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José Antonio do Prado Fay acredita que a fusão de Sadia e Perdigão "é boa para o País"

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José Antonio do Prado Fay, presidente da Brasil Foods, acredita que a fusão de Sadia e Perdigão "é boa para o País" e diz que "não vai maltratar os consumidores" se a operação for aprovada. A seguir, os principais trechos da entrevista:

O relator votou pela rejeição da operação. Qual é a estratégia da Brasil Foods agora?

Estamos apostando no tempo do pedido de vistas (o conselheiro Ricardo Ruiz pediu para analisar o processo até a próxima quarta-feira e interrompeu o julgamento). Pretendemos agora negociar com os quatro conselheiros restantes e mostrar nossos argumentos. E achar um espaço intermediário.

Dá para fazer isso em uma semana?

Como o processo é complexo, não acredito que o julgamento vá acontecer em uma semana.

Na quarta-feira, os conselheiros elogiaram o relator e deram sinais de que poderiam acompanhar seu voto...

É normal, numa situação dessas, o elogio ao voto, mas o pedido de vistas é razoável porque é uma operação muito complexa. É razoável que os conselheiros queiram se aprofundar mais antes de dar um voto, principalmente um voto acompanhado por uma não solução. A reprovação é uma não solução.

Mas do ponto de vista do relator...

Do ponto de vista do relator, não tem solução. Nós achamos isso ruim para todos. Reprovar quer dizer que não há possibilidade de fazer a fusão, não é uma solução. Nós acreditamos que isso não é bom e que teremos espaço para mostrar isso.

Na proposta de acordo, vocês ofereceram vender algumas marcas menores e compartilhar fornecimento de matéria-prima e distribuição. Mas isso foi rejeitado. Estão dispostos a ceder mais para chegar a um acordo?

Esse julgamento está em aberto. Houve um voto e tem mais quatro para serem dados. É um momento delicado de fazer projeções. Eu estou pisando em ovos. Nós propusemos algo inicial razoavelmente robusto. Tudo que oferecemos formaria uma empresa do tamanho do Danone no Brasil. Nossa proposta inicial foi considerada inaceitável e não veio uma contraproposta, porque o relator acha que não tem contraproposta. Isso nos surpreendeu um pouco. Na oferta inicial, não estava prevista a venda de fábricas. Sem problemas. Estamos dispostos a negociar.

Para chegar a um acordo, o sr. está disposto a vender as marcas Sadia ou Perdigão?

De novo, está em aberto. Quero fazer uma negociação e isso significa chegar a algum acordo. A proposta inicial não foi aceita, mas ainda quero defendê-la.

Até agora, quando questionado sobre a venda de Sadia e Perdigão, o sr. dizia que era inaceitável, significaria reprovar a fusão. Isso mudou?

Não é que mudou, mas tem outros contornos. Nós ainda acreditamos que os remédios necessários para aprovar a fusão não passam pelas marcas Sadia ou Perdigão.

Vocês estão abertos a qualquer negociação?

Sempre estivemos. É claro que defendo meu ponto de vista. Não quer dizer que sou inflexível, mas que acredito no que penso. Isso, de certa forma, foi confundido com inflexibilidade. Tanto que quem pediu para negociar fomos nós. Tivemos a sensação de que viria o voto sem a negociação. Acho irrelevante saber quem errou, porque errou, como errou. Nós não conseguimos - eu digo nós, o Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência e a Brasil Foods - não conseguimos um diálogo proveitoso.

O sr. dá a impressão de que a empresa não descarta agora uma negociação que envolva as marcas Sadia e Perdigão. Está errado?

Errado é um termo forte. Você está fazendo ilações. Não estou afirmando que descarto ou não descarto. O que estou dizendo é: eu não quero.

Se o caso for definitivamente reprovado pelo Cade, a BRF vai à Justiça?

Numa situação dessas, não quero adiantar. Temos esses dias para focar nesse acordo e achar um remédio que atenda a empresa e o Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência. Não vou perder essa oportunidade.

Como companhia de capital aberto, a BRF pode enfrentar o desgaste de um processo judicial que se arraste por anos?

Por isso não quero perder essa oportunidade. É difícil prever o desgate na Justiça. É uma verdade que todo mundo usa: Justiça você sabe como começa e não sabe como termina.

Por que o voto do relator foi tão duro?

É difícil saber. Tem de perguntar para ele. Tem um pouco a questão da inflexibilidade. É uma leitura minha. Em vários momentos, senti a empresa colocada como inflexível.

Até os seus advogados no julgamento admitiram que as concentrações de mercado são altas. Segundo o Cade, passa de 50% na maioria dos produtos. Como contornar essa situação?

As concentrações de mercado são altas, mas a análise não se prende a isso. Se analisarmos só market share, não precisa levar dois anos para tomar uma solução. Tem outras coisas para olhar, como barreiras de entrada, eficiências. Não sou economista, sou engenheiro e trabalho há 35 anos no negócio de produtos de consumo. A modelagem matemática pode ou não chegar num resultado correto. Nesses anos todos em que trabalho, não existem categorias com elasticidade de 40% nos preços. Se sobe o preço, o consumidor compra menos. Você acha que um consumidor, principalmente das classes C, D e E, não olha o preço para fazer suas escolhas? O relator disse que os preços de alguns produtos podem aumentar entre 30% e 40%. Nós ficamos muito curiosos. Toda vez que sento nessa mesa e preciso subir o preço, a primeira coisa que o cara de vendas diz é: Chefe, vai cair o volume. É normal. O brasileiro é um grande comedor de frango. E nosso share em cortes e frangos inteiros é de 7%. E esse é o mercado que regula o resto. Nós vendemos conveniência. Se aumento muito o empanado de frango, o consumidor compra o próprio frango.

O sr. ainda tem esperança de que o Cade entenda esse ponto de vista?

Acho que sim. Para achar que vamos aprovar sem restrições, eu teria de estar fora do ar. Isso era uma possibilidade que lamento ter perdido. Aprovar com restrições para mim é uma grande possibilidade por causa de tudo isso que estou falando.

O sr. garante que os preços não vão subir com a fusão?

A missão da Perdigão é fornecer alimentos saudáveis a preços acessíveis. A BRF herdou isso. Conhecemos o consumidor. Achar que somos um mal para o consumidor me deixa doente.

Vocês tinham um competidor grande fazendo sombra. Agora é tudo uma coisa é só...

Não conheço um produto, nem gasolina, que é monopolista, que se o preço subir 40%, o consumidor não pare de comprar.

A defesa de vocês tinha três argumentos principais: eficiência, criar gigante de exportação e salvar a Sadia, que estava quebrada. O relator questionou tudo...

É o trabalho dele. Vou traduzir de outra forma. A BRF é boa para o Brasil. É boa para os consumidores e para os acionistas. Geramos emprego no interior do País, valor agregado. E dizer que escala não é importante para trabalhar no mundo... A Tyson (dos EUA) é três vezes maior do que nós. Três vezes. E esse é o meu concorrente. A JBS é muito maior do que eu. O Marfrig é do nosso tamanho.

O sr. estava em Brasília e não ficou para o julgamento?

Não fiquei. Já esperava que fosse um voto muito duro por conta de como a última reunião com o relator terminou. Essa reunião foi de dois minutos.

As ações caíram 6% na quarta-feira e quase 3% hoje (ontem). Desde o parecer da procuradoria do Cade, quanto a empresa perdeu de valor?

Para cada real de queda de ação, perdemos R$ 872 milhões. A ação chegou a quase R$ 32. Hoje está em torno de R$ 25. Dá uns R$ 5 bilhões de perda de valor da empresa.

Dois anos depois, Sadia e Perdigão podem viver separadas?

É difícil pensar na situação. Hoje, a Sadia é uma subsidiária integral da BRF. Tem presidente e conselho de administração, mas o único votante somos nós, porque a empresa pertence 100% à BRF. Sempre dá para separar, mas não tenho a menor ideia como. Não trabalho com essa hipótese ainda.

A Sadia foi saneada com a capitalização da Perdigão, de quase R$ 5 bilhões. Se der errado, será preciso devolver esse dinheiro?

Não tenho a menor ideia. Esse valor está dentro da companhia. Se for vendida, terá um bom preço de venda.

Como está sendo a repercussão internamente na empresa?

A minha dificuldade é falar com todo mundo, porque somos muitos. Somos mais de 110 mil funcionários. Ontem, eu e o Júlio (Cardoso, presidente da Sadia) enviamos uma mensagem dizendo que estamos enfrentando um voto, que é só o primeiro voto e que o negócio é focar na operação. Tivemos um primeiro trimestre muito bom, muito melhor que a concorrência. E precisamos ter um segundo e um terceiro trimestres bons, porque é o que prova a nossa tese. A empresa é eficiente e não precisa elevar preço.

O sr. está chateado?

Não. Estou cansado. Tenho convencimento de que a operação é boa para o País e para os nossos consumidores. Não entendo como não seria bom para o País ter uma empresa líder em um setor altamente competitivo. Os nossos números são impressionantes, porque o Brasil é muito grande. O que foi colocado no julgamento na quarta-feira é que a empresa é tão grande que vai maltratar os consumidores, Não dá para fazer isso. A empresa é boa para o País, não só para os seus acionistas.

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