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Muitas companhias reduzem custos para assegurar ganhos; fenômeno puxa alta das Bolsas, mas há dúvidas sobre eficácia da estratégia

Showroom da Harley-Davidson nos EUA: vendas de motos caem no país há três anos, mas ganhos da companhia estão em ascensão
Bloomberg via Getty Images/Bloomberg
Showroom da Harley-Davidson nos EUA: vendas de motos caem no país há três anos, mas ganhos da companhia estão em ascensão
Em muitos sentidos, a Harley-Davidson tem trilhado um caminho acidentado. As vendas de motocicletas (nos EUA) estão em queda em 2010, assim como caíram em cada um dos três últimos anos. A companhia não espera que uma guinada ocorra tão cedo.

A despeito desse declínio, os lucros da Harley estão subindo – disparando, para ser mais preciso. Na semana passada, a empresa reportou um ganho de US$ 71 milhões (cerca de R$ 125 milhões, em valores atuais) no segundo trimestre, mais que o triplo do ganho obtido um ano antes.

Essa aparente contradição – vendas em queda e lucros em alta – é uma das razões para o humor de Wall Street estar tão melhor que o do mercado imobiliário. Neste o pessimismo está acentuado e o desemprego não dá sinais de arrefecimento.

Muitas companhias têm centrado o foco em cortes de custos para manter os lucros em ascensão, mas as benesses dessa estratégia têm ficado mais com os acionistas e menos com o restante da economia. Afinal, toda a gestão é pensada mais para a retenção de dinheiro e menos para o estímulo a contratações e produção. A Harley, por exemplo, anunciou um plano de fechar entre 1,4 mil e 1,6 mil vagas até o fim do próximo ano. Isso depois das duas mil demissões no ano passado – mais de um quinto de sua força de trabalho.

Impulso à Bolsa

À medida que as companhias reportam os balanços referentes ao segundo trimestre, o mercado acionário se anima – o índice Standard & Poor’s 500 acumulou alta de 6,8% em julho. No entanto, a fonte desses ganhos levanta questões profundas sobre a sustentabilidade do crescimento e sobre o destino de mais de 14 milhões de trabalhadores desempregados, que esperam serem reabsorvidos com a recuperação da economia.

“Como desemprego é alto, o que se tem feito é conseguir mais eficiência dos funcionários por hora trabalhada”, disse Robert C. Pozen, professor sênior da Harvard Business School e ex-presidente da Fidelity Investments. “O que é preocupante é que as empresas americanas se acostumaram a ser muito dependentes. Pode levar um tempo até que elas comecem a contratar de novo”.

E alguns desses empreendimentos, incluindo a Harley-Davidson, estão se preparando para um futuro em que esperam prosperar mesmo se as vendas não se recuperarem. A meta da Harley é conseguir permanentemente lucros fortes sobre uma base menor de receita.

Em alguns aspectos, a habilidade de ampliar ganhos em um cenário de vendas em declínio é o triunfo da produtividade que fazem os Estados Unidos mais competitivos globalmente. O problema é que as companhias não estão reinvestindo esses ganhos, mas fazendo com que esse dinheiro se acumule até atingir níveis não observados em quase meio século.

“Quando as corporações reinvestem, a economia pode crescer”, diz Ethan Harris, economista-chefe do Bank of America Merrill Lynch. “Mas se elas pegam esses lucros e guardam em vez de comprar novos equipamentos, isso afeta o crescimento como um todo”. Harris complementa: “não há dúvida de que uma mudança de renda está em curso na economia. As companhias estão enxugando seus custos trabalhistas para garantir lucros”.

Estratégia disseminada

O fenômeno não se limita à Harley. Gigantes como General Electric e JPMorgan Chase, assim como empresas de menor porte, como a fabricante de brinquedos Hasbro, melhoraram seus demonstrativos financeiros mesmo com vendas em queda no segundo trimestre. Das companhias que fazem parte do índice Standard & Poor’s 500 e divulgaram seus balanços até o início desta semana, mais de uma em cada dez tiveram ganhos maiores mesmo com vendas menores, número quase duas vezes maior que o registrado em um trimestre normal do período anterior à recessão, segundo a Thomson Reuters.

“Muitas indústrias estão operando em novos níveis de lucratividade”, disse David J. Kostin, estrategista-chefe de investimentos do Goldman Sachs nos EUA. “Na hora da baixa, as empresas trabalharam para atingir margens nunca vistas antes”.

As margens de lucro – o percentual da receita que sobra depois das despesas – se desintegram na maioria das recessões, um reflexo direto da queda das vendas. Mas custos fixos, como infraestrutura, commodities e aluguel continuam os mesmos. Em 2002, durante a recessão que se seguiu ao estouro da bolha das empresas de tecnologia, agravado pelos ataques terroristas de 11 de setembro, as margens caíram para 4,7%. Embora a derrocada mais recente tenha sido muitas vezes mais severa, as margens de lucro baixaram a 5,9% em 2009, mas rapidamente se recuperaram. Para o próximo ano, os analistas esperam margens de 8,9%, um patamar recorde.

Salários espremidos

Dessa vez, a diferença é que as companhias espremeram a remuneração de sua força de trabalho, segundo Neal Soss, economista-chefe do Credit Suisse em Nova York. De fato. Enquanto os salários mal saíram do lugar desde as baixas registradas na recessão, os lucros mostraram uma recuperação vigorosa: entre o fim de 2008 e o primeiro trimestre de 2010, o salto foi de 40%.

Desempregados se candidatam a vagas: nos EUA, 14 milhões de pessoas esperam ser reintegradas ao mercado de trabalho
Getty Images
Desempregados se candidatam a vagas: nos EUA, 14 milhões de pessoas esperam ser reintegradas ao mercado de trabalho

O avanço do lucro da Harley-Davidson no último trimestre foi estimulado por uma mudança na unidade de financiamento, assim como pela produção mais eficiente, mas a empresa continua cortando. A Harley já comunicou aos sindicatos de trabalhadores de sua fábrica em Milwaukee que mudaria a produção para algum outro lugar nos Estados Unidos se eles não concordassem com regras trabalhistas mais flexíveis e com medidas de cortes de custos de dezenas de milhões de dólares.

Mesmo que as vendas melhorem, a retomada das contratações é improvável. “A última coisas com a qual estamos preocupados é sobre quando vamos aumentar a capacidade. O que estamos realmente fazendo é reconfigurando todo o nosso sistema operacional para que tenhamos maior flexibilidade”, disse Keith Wandell, principal executivo da companhia, em conferência com analistas na semana passada.

A evolução da Harley é parte de uma mudança de longo prazo da atividade manufatureira americana, disse Rod Lache, analista do Deutsche Bank. Na Ford, a receita das operações na América do Norte caiu US$ 20 bilhões desde 2005, mas, em vez de uma perda como a registrada naquele ano, a unidade espera lucrar mais de US$ 5 bilhões em 2010. Em grande medida, isso se deverá ao enxugamento da força de trabalho, que foi de cerca de 50% nos últimos cinco anos.

“Essas empresas desvendaram o código de uma reviravolta industrial de sucesso”, disse Lache. “Elas estão encolhendo o negócio para um tamanho viável e crescendo a partir dessa base menor”.

É fato que as vendas crescem para muitas companhias, embora em um ritmo muito menor que o do avanço dos lucros. Entre as 175 companhias do índice S&P 500 que, até o início desta semana, divulgaram seus resultados referentes ao segundo trimestre, a receita média cresceu 6,9%. Os lucros, por sua vez, avançaram 42,3%, de acordo com a Thomson Reuters.

Foco em mais ganhos

Ainda assim, mesmo em corporações em que as duas variáveis estão em ascensão, o foco continua sendo dado à manutenção da alta dos ganhos, e não à reconstrução das forças de trabalho, dizimadas pela recessão.

Quando a Alcoa reportou neste mês uma reviravolta nos lucros e uma alta de 22% na receita, o executivo financeiro da companhia, Charles D. McLane Jr., assegurou aos investidores que não seria prudente reconvocar os 37 mil trabalhadores demitidos desde o fim de 2008. “Nós temos um foco claro nos gastos no momento de aumento da atividade no mercado, em operar mais efetivamente e em minimizar as recontratações onde for possível”, disse ele. “Não apenas estamos segurando os níveis de pessoal como também conduzindo a reestruturação neste trimestre, que resultará em mais enxugamentos”.

Michael E. Belwood, porta-voz da Alcoa, disse que mais de 17,5 mil dos ex-funcionários foram contratados por unidades da companhia vendidas desde então. Ele acrescentou, contudo, que a companhia “teve que se redimensionar para se ajustar às realidades da recessão”.

“Estamos observando de perto os custos porque ainda existe incerteza sobre a estabilidade dessa recuperação”, afirmou.

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