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Consumo das famílias deve ter ligeira aceleração ainda em 2014 e China pode começar a seguir o mesmo caminho para sustentar a expansão

Na ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada na manhã desta quinta-feira (6), o Banco Central (BC) traz uma boa nova a quem temia a estagnação do crescimento econômico – resultado da desaceleração do consumo. Mesmo com "inflação resistente", aumento dos juros e a possível desaceleração na distribuição do crédito ao consumidor, a instituição ainda espera crescimento no consumo para este ano.  

O Comitê enxerga, no horizonte próximo, um cenário em que o consumo tende "a continuar em crescimento, porém, em ritmo mais moderado do que o observado em anos recentes".

Ninguém nega que o Brasil deve muito ao consumo interno. Os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam um crescimento de 29,6% na renda média geral do brasileiro entre 2003 e 2013. A casa própria, os eletrodomésticos, o carro e até os estudos, que faziam parte dos sonhos de consumo de uma boa parte da população, viraram realidade.

Passado o tiro de largada, agora o País enfrenta mais um desafio: o de continuar crescendo mesmo sem a ajudinha extra do consumo. Altamiro Carvalho, assessor econômico da Fecomercio, aponta que já no final de 2013, o consumo parecia estar perdendo o fôlego. “O brasileiro não comprou pouco, mas comprou menos do que poderia, de acordo com as expectativas que tínhamos para o Natal”, diz.

Para o especialista, o custo elevado da produção, que já apertava os preços, agora também dificulta a continuidade do aumento do emprego e da renda. Por ora, o consumo segue crescendo. Em 2013, pelo décimo ano consecutivo, o consumo das famílias avançou. Foram 2,3% de alta no ano passado.

Carvalho entende que o aumento do consumo pelo avanço do crédito criou desequilíbrios. “Esse tipo de política tem data de validade e aumenta o desequilíbrio”, diz. “Há cinco anos que não se chega ao centro da meta da inflação. Isso é um sinal de algo está fora de sintonia entre consumo e produção."

A reclamação, agora, é por reformas, “começando pela tributária e pela trabalhista”, o que reduziria a arrecadação do Governo Federal, uma vez que onerariam menos as empresas que operam no País. Tudo isso em prol do aumento no investimento – que também já sinalizou recuperação nos últimos números do IBGE, referentes a 2013. O investimento cresceu 6,3%, avanço superior ao do consumo das famílias.

Esse aumento no volume investido no País também aparece nos prógnósticos evidenciados na ata do Copom. Na ata, o Banco Central informa que "o cenário de maior crescimento global, combinado com a depreciação do real, milita no sentido de torná-lo mais favorável ao crescimento da economia brasileira". No entanto, todo esse avanço tem uma condição: a confiança do consumidor, que pode sair abalada em um ano tão entrecortado.

Para manter o Estado superavitário, Luiz Alberto Machado, vice-diretor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), lembra também da reforma política. “O equilíbrio não virá se o governo não reestruturar seu tamanho e seu aparato burocrático”, aponta, lembrando que só ministérios são 39, que requerem mais secretários, assessores e outros tantos funcionários que oneram a máquina pública. Este custeio também cresceu: a administração pública custou 1,9% a mais no ano passado, segundo o IBGE.

Leia mais: Depois de erros na previsão do PIB, economistas revisam números para 2013

O professor da Faap também vê sinais de esgotamento no modelo de crescimento baseado no consumo e na expansão da renda. “O endividamento e a inadimplência, fatores que não eram preocupantes até o ano passado, já começam a aparecer”, diz. Machado antevê o crescimento do calote graças aos dados de janeiro, quando o Serasa Experian apurou um aumento de 1,1% na inadimplência do consumidor .

Vale lembrar, no entanto, que esse mesmo indicador encerrou 2013 com uma queda de 2% – primeiro recuo comparativo desde o início da série histórica, em 2000. 

Otto Nogami, professor de macroeconomia do Insper, não espera um grande avanço nesses números nos próximos meses. “Este será um ano difícil por conta do número de dias úteis, carnaval tardio, os jogos da Copa do Mundo e principalmente as eleições no final do ano”, diz. “Diante da perspectiva de um futuro governante, empresários vão postergar investimentos. Podemos esperar um desempenho modesto.”

Um conjunto de ações interligadas pode oferecer estabilidade neste ano entrecortado. “Desde que a condução do debate seja técnica e não política.”

Agora, chineses devem ir às compras

Nos últimos anos, o Brasil buscou o crescimento por meio do incentivo ao consumo e do aumento de renda – agora é a vez da potência asiática levar seu bilhão de chineses às compras

Depois de passar as últimas décadas provocando inveja em todo o mundo com um crescimento econômico anual grandioso – que chegou aos 14,2% em 2006 –, a China já começa a ver o fim da escalada. Em 2013, o PIB avançou 7,7% – o que não é pouco, mas encosta no menor resultado dos últimos 20 anos, quando o crescimento foi de 7,6%. 

O principal motor desse desenvolvimento foi a exportação de manufaturados. Com mão de obra barata, moeda artificialmente desvalorizada e uma crise econômica que atropelou a concorrência, em menos de 30 anos, a China chegou à liderança das exportações no mundo todo. Quando anunciou a reforma que o país, então comunista, enfrentaria, o líder Deng Xiaoping enunciou a frase que seria o emblema da transformação. “Enriqueçam!”, disse o chefe de Estado. E assim o fizeram.

Hoje, se fosse vivo e ainda liderasse o Estado, provavelmente daria uma nova palavra de ordem. “Gastem!”, diria Xiaoping. Em 2009, a pesquisa “Reequilibrando o Crescimento na Ásia”, do National Bureau of Economic Research, em Massachusetts, nos Estados Unidos, identificou que o chinês poupa, em média, 40% do que ganha.

Esse dinheiro, que esteve represado, deverá circular. Agora, com a moeda em trajetória de valorização, o despontar do México e do Sudeste Asiático como bases de produção industrial e a recuperação dos Estados Unidos e da Europa, uma revolução cultural passa a ser inevitável.

Para o país continuar crescendo, a população terá de abrir a mão. “Eles precisam devolver esse dinheiro para circulação no mercado interno”, diz Mauro Guillen, especialista em mercados emergentes que dirige o Lauder Institute na The Warthon School, escola de negócios da Universidade da Pensilvânia (EUA).

A mudança, no entanto, não acontece de um dia para outro. O especialista não conta menos de dez anos até que o consumo interno seja um fermento importante para o bolo econômico chinês. “É uma mudança cultural importante”, diz. “Quando há uma demanda reprimida importante e o hábito da poupança não é forte, o contexto é outro. Os chineses precisam poupar menos.”

Exatamente pelo tempo que leva, esse objetivo já faz parte dos objetivos do País há cerca de uma década. No entanto, a crise mundial deu uma nova sobrevida aos chineses, que puderam postergar a missão cultural. "Não vai ser uma mudança fácil. Lá, se poupa por necessidade, por um sistema de saúde incipiente, um sistema previdenciário pouco consistente e pelo envelhecimento da população", diz Luiz Alberto Machado, da Faap. 

A China vai em direção a este modelo com algumas vantagens. Uma delas, é a larga poupança nacional, que garantirá mais tempo com inadimplência e o endividamento sob controle – ao contrário do Brasil, onde a base do consumo residiu sobre a liberação do crédito. Desde o início da reforma, o país asiático também apostou na infraestrutra, criando portos, aeroportos e estradas. "O país sai de um patamar estrutural muito superior e com uma renda per capita baixa, o que possibilita uma grande margem de crescimento no consumo", diz o professor. 

Agora o País enfrenta mais um desafio: o de continuar crescendo mesmo se a ajudinha extra do consumo perder fôlego
AP
Agora o País enfrenta mais um desafio: o de continuar crescendo mesmo se a ajudinha extra do consumo perder fôlego
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