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Anúncio de possível fusão com Carrefour é marcado por troca de acusações entre sócios do Pão de Açúcar; veja as cartas na íntegra

O anúncio da proposta de fusão entre o Pão de Açúcar e a operação brasileira do Carrefour foi marcado por um troca de acusações entre Abilio Diniz e o Casino, donos do Pão de Açúcar. No mesmo dia em que o negócio foi divulgado, Diniz e Jean-Charles Naouri, controlador do Casino, enviaram cartas ao conselho de administração do Pão de Açúcar criticando um ao outro.

Naouri disse "lamentar" que Abilio iniciou negociações "secretas e ilegais" sobre o futuro da companhia sem seu consentimento. Em resposta, Abilio se disse com a "consciência tranqulia" e acusou Naouri de recusar o díalogo e promover contra ele um "ataque pela imprensa".

A negociação com o Carrefour fez com que o Casino acionasse Abilio em um tribunal de arbitragem para dar explicações. O processo entre sócios é considerado um último recursos e mostra que a situação entre eles está bastante estremecida.

Veja a íntegra das cartas de Abilio Diniz e Jean-Charles Naouri, do Casino .

Carta de Abilio Diniz:

Caros Diretores e Conselheiros,

Tomei conhecimento da carta que o Jean Charles Naouri enviou a companhia e gostaria de me manifestar também. Todas as manifestações do Casino através de seu controlador e PDG, Jean Charles Naouri, feitas até agora, em relação a minha pessoa e meu comportamento em busca de oportunidades de crescimento para o GPA, têm sido extremamente agressivas e distorcem completamente a realidade dos fatos.

Estou em Paris há 24 horas, tentando sem sucesso um encontro com Jean Charles Naouri, a fim de discutirmos a proposta que recebemos e que precisa ser analisada. JCN se nega a dialogar, prefere me atacar pela imprensa. Não consigo entender o propósito disso. Temos que ter serenidade nesse momento para examinar a proposta de forma objetiva, buscando os interesses do GPA.

Quero lhes afirmar que continuarei o meu trabalho e insistirei para que cheguemos a uma solução amigável para o bem da Companhia e de todas as partes. Peço a todos vocês que confiem em mim, como sempre o fizeram, tenho minha consciência tranqüila, continuarei conduzindo meus atos com a mesma correção que sempre direcionou a minha vida e, portanto, tenho fé em Deus que em breve todo o problema com Casino estará superado e poderemos continuar nosso trabalho com eficiência, alegria e felicidade.

Aproveito para encaminhar nota por mim enviada à mídia, para conhecimento de vocês.
Peço, também, que o teor desta seja tornado público pela Companhia.
Meu abraço a todos vocês.
Abilio Diniz

Veja a carta do Casino:

Prezados Senhores,

Tendo em vista a proposta apresentada publicamente nesta data por Gama 2 SPE Empreendimentos e Participações S/A, e já encaminhada aos senhores pelo Presidente do Conselho de Administração ("Proposta"), vimos informar a V.Sas. que, diante das disposições constantes da Lei n.o 6.404/76 e dos acordos de acionistas firmados pela Companhia e nela depositados, solicitamos ao Sr. Abilio dos Santos Diniz, na qualidade de Presidente do Conselho de Administração da acionista controladora Wilkes Participações S.A., mediante a carta anexa, que convoque imediatamente uma reunião do Conselho de Administração daquela companhia, para discutir os termos da Proposta.

Também encaminhamos, anexo, o press release que nesta data divulgamos ao mercado na França. Solicitamos a V.Sa. que, visando a resguardar os interesses da Companhia, nenhuma negociação com terceiros seja iniciada, nenhuma informação sobre os negócios da CBD seja disponibilizada a terceiros, e nenhum acordo seja celebrado com terceiros, antes de ser obtida a necessária aprovação da acionista controladora Wilkes, na forma das normas de observância obrigatória para a Companhia e seus administradores constantes dos acordos de acionistas registrados na Companhia.

Lamentamos profundamente que, como se tornou público e foi confirmado com a Proposta, o Sr. Abilio dos Santos Diniz, que já alienou e recebeu pelo controle da Companhia em 2005, tenha iniciado e dado curso a negociações secretas e ilegais com terceiro concorrente da Companhia e seus agentes, sem sequer informar ao maior acionista individual da Companhia (o Casino), e negando publicamente a existência de negociações relevantes.

Salientamos que, diante de uma agressão dessa grandeza, não hesitaremos em continuar adotando todas medidas cabíveis para a preservação dos interesses da Companhia e de todos os seus acionistas, e do estado de direito e do respeito à propriedade que caracterizam o Brasil.

Reiterando nossa confiança na administração da Companhia, e nosso irrevogável compromisso com o futuro da CBD, solicitamos que o inteiro teor desta carta seja tornado público, para adequada informação dos investidores, por meio de comunicado ao mercado de CBD a ser divulgado antes da abertura dos negócios nesta data.Atenciosamente,

Jean-Charles Naouri
Casino Guichard-Perrachon

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