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Empresário compra a tradicional Constran e controla a UTC Engenharia, que disputa a bilionária licitação das sondas da Petrobras

Ricardo Pessôa tem jornada de trabalho de até 14 horas diárias e é avesso aos holofotes
Ivone Perez
Ricardo Pessôa tem jornada de trabalho de até 14 horas diárias e é avesso aos holofotes
O empresário Ricardo Pessôa tornou-se candidato a entrar na lista dos grandes empreiteiros do País. Discreto, Pessôa adquiriu a Constran, que já pertenceu ao ex-rei da soja Olacyr de Moraes. A aquisição da tradicional empreiteira – a outrora titã do ramo de construção ao lado de empresas como a Construtora Norberto Odebrecht (CNO), Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, OAS e Queiróz Galvão - vai fornecer o passaporte para o empresário se qualificar para as futuras concorrências públicas das maiores obras de infraestrutura, projetos de construção pesada e fornecimento de equipamentos para a Petrobras. A UTC Engenharia, empresa controlada por Pessôa, já disputa uma bilionária licitação: o fornecimento de 28 sondas para a Petrobras, que serão usadas na exploração do petróleo da camada do pré-sal, um contrato avaliado em mais de US$ 20 bilhões.

Engenheiro civil de formação, Pessôa é um sujeito avesso aos holofotes – não é visto em colunas sociais, não aparece em eventos badalados e raramente dá entrevista. Em conversa com o iG , abriu uma exceção e contou os planos de crescimento da UTC Engenharia. “O pré-sal significa garantir a continuidade dos investimentos e a qualificação de pessoal”, diz Pessôa. “Meu desafio hoje é formar pessoas.” A aquisição da Constran, ocorrida em abril, ajuda abrir o setor de construção pesada para a UTC Engenharia, uma empresa do ramo de montagem e construção industrial. Embora a Constran já não guarde os resquícios da potência do passado, a compra complementa a atuação da empresa.

O movimento de compra é estratégico pelo legado construtor da ex-empreiteira de Olacyr de Moraes – que inclui os atestados dos empreendimentos realizados ao longo de décadas, como a construção de hidrelétricas, ferrovias ou estradas. Esses atestados qualificam a empresa a participar de licitações futuras. Para comandar a Constran, Ricardo Pessôa contratou o ex-ministro João Santana (não confundir com o marqueteiro de Dilma Rousseff, candidata do PT à Presidência), que ocupou a pasta de Infraestrutura no governo Collor.

Diretores assumem empresa de engenharia

A UTC Engenharia tem uma história de 35 anos, mas foi pelas mãos de Pessôa que ela cresceu. Criada em 1974 pelo grupo Ultra, foi adquirida pela empreiteira OAS em 1992. Funcionário da OAS havia 16 anos, Pessôa dirigia a UTC quando a empreiteira baiana decidiu se desfazer do negócio e ofereceu o controle para ele e outros diretores. Hoje, ele detém 56,52% da empresa e outros dois sócios possuem, cada um, 21,75%. Em 1996, a UTC empregava 890 pessoas e hoje são 7,5 mil pessoas. No mesmo período, o faturamento anual saltou de US$ 80 milhões para US$ 1,5 bilhão.

A empresa de engenharia é uma das fornecedoras da Petrobras e aproveitou nos últimos anos o crescimento do setor. A UTC participa da construção de uma unidade de tratamento de diesel na Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), no Rio Grande do Sul, e de uma nova planta de gasolina na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), no Paraná, além de participar do contrato da área de utilidades do Comperj, o complexo petroquímico do Rio de Janeiro, todos projetos da Petrobras. Além disso, a empresa está presente também nas obras da centro de pesquisas da Petrobras, o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Melo (Cenpes).

"Quando o barril de petróleo subiu, os investimentos em petróleo voltaram com toda força e o mercado de engenharia pesada migrou para o nosso, o industrial. O resultado é que agora todo mundo faz tudo, o mercado é um só", conta Pessôa. "Se ontem concorríamos com 15 empresas, hoje concorremos com 40." Com a mesma OAS e também a Odebrecht, a UTC formou consórcio para concorrer à licitação bilionária da Petrobras para a construção das sondas de perfuração do pré-sal.

Consórcio Acarajé

Nos bastidores da concorrência, a associação é conhecida como "Consórcio Acarajé", já que as três empresas são baianas. Se conseguir sucesso na licitação da Petrobras, o consórcio baiano vai construir as sondas no Estaleiro Enseada do Paraguaçu, que está sendo erguido no Recôncavo Baiano pela construtora Odebrecht. Voltado para a construção de plataformas de petróleo e sondas de perfuração, o projeto deve receber investimentos de R$ 1,6 bilhão e conta com recursos do Fundo da Marinha Mercante, segundo informações publicadas no Diário Oficial da União.

A UTC Engenharia atua em todas as etapas de construção de plataformas, do projeto básico à manutenção das unidades, passando pela engenharia do projeto e fabricação de módulos. Para tanto, a empresa disponibiliza uma espécie de atendimento 24 horas para atender clientes, com uma base em Macaé, cidade próxima à Bacia de Campos, maior produtora de petróleo do País. Outra unidade de trabalho fica em Niterói (RJ), que recebeu R$ 40 milhões em investimentos para dar conta da fabricação de módulos e outros componentes de unidades flutuantes nos últimos anos.

A expansão da base de Niterói continua neste ano, com a construção de uma oficina para pré-montagem de estruturas metálicas, uma nova oficina para fabricação de tubulações e a ampliação do cais para saída dos módulos. Também em parceria com outras empresas, a companhia de Ricardo Pessoa participa da construção das plataformas P-55, P-63, no estaleiro Rio Grande; além das unidades P-56, P-57 e P-55. A Petrobras, a anglo-holandesa Shell e a norueguesa Statoil estão entre os principais clientes. O engenheiro planeja continuar forte no segmento de petróleo, que responde por cerca de 65% do faturamento da UTC.

No particular, os negócios não tiraram a simplicidade de Pessôa. Ele garante que também não mudou seus hábitos. “Gosto de feijão com arroz. Acho que é fundamental manter minha raiz como referência". Quando não trabalha, assiste televisão com a família, conta. Mas se queixa da falta de tempo para visitar os parentes que ficaram na Bahia. "Nesta história toda, deixar de ver meus parentes é a coisa que dói", afirma. Hoje, ele mora em São Paulo com a mulher e as duas filhas. Sua jornada de trabalho diária varia entre 12 horas e 14 horas. “Quando viajo, vou para o exterior, porque senão eu acabo trabalhando".

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