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A figura do empreendedor tem mudado: criar uma empresa já não é mais visto como a única opção para quem não gosta de estudar

O termo empreendedorismo possui uma séria de distintos significados. Geralmente é empregado para designar o ato de iniciar e conduzir um negócio próprio, mas também é aplicado para a atitude de pessoas que promovem mudanças significativas em contextos específicos, de negócio ou não.

Hoje existem designações sobre empreendedorismo para donas de casa, crianças e empregados, e esses termos têm em comum características como inovação, receptividade a riscos, geração de valor, liderança, autonomia, persistência, pró-atividade e iniciativa. Ao restringir o tema para a criação de novos negócios, podemos entender que empreender é um grande desafio, mas também é uma excelente perspectiva de futuro, diante do mundo de oportunidades que se abrem todos os dias e são acessíveis a qualquer um.

Todos os dias vemos novos negócios pipocando pela País. Pesquisa realizada pela empresa de pesquisas Global Entrepreneurship Monitor com 43 países mostra o Brasil na 13ª colocação entre os países mais empreendedores do mundo, com a taxa de 12,02, ou seja, de cada 100 brasileiros, 12 realizam uma atividade empreendedora.

Por outro lado, todos os dias vemos empresas fechando. Essa é a dura realidade. Para cada 100 novas companhias abertas, 27 não chegam a completar sequer o seu primeiro ano de vida, segundo estudo do Sebrae-SP. Essa alta taxa de mortalidade se deve à má preparação dos tais “empreendedores”. A maioria até tem boas ideias, mas não sabe estruturá-las na forma de um plano abrangente, real e eficaz. Outros são bons geradores de ideias, mas péssimos administradores. Há ainda os que têm tudo para conduzir um bom negócio, mas carecem dos recursos financeiros para tal empreitada.

As dificuldades de empreender

Somente quem se aventura a iniciar um negócio próprio tem ideia das dificuldades que surgem no caminho. Problemas com empregados, conflitos com sócios, más decisões de investimento com base em poucas informações ou informações não confiáveis, dilemas com fornecedores, falta de conhecimento do mercado que não atende suas expectativas, dificuldades financeiras, etc. Os motivos são infindáveis.

Já tive a satisfação de conhecer alguns desses pequenos e médios empresários e ouvir seus testemunhos sobre esses e outros problemas. Posso assegurar que eles representam uma categoria de profissionais que podem ser considerados verdadeiros “heróis” por suas conquistas e determinação. Aliás, realização e persistência são duas das principais características que definem um verdadeiro empreendedor. Adiciona-se a isso a habilidade de estabelecer alianças, a capacidade de convencer as pessoas, a criatividade, a dedicação, a auto-confiança e a visão.

Qual é seu perfil?

E você, será que é um empreendedor e não sabe disso? Estaria você perdendo tempo como empregado quando poderia estar fazendo o que gosta e ainda ganhar dinheiro com isso? E se for? Estaria preparado para enfrentar as dificuldades que mencionei acima? Você estaria predisposto a enfrentar os riscos que o caminho empreendedor impõe e abrir mão da “segurança” de um emprego com carteira assinada?

A decisão é fácil e tende a privilegiar o emprego quando você está empregado, mas se torna difícil quando você está desempregado e vai se tornando crítica na medida em que vai se dando conta de sua efetiva empregabilidade com o passar do tempo na busca por uma recolocação. O medo de iniciar um negócio próprio vai aos poucos dando espaço ao medo de não ter uma atividade remunerada. Muitos negócios começam porque a pessoa simplesmente não tem opção e o negócio é iniciado com os poucos recursos que lhe sobram, sem muita convicção, visando sempre a uma atividade provisória até que surja uma oportunidade de voltar ao mercado de trabalho.

Não é difícil imaginar o destino da maioria dos negócios que começam dessa forma. Eles são fechados ou vendidos, engrossando as estatísticas de mortalidade de empresas nascentes. O empreendedor por convicção encara o mundo com outros olhos. Para ele, o emprego formal é a situação provisória, um estágio de preparação e acúmulo de recursos para seu principal objetivo, empreender. Quando ele reúne as condições, se sente preparado e a oportunidade surge, o empreendedor abandona a segurança do seu emprego e parte para realizar seu sonho.

Cai o mito do empreendedor

A visão da atividade empreendedora mudou nos últimos anos. Aos poucos, a figura do empreendedor está sendo desmitificada. A carreira empreendedora já não é mais vista como a única opção para quem não gosta de estudar. Inúmeros exemplos demonstram a receptividade social do empreendedor no Brasil. Escolas de administração estão colocando o tema como matéria principal e obrigatória nos seus cursos. O mercado de capital de risco vem crescendo exponencialmente e as oportunidades nunca foram tão amplas e ricas. Governos e organizações reforçam a importância da atividade empreendedora no crescimento econômico.

Por fim, a decisão de empreender envolve mais do que esses aspectos genéricos. Além do perfil pessoal e das competências de gestão, o futuro empreendedor deve contextualizar a situação a sua condição pessoal. Quer ele queira, quer não, a família é sócia nesse empreendimento. Ela será sacrificada em termos de dedicação do tempo do empreendedor e ganhos financeiros. Se a esposa ou marido não estiver comprometido com a aventura do empreendedor, toda a iniciativa pode fracassar - ou a família, se desintegrar.

Estas são algumas vantagens e desvantagens de seguir a carreira empreendedora. As motivações, o perfil, as perspectivas, o histórico, a oportunidade, as competências e a identidade de cada um representam algumas das variáveis que, no conjunto, devem ser avaliadas nesta decisão. Uma coisa é certa, independentemente da carreira empreendedora ser bem sucedida ou não: a aventura vivenciada sempre será um dos mais valiosos aprendizados que alguém poderá adquirir na vida.

Marcos Hashimoto é coordenador do centro de empreendedorismo do Insper

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