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Economistas avaliam que o resultado reforça o consenso de que o modelo de crescimento via consumo está esgotado

Brasil Econômico

O comércio continua sendo o destaque da economia. Mas não como antes. Em 2013, cresceu 4,3%, o pior desempenho em dez anos. No ano anterior, a alta havia sido de 8,4% — o que demonstra uma clara desaceleração do setor. A alta dos preços no varejo, de 7,3%, também a maior em uma década pelas contas da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), ocorreu principalmente entre os alimentos, produtos que passam longe do controle do governo (como acontece com a energia elétrica, por exemplo) e dependem mais da proporção entre oferta e demanda, não tão favorável no ano passado.

Com a demanda superior à oferta, aumentou a importação e os preços dos alimentos vendidos nos supermercados
AE
Com a demanda superior à oferta, aumentou a importação e os preços dos alimentos vendidos nos supermercados

A Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela que a receita do setor cresceu mais que o dobro do seu volume, 11,9%, um indicativo a mais de inflação.

Para este ano, a perspectiva de economistas é de manutenção das vendas no patamar de 2013. Como alerta Altamiro Carvalho,economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP), “isso ocorrerá sobretudo por causa da Copa do Mundo, que obrigará as lojas a fecharem as portas por pelo menos 15 dias”. A CNC espera um ano condizente com o segundo semestre de 2013, em que o mercado de trabalho já não estão tão positivo como antes, mas o desemprego se mantém em nível baixo, assim como a inadimplência e os preços, crescendo menos.

“O desempenho do comércio em 2013 pode ser interpretado como um copo meio cheio ou meio vazio. O resultado de 4,3%, comparando a um PIB em torno de 2%, é um dado bom, continua sendo um vetor importante de crescimento. Mas é também meio vazio, porque sinaliza uma desaceleração da economia”, avalia o economista-chefe do banco ABC Brasil, Luis Otávio Leal. Ele ressalta que, ao longo do ano, as vendas desaceleraram mês a mês, até alcançar o resultado negativo de 0,2% em dezembro, em comparação a novembro.

“Já é consenso entre os economistas que o modelo baseado no consumo está perdendo fôlego. Seria bom que fosse baseado no investimento. O que os economistas estão quebrando a cabeça agora é para compreender como transformar o modelo de consumo no de investimento, sem que um mate o outro, é óbvio”, acrescenta.

Em 2013, a desvalorização do real frente ao dólar incentivou a ampliar a importação de produtos que estavam em falta no mercado interno e, com isso, contribuiu com a alta dos preços e deterioração do modelo pautado no comércio varejista, segundo Fábio Bentes, economista da CNC. Ele calcula uma desvalorização do câmbio de 15% ao longo do ano passado, o que tornou a importação mais cara e também o crédito para a compra de produtos estrangeiros. “Tivemos um problema de abastecimento de alimentos. Quando alimentos vão mal, os supermercados vão mal e quando supermercados vão mal, o varejo inteiro vai mal. É quase uma ladainha”, relata Bentes. Além disso, o fim de uma série de desonerações ajudou a tornar as vendas menos atraentes, diz.

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Na contramão esteve o comércio de produtos de uso pessoal e doméstico, que cresceu acima da média do varejo, 10,3%, justamente porque teve uma inflação mais baixa, de 5,4%, inferior à da média do setor, de 7,3%, e da oficial, calculada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 5,91%.

A grande surpresa do comércio no ano passado, no entanto, ficou por conta do segmento de automóveis, que cresceu 1,4%, abaixo da média do setor. O resultado só foi melhor do que o dos hiper e supermercados (1,9%). “Tem um ciclo de compra de bens duráveis que é longo. Ninguém vai ficar comprando carro indefinidamente, até porque o crédito está mais caro”, ressalta Bentes, da CNC.

Para Leal, o desempenho do comércio de carros é mais um indicativo de que está na hora de o governo apostar nas concessões de infraestrutura para destravar os investimentos e o crescimento da economia. “Não só os leilões de concessões têm impacto no investimento, como enche a economia de dados positivos, porque ataca o problema da infraestrutura. Permite que o investimento floresça”, pontua.