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Exportações caíram 20,42% no primeiro semestre deste ano e geram efeito em cascata na indústria nacional

A crise econômica da Argentina que hoje assusta os vizinhos latino-americanos também está gerando prejuízo ao Brasil. Segundo levantamento feito pela Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) a pedido do iG , a redução nas exportações chegou a 20% no primeiro semestre, ou US$ 1,9 bilhão. O saldo comercial entre os dois países, até junho, ainda é positivo para o Brasil – mas menor em 26,5% frente ao primeiro semestre do ano passado.

A inflação alta, o crescimento econômico baixo e o avanço do desemprego geram uma queda geral de consumo no país vizinho.

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O mercado mais afetado é o de automóveis, que representa 19% das exportações para a Argentina. No primeiro semestre, segundo número da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a queda nas vendas para o exterior foi de 23,1%. O setor de autopeças, que compôs 9,6% das exportações ao país até junho, vendeu 17,34% menos.

Fábio Faria, vice-presidente executivo da AEB, explica que por ser o terceiro maior mercado consumidor do Brasil, é natural que a Argentina contamine a economia brasileira com seu problema interno. “O mercado brasileiro está muito lento e não temos competitividade para atender outros mercados mais dinâmicos, como o asiático e o norte-americano”, diz.

O que não é tão natural é o nível de dependência entre as duas economias. O Mercosul tem sido apontado como uma âncora para o comércio exterior nacional – a parceria com a Argentina, um peso ainda mais difícil de carregar. “O bloco não tem crescido e o Brasil está perdendo acordos comerciais e oportunidades com outros países por não conseguir acordo com os pares”, diz Faria. “O Mercosul tem amarrado o Brasil", diz Faria.

Luiz Moan, presidente da Anfavea, não vê prejuízo em carregar a Argentina a tira-colo para as negociações internacionais. Mais que isso, o setor optou por refazer o acordo automotivo, ressaltando a complementaridade das economias e aumentando o compromisso conjunto dos dois países.

As importações de produtos argentinos pelo Brasil também caíram de US$ 8,7 bilhões para US$ 7 bilhões, fruto da redução na produtividade no país vizinho e também do acordo de integração produtiva da indústria automotiva, que prevê uma cota de exportação para os dois países. O novo acordo prevê que para cada carro exportado, cada um dos países pode importar 1,5 veículo.

“O que nós realmente precisamos é aprofundar os ganhos de competitividade para exportar mais”, diz Moan que já espera uma melhora para a economia argentina no segundo semestre. Romper com a parceria está fora de cogitação.

“Essa integração é fundamental para manutenção dos nossos mercados”, destaca Moan. “Agora temos o objetivo de estimular o crescimento do setor de autopeças e buscar, juntos, outros mercados possíveis.” As próximas negociações, com México e Colômbia, serão feitas de mãos dadas com os vizinhos.

Indústria de calçados põe Argentina na geladeira

Enquanto o setor automotivo estreita os nós com a Argentina, a indústria calçadista anda querendo distância do país vizinho. Há um ano e meio o setor enfrenta problemas com a Declaração Jurada Antecipada de Importação (Djai) – que funciona como autorização legal para a entrada de produtos no país.

No ano passado, um milhão de calçados previamente encomendados pelos importadores ficaram presos no Brasil por não conseguir as Djais para entrar na Argentina. “A questão foi resolvida pelo cansaço”, diz Heitor Klein, presidente pxecutivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados). “Até agora há mercadorias dependendo da licença para embarcar.”

Mesmo que haja demanda e Djai, ainda há um outro empecilho: a operação financeira. O importador tem de depositar o pagamento em um banco local para que seja emitida uma ordem de pagamento para um banco brasileiro. Sob fiscalização do banco central argentino, Klein teme que as remessas sejam bloqueadas. “Eles são muito hábeis em encontrar justificativas.”

Com isso, a recomendação da associação tem sido taxativa. “Estamos sugerindo que as empresas não fechem contratos com nenhum importador na Argentina”, conta.

A decisão não é fácil – o mercado vizinho já foi o segundo maior para o setor, perdendo apenas para os Estados Unidos. Hoje os argentinos estão na sétima posição do ranking de principais compradores do Brasil. A expectativa de Klein é de que, já para as compras natalinas, mais calçados brasileiros estejam nas prateleiras argentinas.

Eleições e ameaça de calote devem sustentar o cenário até 2016

As eleições presidenciais no Brasil em outubro próximo e na Argentina no fim de 2015 deverão manter o comércio entre os países estagnado até que seja conhecido o novo presidente do país vizinho. “As empresas estão muito preocupadas e não cogitam crescimento das exportações em nenhum dos dois lados neste ano”, diz Alberto Alzueta, presidente na Câmara de Comércio Argentino-brasileira de São Paulo (Camarbra).

Em Buenos Aires, cerca de 2 mil pessoas foram às ruas para dar apoio ao governo
Reuters
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Para o executivo, nenhum “movimento brusco” deve acontecer – nem no ano que vem, nem em 2015. “A interrogação ainda é muito grande”, diz Alzueta. “Serão dois anos difíceis, porque a situação da Argentina é muito delicada.”

Delicada sim, mas longe de ser catastrófica, na leitura de Luis Fernando Ayerbe, argentino e coordenador do Instituto de Estudos Econômicos Internacionais da Unesp. “O cenário que pintam parece muito mais grave do que ele realmente é. Não é uma crise como a de 2001, é uma acomodação da economia”, explica. “É uma situação recessiva, mas isso não significa que o país está à beira de um colapso.”

Boa parte do otimismo de Ayerbe vem das boas intenções da Argentina, por exemplo, em revisar seu questionado indicador de inflação. “Só sentimos um impacto tão forte na economia brasileira porque o cenário por aqui também está morno. A Argentina já deve entrar 2015 acertando os ponteiros”, antevê.

Somado a isso, a Argentina hoje enfrenta problemas com US$ 1,3 bilhão em títulos da dívida que não foram negociados. Esse acordo será decisivo para saber se haverá ou não um novo calote.

Leandro Ruschel, sócio-fundador da corretora Leandro&Stormer, teme pelo pior. “Se perderem definitivamente na corte de Nova York, abrirão um pré-requisito para outros credores e aí a dívida deverá ultrapassar US$ 90 bilhões, mais que o montante que o governo argentino tem em reserva”, comenta. “A única saída seria o calote.”

O impacto é direto no setor produtivo nacional – com menor demanda para exportação, a produção também cai e, consequentemente, a geração de empregos fica na mira. Segundo números da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o emprego na indústria vinha registrando queda há sete meses consecutivos em maio. A pauta de exportações brasileiras para a Argentina é calcada, principalmente, em produtos industrializados e bens duráveis.

China amplia participação no mercado argentino

Como se não bastasse a complexidade da crise argentina e a acomodação da economia brasileira, os exportadores nacionais ainda precisam enfrentar um outro obstáculo. Enquanto o Brasil perde espaço na pauta de importações, quem ganha relevância é a China.

Segundo o levantamento da AEB, a participação do gigante asiático entre as importações argentinas passou de 12% entre 2008 e 2014. Em compensação, o Brasil, que era responsável os 31% do volume, agora tem apenas 24% de participação.


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