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Rede antecipava, no balanço, receita com a venda de mercadorias por meio de "créditos" concedidos pelos fornecedores

Carrefour antecipava receita com crédito de fornecedores
AE
Carrefour antecipava receita com crédito de fornecedores
O ponto vulnerável do Carrefour no Brasil, e que obrigou a multinacional a reconhecer uma perda extraordinária 70 milhões de euros (R$ 160 milhões) no balanço da subsidiária brasileira no segundo trimestre deste ano, está na contabilização de uma prática antiga e comum entre os varejistas no País: as chamadas "verbas de bonificação".

Essas verbas são pagas pelos próprios fornecedores às redes de supermercados e funcionam, na verdade, como uma forma de desconto na aquisição de mercadorias.

As indústrias reembolsam para varejistas valores que podem variar de 1% a até 5% do preço "cheio", ou o preço de tabela, de um determinado pedido. Esse pagamento pode ser feito em dinheiro ou em mercadorias e costuma ser negociado caso a caso com os fornecedores.

A verba de bonificação é um contrato legal e o seu reconhecimento não seria um empecilho para os contadores, diz um especialista em varejo.

O problema, porém, é a forma como essa verba é contabilizada. O pagamento feito pelo fornecedor só pode ser reconhecido como receita quando a mercadoria já tiver sido comercializada, por estar associado aos custos dos estoques.

"Crédito" do fornecedor

E esse foi justamente o erro encontrado pelos auditores da KPMG nas contas do Carrefour no Brasil. Segundo uma fonte procurada pelo iG , que pediu para não ser identificada, as verbas de bonificação recebidas pelo Carrefour vinham sendo contabilizadas de forma antecipada, antes que as mercadorias fossem vendidas.

Quando antecipadas, as verbas de bonificação acabando funcionando como um espécie de empréstimo concedido às varejistas pelos próprios fornecedores. As indústrias antecipam para os supermercados parte da receita com a venda dos estoques e, depois, recebem, no mês seguinte, pelo preço de tabela das mercadorias.

Em comunicado, o Carrefour admitiu a existência dessa antecipação de receitas no Brasil, o que levou a companhia a não mais reconhecer como crédito, ou valores a receber, um total de 70 milhões de euros em seu balanço do segundo trimestre. A auditoria extraordinária que vem sendo realizada na subsidiária brasileira desde agosto, pela KPMG, ainda não foi concluída, e a empresa projeta que esses ajustes podem chegar a 80 milhões de euros.

Auditoria

"Considerando a performance abaixo do esperado dos hipermercados no Brasil, o Grupo decidiu ter um novo time de gestão e fazer uma análise rigorosa de sua operação, reconhecendo como não recebíveis um conjunto de bonificações, ajustes de inventário e depreciações na ordem de 80 milhões de euros.
Dada a importância do Brasil para o Grupo Carrefour, adicionalmente, com o objetivo de dar suporte à nova diretoria foi contratada uma ampla auditoria externa, coordenada pela KMPG. Até o presente não há evidência de má conduta", informa o Carrefour, em comunicado oficial da matriz, na França;

Estoques

O estoque de uma empresa como o Carrefour pode alcançar mais de R$ 2 bilhões em mercadorias - e qualquer percentual em cima desse valor, por menor que seja, é capaz produzir grandes efeitos nos resultados operacionais. O Carrefour é a segunda maior varejista do País, atrás apenas do Grupo Pão de Açúcar.  

Em 2009, o Carrefour faturou R$ 25,6 bilhões no Brasil, onde possui mais de 600 lojas. Além dos hipermercados, que são o seu maior negócio, o grupo é dono da rede de lojas de vizinhança Dia e comprou, em 2007, o Atacadão, rede que atua como atacado e hipermercado, modelo conhecido como “atacarejo”.

Herança do tabelamento

As verbas de bonificação vêm de longa data, mas a sua função se transformou ao longo dos últimos trinta anos. Inicialmente, essas verbas foram criadas pelas empresas como uma forma de proteção contra a intervenção do governo na economia, numa época em que os preços das mercadorias eram tabelados. As indústrias fixavam preços mais altos e negociavam, depois, os descontos.

Hoje, a verba de bonificação tem um papel bastante diferente. Ela é usada pelas grandes varejistas como um instrumento de negociação: os descontos obtidos nas verbas de bonificação são repassados aos preços e permitem acirrar a disputa com os concorrentes. Todos os competidores conhecem os preços das mercadorias, mas não sabem quanto os seus rivais conseguiram de desconto por meio das verbas de bonificação. Essa é vantagem: conseguir esconder o jogo, diz uma fonte.

Para as indústrias, as verbas de bonificação também passaram a ser um bom negócio à medida que as varejistas precisam comprar as mercadorias para receber o reembolso. As verbas se transformaram em um instrumento para “empurrar” produtos, diz uma especialista.


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