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Sites de crowdfunding, recém-inaugurados no País, diversificam modelo americano e apostam em ideias "caras" e produção de projetos

Nem investidores, nem governo, nem cunhado rico: agora, aquela ideia brilhante para um novo negócio pode ser financiada por um monte de pessoas que também acreditem nela. O crowdfunding, prática que surgiu nos EUA em 2009 e decolou no ano passado com o site KickStarter ( veja mais abaixo ), ainda é uma novidade no Brasil – mas, embora não movimente milhões de dólares como lá, aqui a modalidade já caminha para direções ainda mais inovadoras, com pelo menos três sites relevantes de propostas e “personalidades” próprias.

Micael Langer, do site Incentivador: foco em projetos culturais de maior qualidade
Greg Salibian
Micael Langer, do site Incentivador: foco em projetos culturais de maior qualidade
Em janeiro, surgiu o Catarse. Entre os sites nacionais, é o mais parecido com o americano KickStarter e já arrecadou cerca de R$ 86 mil, para 21 projetos aprovados. Para colocar uma ideia no ar, o candidato precisa dizer quanto ela vai custar, em quantos dias ele quer arrecadar a quantia e o que será oferecido como recompensa para quem ajudar. Assim como no modelo dos EUA, a lógica do “tudo ou nada” também vale: se a “vaquinha” não atingir o valor proposto, todo dinheiro é devolvido, para ninguém correr o risco de ajudar projetos que não sairão do papel.

Os pedidos giram em torno de R$ 5 mil – os projetos baratos também são algo típico do KickStarter – e, se as contribuições ultrapassarem o valor, sorte de quem pediu. “Priorizamos candidatos criativos e que mostrem vontade de concretizar o objetivo”, diz o fundador Diego Reeberg, que também teve, ele próprio, espírito empreendedor para começar o site. “Não queríamos estagiar em trabalhos convencionais, então começamos a procurar modelos de negócios interessantes que deram certo no exterior. O KickStarter era de longe o mais legal”.

Em março, entrou no ar o Incentivador, que tem outra cara. “Aqui, fazemos checagem do currículo de quem coloca projetos no site”, explica o fundador Micael Langer. “Já recusamos vários”, conta. Como consequência, os projetos de filmes e pesquisas são mais caros – ficam na base de R$ 50 mil – e a turma que passa o chapéu quase sempre tem nomes conhecidos, como o produtor e diretor Nelson Hoineff, que confia nos fãs de Cauby Peixoto para juntar R$ 150 mil e filmar um documentário sobre o cantor.

Os projetos mais qualificados do Incentivador vão possibilitar outro diferencial do site. Em breve, alguns deles receberão um selo de incentivo fiscal. Pessoas físicas ou jurídicas que doarem poderão ter descontos no imposto de renda. “A maioria dos projetos expostos nesse começo do site são culturais, porque surgiram do networking que eu já possuía”, diz Langer, que também é documentarista – foi um dos autores de "Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei".

Outro modelo inovador de crowdfunding criado no Brasil é o Queremos. O site, além de arrecadar dinheiro para os projetos, também se envolve na produção – normalmente, são shows que não aconteceriam no Brasil caso os fãs não ajudassem a pagar para trazer as bandas para cá. A iniciativa já promoveu apresentações de Mayer Hawthorne, Vampire Weekend e Miike Snow.

De onde vem tudo isso?
Antes da revolução digital, alguém que tivesse uma ideia brilhante pensaria em vendê-la para uma grande empresa – vamos dizer, a Nike – e ganhar milhões. De uns anos para cá, o processo ficou mais fragmentado e menos intimidador. Principalmente quando o assunto são idéias brilhantes no universo digital – vamos dizer, um site que indique o tênis de corrida perfeito para seus exercícios. Em vez de poucas ideias receberem um investimento milionário, milhares de projetos passaram a receber entre US$ 5 mil e US$ 400 mil para ir em frente. E, não raro, alguns se tornaram negócios milionários.

Primeiro, isso aconteceu através de grupos de ‘investidores anjos’, indivíduos dispostos a correr o risco de ajudar um novo negócio, que se reúnem em organizações como YCombinator, Common Angel, Band of Angels e 500Startups. O ponto alto são os ‘demo days’, eventos que parecem o American Idol do financiamento digital. Neles, os donos das ideias têm três minutos para convencer os donos do dinheiro de que aquele site pode ser o próximo Facebook, ou o aplicativo ser um novo Angry Birds. Depois, recebem um rápido feedback sobre a apresentação – que pode lembrar os sermões de Simon Cowell, no programa musical.

“Todos esses grupos fornecem alguma combinação de dinheiro e ajuda. No nosso caso, dinheiro é de longe o menor componente”, diz o site da YCombinator, empresa que é referência no ramo e já embalou a criação de 208 startups. Ela faz pequenos investimentos (raramente maiores que 20 mil dólares) em troca de possuírem uma pequena parte da companhia que ajudam a fundar (entre 2 e 10%). Mas, além disso, fornecem aos aventureiros conselhos que vão do nome a ser escolhido para a marca até auxílio jurídico na hora de assinar os contratos.

Mas nada disso é exatamente novo. Acontece que, depois do KickStarter, a forma como se consegue dinheiro para tirar uma ideia do papel deu mais um passo em direção ao futuro. Eles fizeram decolar um sistema de financiamento no qual pessoas comuns (não necessariamente ricas, como a maioria dos investidores anjos) doam pequenas quantias para projetos nos quais acreditam. Em troca, podem receber desde uma mensagem de agradecimento até os primeiros exemplares do produto, quando este deixar de ser uma ideia.

No fio do bigode
Um dos segredos do site é a forma simples como ele funciona. O criador pede uma determinada quantia (normalmente, em torno de US$ 15 mil), que deve conseguida num certo tempo (por exemplo, 40 dias). Se ao final do período a vaquinha não tiver batido a meta, o dinheiro volta para a mão dos doadores, assim ninguém corre o risco de colocar dólares em algo que jamais irá acontecer. Atualmente, oito projetos são lançados a cada dia e US$ 1 milhão é arrecadado por semana no site.

O C-Loop, financiado pelo KickStarter: site levanta US$ 1 milhão por semana nos EUA
Divulgação / KickStarter
O C-Loop, financiado pelo KickStarter: site levanta US$ 1 milhão por semana nos EUA
Alguns fazem o internauta se perguntar como ninguém pensou nisso antes. É o caso do prendedor de alça de câmera fotográfica que pode ser atarraxado embaixo da máquina (no furinho do tripé), evitando que ela balance na frente da lente na hora da foto. A ideia foi colocada no ar em novembro do ano passado, com a meta de conseguir US$ 15 mil em 42 dias – quem doasse US$ 5, ganharia adesivos e estamparia o nome no site da marca, quem contribuísse com US$ 35 receberia o produto. O C-Loop acabou arrecadando mais de US$ 63 mil.

Algumas ideias acabaram sendo distribuídas mundialmente, ou chegaram a grandes redes de varejo eletrônico. Tudo isso faz parecer que o KickStarter, que um dia também foi uma startup, está pronto para tornar-se um gigante da internet. Mas isso não está nos planos dos fundadores, segundo eles declararam em entrevistas recentes. Primeiro, porque o site tem um ar de comunidade, meio artístico, meio descolado, que talvez seja um de seus segredos – e que pode se perder caso o ele vire o Facebook dos inventores. Mas há também uma razão mais prática.

Apesar de não ser mais um negócio pequeno, o KickStarter ainda funciona um pouco baseado no velho “fio do bigode”, na confiança da comunidade. Afinal, e se um criador simplesmente pegar o dinheiro e fugir para uma praia no Caribe? E qual a responsabilidade de quem pede US$ 15 mil e recebe mais de US$ 63 mil? Aliás, vale também perguntar: no momento em que esse tipo de financiamento chega ao Brasil, será que nossa cultura menos entusiástica do empreendedorismo individual vai pegar o espírito do crowdfunding? “Essa é a magia da internet”, diz Langer. “Só o tempo pode dizer se a ideia era boa”.

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