bilhão por meio de uma Medida Provisória já aprovada. São recursos do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) em condições excepcionais para um país como o Brasil, que tem acesso caro ao capital. Esses recursos têm juro de 4%, negativo portanto, com 3 anos de carência e 10 para pagar. Um subsídio muito generoso do Tesouro Nacional. Com isso, tentamos reequilibrar a Finep.

iG: Mas esses não são recursos a fundo perdido, que, de fato, encolheram.
Arbix:
De fato, não posso pegar recursos do PSI e colocar na parcela não-reembolsável, que é principalmente para a universidade. A Finep tem três pernas. A primeira é crédito subsidiado pelo Tesouro. A outra perna é o não-reembolsável. A terceira é a subvenção econômica, que também é não-reembolsável, mas que vai só para as empresas. Neste ano, portanto, devemos investir mais do que os R$ 4 bilhões do ano passado, mas com mais crédito e menos investimentos não-reembolsáveis. Talvez até quase R$ 5 bilhões neste ano.

iG: Transformar a Finep em um banco, como o senhor quer, resolveria isso?
Arbix:
Essa não é só uma vontade nossa. A discussão tem e vista a necessidade de trabalharmos com um volume de recursos muito maior do que o que temos hoje. Não porque gostamos de trabalhar com dinheiro, mas porque precisamos investir em inovação. Se investimos R$ 4 bilhões hoje, precisaríamos investir até R$ 40 bilhões. A regra é simples. Se temos cerca de R$ 200 bilhões por ano para investimentos do BNDES, em média, em qualquer lugar do mundo, as instituições públicas investem de 20% a 30% em inovação. O BNDES investe em inovação, mas também em capital de giro, expansão, exportação. No caso da Finep é só tecnologia e inovação, o coração da economia. Por aproximação, a necessidade do Brasil estaria nesses R$ 40 bilhões. A Economia brasileira investe muito menos do que isso.

iG: Então esse projeto, de fato, está caminhando?
Arbix:
Vamos contratar uma consultoria que vai ajudar a, em dois ou três meses, formular as bases para sabermos como avançar nesse projeto. Mas, se formos mesmo um banco, nós seremos um banco especial. Poderemos combinar instrumentos para as empresas, como empréstimos, recursos não-reembolsáveis entre outros. Queremos oferecer um cardápio para resolver o problema delas.

iG: Até mesmo para as menores empresas?
Arbix: O pequeno é sempre penalizado no Brasil. Pelo peso das burocracias e das garantias que se exige para o crédito ou subvenção econômica – que, em geral, exige contrapartida de R$ 1 da Finep para R$ 3 do empreendedor. Com um banco, poderíamos montar um fundo de aval, por exemplo, para aliviar o risco. Não precisa ser banco, desde que consigamos alavancar, capitalizar e ter dinheiro que não fique ao sabor dos contingenciamentos.

iG: Com acesso ao mercado financeiro, então?
Arbix:
Sim. Queremos criar a FinepPar, à imagem do BNDESPar, para investir diretamente em participações em empresas menores. Temos muita dificuldade em fazer isso hoje. Há emendas tramitando no Congresso que nos facilitam a dar esse passo. Hoje investimos em fundos, mas não temos participação direta em empresas. Mas que fique claro que no nosso horizonte não está ter lucro. Não será da nossa natureza.

    Leia tudo sobre: inovação