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Uma página na história do grupo supermercadista francês Carrefour, o segundo maior do mundo, foi escrita na tarde de ontem, em Paris

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Uma página na história do grupo supermercadista francês Carrefour, o segundo maior do mundo, foi escrita na tarde de ontem, em Paris. Em uma assembleia geral cheia de controvérsias, a empresa anunciou a cisão do conglomerado, separando sua "nave-mãe" Carrefour de sua filial popular (hard discount) Dia. A medida foi adotada com o apoio de 77% dos acionistas e representa uma vitória dos fundos de investimentos Colony Capital e Blue Capital - os mesmos que desejam a venda dos ativos do Carrefour no Brasil. A cisão Carrefour-Dia representa para o grupo original a perda de 10% de seu volume de negócios e a redução de 45,2 mil funcionários, que passam a responder à nova companhia. A justificativa oficial da direção para explicar o negócio é a estratégia de focalização na marca Carrefour. Assim, as lojas do grupo se chamarão Carrefour Planet, para os hipermercados, Carrefour Market, para os supermercados, e Carrefour City, Express ou Contact, para mercados de bairro, com menor porte. Segundo a direção, essa "recentralização" resultará no fortalecimento dos produtos da marca própria, que poderão representar até 40% das vendas em determinados segmentos. A decisão, entretanto, não foi simples. Depois de duas horas e meia de debates, os acionistas questionaram a direção do Carrefour sobre a pertinência da separação e à suposta "falta de vocação" da empresa para ser "um conglomerado". "Vocês adicionarão um outro concorrente às nossas atividades de baixo custo", protestou Louis Bulidon, acionário minoritário do grupo. Substituições. Além da transação, o Carrefour também deu mais poderes ao presidente executivo, Lars Olofsson. Ele agora passa a acumular o cargo de presidente de conselho. Mas essa nomeação foi, de certa forma, ofuscada pela pela ascensão de Sébastien Bazin ao cargo de vice-presidente do Conselho de Administração da empresa. Bazin, que substitui Jean-Martin Folz no posto, também é diretor europeu do fundo Colony Capital, que há dois anos pressiona o Carrefour pela venda de ativos. Além de Folz, diversos executivos da cúpula do grupo perderam seus cargos por "divergência estratégica". As demissões acentuaram a turbulência entre a direção e os sindicatos de trabalhadores do grupo, que denunciam uma tentativa de desmantelamento da empresa. "O conselho do Carrefour enfrenta uma crise de confiança dos assalariados, dos acionários, dos fornecedores e dos mercados", afirmou Michel Enguelz, delegado-geral do sindicato Força Operária. Colony Capital e Blue Capital, proprietários de 14,1% do Carrefour, são acusados por sindicalistas, mas também por acionistas minoritários liderados por Eric Knight, diretor-geral do grupo Knight Vinke - fundo que tem 1,5% das ações do conglomerado -, de forçarem a reestruturação da empresa e a venda de ativos. Por ora, Carrefour e Dia seguem unidas pela troca de ações, mas, para especialistas, nada impede que a rede popular acabe absorvida pela concorrência. Brasil. Outro anúncio importante da assembleia geral - embora com caráter sobretudo retórico - foi o de que o grupo Carrefour vai manter o controle de suas operações no Brasil. Desde o mês passado, há especulações sobre a venda do controle para Abilio Diniz, sócio do Grupo Pão de Açúcar (GPA). O que impediria a transação seria a determinação do Grupo Casino, arquirrival de Carrefour e sócio da companhia brasileira que deseja em 2012 assumir o controle acionário da empresa. Walmart e Cencosud também teriam interesse nos ativos do Carrefour no País. Ontem, sem aceitar comentar o que classificou como "rumores de mercado", Olofsson se disse comprometido com as operações da empresa nos emergentes, citando Brasil, Indonésia e China. Mas não descartou o que chamou de "oportunidades de crescimento": "Eu devo estudar tudo o que acontece e isso deve ser feito para avaliar o potencial de crescimento do Carrefour".

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